Crise da moeda iraniana quase duplicou os preços de alguns dos medicamentos e materiais importados, tornando-os inacessíveis para a população de baixa renda

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Pela primeira vez em mais de uma década, os vendedores do mercado negro farmacêutico estão de volta à rua Nasser Khosrow, perto do principal mercado de Teerã. "Medicamentos. Medicamentos", gritam os ambulantes. "Qualquer tipo que você quiser."

Os negócios vão bem. Para muitos iranianos, esses canais são hoje a única maneira de conseguir medicamentos essenciais à medida que as sanções implantadas pelo ocidente por causa do programa nuclear do país têm indiretamente limitado o fornecimento de medicamentos a hospitais e farmácias.

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Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad (centro), visita a usina de enriquecimento de urânio de Natanz, a 322 km de Teerã (08/04/2008)
The New York Times
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Mas para outros iranianos mesmo os vendedores ambulantes não são uma opção. A crise da moeda iraniana mais do que duplicou os preços de alguns dos medicamentos e materiais importados, potencialmente deixando-os fora do alcance de pacientes de baixa renda.

Embora os medicamentos e suprimentos humanitários não estejam bloqueados pelos embargos econômicos sobre o Irã, as pressões estão claramente evidentes em quase todos os níveis dos cuidados de saúde do país. É um sinal do efeito dominó das sanções sobre a vida cotidiana.

Restrições ao acesso do Irã a redes bancárias internacionais significam grandes obstáculos para pagar medicamentos e equipamentos importados - os mesmos problemas que enfrentam muitas empresas que precisam de materiais do exterior.

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Enquanto isso, a crise da moeda do país - vista como um dano colateral das sanções - elevou os preços drasticamente. Uma cadeira de rodas importada agora custa dez vezes mais do que no ano passado. Um kit de teste de açúcar no sangue mais do que duplicou, chegando a 540 mil rials, ou cerca de US$ 18.

Mesmo assim, o mercado negro ainda encontra maneiras de obter suprimentos médicos através de rotas de contrabando ou simplesmente levando encomendas em malas, mas os preços costumam ser mais elevados do que nas prateleiras.

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"Basta você efetuar o pagamento antecipadamente que eu busco o remédio que você precisa", disse Behzad, um vendedor de rua de medicamentos que deu apenas seu primeiro nome. "Temos todos os tipos de medicamentos: europeus, indianos ou chineses. Depende do seu orçamento."

Os golpes econômicos das sanções puderam ser mais percebidos em indústrias-chave, tais como a do petróleo, que corresponde a quase 80% da receita externa iraniana.

No início de janeiro, o chefe da comissão de orçamento parlamentar do Irã, Gholam Reza Kateb, disse que as receitas de exportações de petróleo e gás caíram 45% nos últimos nove meses. O anúncio foi feito antes das medidas de austeridade previstas para março, e que, provavelmente, incluem aumentos de impostos, sejam aplicadas.

Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, visita planta que produz combustível nuclear em Isfahan, 410 km da capital Teerã
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Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, visita planta que produz combustível nuclear em Isfahan, 410 km da capital Teerã

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Mas as autoridades iranianas também sabem dos desafios de tentar obter mais dinheiro de uma economia que vem demonstrando graves sinais de tensão.

Produtos importados da Ásia estão cada vez mais tomando o lugar de produtos ocidentais. Fábricas que dependem de matérias-primas importadas estão tendo dificuldade para continuarem em operação. Os preços de quase tudo - inclusive dos serviços de saúde e medicina - continuam a subir à medida que o rial despenca, chegando a um terço do valor da taxa de câmbio registrado 18 meses atrás.

"Eu vou decidir de quem é a vez", vociferou a enfermeira Zahra Rahmati no hospital estatal no centro de Teerã, onde dezenas de pacientes clamavam por atenção.

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Cenas de hospitais públicos superlotados ficaram comuns ao redor de todo o Irã depois que as taxas dos cuidados de saúde privados quase dobraram nos últimos meses. Os custos na rede pública são muito mais baratos, mas também enfrentam a escassez de suprimentos e longas esperas.

Hossein Ali Shahriari, chefe da comissão parlamentar de saúde, disse que apelou ao presidente Mahmoud Ahmadinejad para lidar com a escassez e o aumento dos preços no setor da saúde. Hoje, os preços de alguns medicamentos e equipamentos paramédicos aumentaram em 200%, disse.

O Ministério iraniano de Saúde e organizações de caridade, em cartas separadas para organismos internacionais, solicitaram um abrandamento do embargo bancário para setores da saúde e da medicina. Mas Ahmadinejad também foi alvo de críticas por ter cortado o orçamento para as importações do setor de saúde.

A ex-ministra da Saúde do Irã Marzieh Vahid Dastjerdi - única mulher a chegar ao gabinete iraniano desde a Revolução Islâmica de 1979 - afirmou que o orçamento de US$ 650 milhões é menos de um quarto necessário para manter os hospitais e farmácias estatais adequadamente fornecidos. Sua contestação a Ahmadinejad levou à sua demissão no final de dezembro de 2012.

Em outra região do Teerã, durante a madrugada, pacientes deixavam a sala de emergência no hospital estatal. Alguns haviam recebido seus medicamentos, mas outros não conseguiram ser tratados. "Eu não sei quantos deles irão sobreviver até meu próximo turno", disse Zahra Rahmati, enfermeira do hospital. "Eu fiz o meu melhor, mas eu sei que não foi o melhor para eles."

À medida que ela ia embora do hospital, mais pacientes estavam chegando.

Por Nasser Karimi

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