Com reconhecimento implícito de Estado palestino por ONU, máxima mudança que presidente Abbas fará por enquanto é ter documentos oficiais com novo emblema

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Com o reconhecimento implícito da ONU de um Estado palestino , o presidente Mahmud Abbas quer que documentos oficiais possuam um novo emblema: "Estado da Palestina."

Novo status: Contra EUA e Israel, ONU reconhece de forma implícita Estado Palestino

Ativista palestino põe bandeira em topo de tenda em vila de Beit Iksa, na Cisjordânia, entre Ramallah e Jerusalém, que consideram estar sendo capturada por Israel (20/01)
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Ativista palestino põe bandeira em topo de tenda em vila de Beit Iksa, na Cisjordânia, entre Ramallah e Jerusalém, que consideram estar sendo capturada por Israel (20/01)

Mas a remoção do velho logo da "Autoridade Palestina" é o máximo que Abbas está disposto a fazer para provocar Israel. Ele não está com pressa em mudar passaportes e documentos de identidade que os palestinos precisam levar consigo através das fronteiras israelenses.

A modéstia das ações de Abbas para mudar o timbre do papel oficial ressalta suas opções limitadas enquanto Israel continua tomando conta de territórios que o mundo diz que devem um dia fazer parte desse Estado. "A Autoridade Palestina não quer causar problemas para seu povo", disse Nour Odeh, um porta-voz do governo de Abbas.

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Abbas conquistou o reconhecimento da Assembleia Geral para um Estado palestino na Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental como Estado observador não-membro no final de novembro, uma rara vitória diplomática sobre um Israel marginalizado. A aceitação por parte da ONU foi importante para os palestinos, pois confirmou as fronteiras de seu futuro Estado incluindo terras capturadas por Israel em 1967.

No entanto, esse reconhecimento não transformou o dia a dia dos palestinos, e alguns argumentam que pode até ter piorado a situação. Em uma aparente retaliação à decisão da ONU, em dezembro Israel reteve sua transferência mensal de US$ 100 milhões em reduções de impostos que recolhe em nome da Autoridade Palestina, aprofundando ainda mais a crise financeira do governo de Abbas.

Desde o reconhecimento da ONU, Abbas tem tentado evitar confronto com Israel e ao mesmo tempo encontrar formas para mudar a situação da população.

Na semana passada, a assessoria de imprensa de seu governo exortou os jornalistas a se referir a um Estado palestino em vez de Autoridade Palestina, o governo autônomo criado duas décadas atrás como parte de acordos de paz com Israel.

Missões diplomáticas palestinas ao redor do mundo foram instruídas a utilizar o novo nome, incluindo em países que não votaram "sim" na Assembleia Geral, disse Omar Awadallah, uma autoridade do Ministério de Relações Exteriores palestino.

O porta-voz do governo israelense, Mark Regev, disse que a mudança de nome seria inútil, mas se recusou a comentar se Israel pretende retaliar de alguma forma. "Em vez de se preocupar com esse tipo de detalhe, os palestinos deveriam negociar com Israel pelo fim do conflito", disse. "Isso nada fará mais do que criar uma situação de dois Estados para dois povos."

Israel se opôs à proposta de Abbas para a ONU, acusando-o de tentar contornar as negociações sobre os termos de um Estado único. Tais conversas permaneceram estáticas por mais de quatro anos, pois Abbas e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, discordavam sobre seus parâmetros. Netanyahu disse estar disposto a ceder terras para um Estado palestino, mas rejeitou recuar para as fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias de 1967 ou desistir de qualquer parte de Jerusalém Oriental, tão desejada pelos palestinos.

Abbas disse que as negociações continuam sendo sua opção preferida e que o reconhecimento da ONU melhorou sua vantagem com Israel, que é um país muito mais poderoso. Desde a votação da ONU, Abbas se esquivou de medidas que poderiam impedir as negociações ao perturbar Israel ou os EUA, que também se opuseram à sua mudança de status na ONU.

Em Washington, a porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, expressou oposição por parte dos EUA em utilizar o termo "Estado da Palestina". "Não se pode criar um Estado por meio da retórica e com rótulos e nomes", disse. "Só se cria um Estado nesse contexto por meio de negociações bilaterais."

Nuland chamou a decisão de Abbas de "provocativa, sem mudar em nada a condição do povo palestino". Alguns países como o Brasil, Costa Rica, Nicarágua e Honduras, adotaram o novo nome. Outros, como a Noruega, Suécia e Espanha, mantiveram o termo Autoridade Palestina mesmo tendo apoiado o reconhecimento da ONU.

Analistas disseram que Abbas mantém a esperança de que o presidente Barack Obama se envolverá mais no conflito israelo-palestino em seu segundo mandato e - livre das restrições de querer a reeleição - tomará uma posição mais rígida em relação a Israel.

Assentamento isralense de Modiin Illit é visto ao fundo enquanto manifestante segura bandeira palestina em frente de soldados de Israel perto do muro da Cisjordânia (17/02/2012)
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Assentamento isralense de Modiin Illit é visto ao fundo enquanto manifestante segura bandeira palestina em frente de soldados de Israel perto do muro da Cisjordânia (17/02/2012)

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Os documentos e papéis timbrados com o novo emblema estarão prontos dentro de dois meses, disse Hassan Alawi, um vice-ministro do Interior da Autoridade Palestina. Autoridades israelenses não quiseram comentar se Israel se recusará a lidar com documentos com o logo do "Estado da Palestina".

No entanto, Alawi disse que seu escritório foi informado por autoridades israelenses após o decreto de Abbas que "não lidará com qualquer nova forma de passaporte ou documento de identidade".

Saeb Erekat, assessor de Abbas, disse que o novo emblema será usado na correspondência com os países que reconheceram o Estado da Palestina. Ele sugeriu que não haverá mudança nos passaportes ou outros documentos que os palestinos precisam para atravessar fronteiras israelenses.

"Não iremos sobrecarregar nosso povo, colocando Estado da Palestina nos passaportes", disse. "Eles (os israelenses) não lhes permitiriam viajar."

Os palestinos devem passar por fronteiras de Israel para deixar a Cisjordânia e também precisam carregar consigo um documento de identificação em todos os momentos ou correm risco de serem presos caso sejam parados em um posto de controle militar israelense no território.

A mudança de nome tem um significado ainda menor para os palestinos em Gaza governada pelo Hamas. Israel se retirou da faixa costeira em 2005, mas continua controlando o acesso por ar, mar e terra, com exceção de uma fronteira de Gaza com o Egito.

"Para mim, é apenas tinta sobre papel", disse Sharif Hamda, 44, um farmacêutico na cidade de Gaza. "Queria que eles poupassem o dinheiro que gastarão com isso e o utilizassem para ajudar as famílias carentes."

Por Karin Laub e Mohammed Daraghmeh

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