Após 20 anos, ex-refém americana relata que sequestro salvou sua vida

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Para Katie Beers, ficar acorrentada por mais de duas semanas em casa em Nova York aos 10 anos lhe permitiu escapar de negligência da mãe e de abusos de marido de madrinha

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Ficar acorrentada por mais de duas semanas em uma caixa no porão de uma casa em um subúrbio de Nova York quando tinha apenas 10 anos foi, segundo Katie Beers 20 anos depois, "a melhor coisa", pois lhe permitiu escapar de uma vida de abusos.

No 20º aniversário do incidente, Katie publicou um livro coescrito com um repórter de televisão que cobriu seu sequestro. "Buried Memories: Katie Beers’ Story" (Memórias Enterradas: A História de Katie Beers, em tradução literal) tem um final feliz.

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Katie Beers, cujo sequestro virou manchete em 1992, é vista em Old Westbury, Nova York (14/01)

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Katie, 30, hoje é casada e mãe de dois filhos. Ela se formou em administração de empresas e trabalha com vendas de seguros perto de sua casa no interior da Pensilvânia.

Seu sequestro atraiu a atenção de todo o país no início de 1993, quando revelações vieram à tona durante seu desaparecimento de que ela havia sofrido anos de negligência de sua mãe e havia sido abusada sexualmente pelo marido de sua madrinha desde pequena.

Depois que o sequestrador John Esposito, um conhecido da família, admitidu para detetives em 13 de janeiro de 1993 que havia sequestrado Katie e lhes mostrou o calabouço onde ela ficou presa durante 17 dias em sua casa em Bay Shore, Nova York, a menina foi colocada em um orfanato e cresceu em uma confortável casa em East Hampton com quatro irmãos.

Seus pais adotivos não só foram responsáveis por discipliná-la, fazendo-a frequentar a escola regularmente e fazer pequenas tarefas pela casa, mas também isolaram Katie do intenso interesse da mídia. E os repórteres em grande parte obedeceram a um apelo de um procurador para que a deixassem em paz.

"Nós, como uma sociedade, devemos proteger uma criança, ou o nosso amor professado por nossos próprios filhos não passará de uma fraude, assim como nossa compaixão um com o outro", disse James Catterson, promotor do Condado de Suffolk na época.

Katie não havia sido vista desde então, até meados de janeiro, em uma ação com a mídia para promover seu livro. Ela apareceu na segunda-feira de 14 de janeiro no programa "Dr. Phil" e foi entrevistada para um artigo da revista People.

Em uma entrevista à Associated Press, ela insistiu que o sequestro e posterior resgate salvaram sua vida. "Essa foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido", disse. "Nunca teria saído da situação de abuso na qual me encontrava se não fosse por isso.”

"Tento não ficar triste com o que aconteceu, pois me fez quem sou hoje e estou muito satisfeita e feliz com a minha vida", disse.

Katie concordou há cerca de quatro anos em coescrever o livro com a repórter Carolyn Gusoff. "Quero poder ajudar as pessoas que podem não saber como pedir ajuda", explicou. "Para que vejam que existe uma saída."

No livro, Katie escreve que foi molestada e estuprada por Sal Inghilleri – marido de sua madrinha – desde pequena. Inghilleri, que serviu 12 anos na prisão por molestar Katie, morreu em 2009 na cadeia depois de ser preso novamente por uma violação de sua liberdade condicional.

Katie também escreveu que Esposito a estuprou na masmorra, explicando que ela reprimiu sua memória da agressão sexual durante muitos anos como um mecanismo de defesa. Esposito, que se declarou culpado pelo sequestro, nunca foi acusado de estupro.

Ele cumpriu 15 anos de uma sentença de prisão perpétua, com seus pedidos de liberdade condicional lhe tendo sido negados várias vezes. Sua próxima audiência de condicional ocorrerá no final deste ano. Em uma audiência em 2007, Esposito descreveu a si mesmo como assexuado e disse que, embora tenha beijado a criança, nunca se envolveu em relações sexuais com ela.

Ele disse a Gusoff em uma carta publicada no livro que acredita que merece ser solto. "Acho que Katie sabe que lhe desejo o melhor em sua vida", escreve Esposito. "Sinto muito pelo que fiz. Me desculpe por sequer ter considerado essa possibilidade. Foi um erro."

Gusoff observa que o abuso sofrido por Katie e a negligência nas mãos de seus parentes antes  podem tê-la preparado para sobreviver ao sequestro.

Dominick Varrone, o detetive do condado de Suffolk que liderou a investigação, concordou com a avaliação, dizendo a Gusoff no livro que, "por causa de sua educação, das experiências sexuais, do abuso, de sua esperteza e tenacidade, ela era muito mais avançada do que uma criança de 9 anos qualquer, e acreditamos que tudo isso tenha contribuído para sua sobrevivência".

Marilyn Beers, que é descrita no livro como uma mãe trabalhadora mas em grande parte ausente que cedeu a responsabilidade de Katie e seu irmão mais velho à esposa de Inghilleri e a outras pessoas, não retornou um telefonema pedindo comentários sobre o livro.

"Espero que muita coisa positiva possa ser extraída do livro", disse Katie. "Adoraria ser capaz de ajudar outras crianças ou adultos. Mas também seria feliz em voltar para a minha vida na zona rural da Pensilvânia e para o meu emprego com vendas de seguros. Eu estou muito feliz."

Por Frank Eltman

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