Contingente de 330 militares não terá papel de combate e atuará no Mali e em países da África Ocidental com o objetivo principal de treinar as forças malinenses

O Reino Unido enviará cerca de 330 militares ao Mali e à África Ocidental para apoiar as forças da França, anunciou o governo britânico nesta terça-feira.

Nesse total estão 40 conselheiros que treinarão soldados no Mali e 200 soldados que serão enviados a países vizinhos ao Mali na África Ocidental também para ajudar a treinar o Exército malinês. Além disso, 70 serão da força de supervisão aérea e 20 atuarão em um avião de transporte C17. Nenhum dos militares britânicos terá papel de combate.

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Residente de Douentza, cidade alvo de bombardeios das forças francesas, é refletido em espelho quebrado enquanto inspeciona hotel antes usado como base de radicais islâmicos no Mali
Reuters
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Em Bruxelas, uma conferência está sendo realizada tendo como um dos objetivos determinar quais outros países contribuirão com uma missão de treinamento militar da União Europeia para o Mali e para discutir detalhes da missão. Além disso, doadores internacionais prometeram US$ 455,53 milhões para combater os militantes que atuam no país.

O debate sobre o treinamento das tropas do Mali ocorre em meio a sinais de que o Exército do país está mal preparado para combater os militantes islâmicos que controlam a região norte desde o ano passado.

Na semana retrasada, moradores escondidos em suas casas na cidade de Diabaly acreditavam que os soldados malinenses os protegeriam enquanto ouviam explosões durante a invasão de  radicais islâmicos. Mas dezenas de soldados fugiram com medo, arrancando seus uniformes e caminhando para longe do local em plena madrugada.

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"Achávamos que o Exército fosse reagir", disse o morador local Gaoussou Kone sobre o ataque de 14 de janeiro . "Ficamos surpresos ao saber que nossos soldados fugiram. Não há nenhum país africano que seja forte o suficiente para lutar contra esses militantes sozinhos. Eles estão muito bem armados."

Em seu regresso ao centro da cidade na segunda-feira de 21 de janeiro, depois da expulsão dos extremistas islâmicos , os soldados do Mali encontraram a entrada para o acampamento militar repleta de carros carbonizados e armas destruídas pelos ataques aéreos franceses.

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No interior, eles acharam edifícios que os islâmicos haviam saqueado em busca de alimentos e armas. Nem mesmo o refeitório foi poupado, com panelas e tampas jogadas por todo lugar.

Os islamitas não levaram apenas uma coisa: o gris-gris - ou talismã - que membros do Exército malinês usavam para proteção, mas o Exército precisa de mais do que encantos para lutar eficazmente contra os rebeldes.

Deficiência militar

Especialistas em segurança há muito tempo manifestam preocupação com a fraqueza dos militares do Mali e de sua incapacidade de contribuir na intervenção internacional contra extremistas islâmicos, que são combatentes bem armados e determinados.

Quando uma rebelião tuaregue eclodiu no norte do Mali há quase um ano, os soldados do Mali reclamaram que aqueles enviados para lutar no ambiente árido do deserto não receberam suprimentos suficientes, incluindo armas e alimentos. A luta custou a vida de numerosos soldados. Então, após o golpe militar de março de 2012 , o Exército local demonstrou pouca ou nenhuma resistência à medida que os islâmicos tomavam as principais cidades do norte do Mali: Timbuktu , Gao e Kidal.

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Depois de deter o controle do Norte do Mali durante vários meses, os islâmicos partiram para a ofensiva novamente e foram em direção à cidade de Diabaly em 14 de janeiro. Mas dessa vez os militares franceses haviam chegado ao Mali e reagiram com ataques aéreos posteriormente naquela noite. Moradores disseram que os islâmicos fugiram da cidade no final da semana.

Os soldados do Mali não teriam sido capazes de recapturar a cidade sem a ajuda francesa, de acordo com muitos moradores, incluindo Modibo Sawadogo. "Estamos felizes com a presença dos soldados (estrangeiros) por nos tranquilizar, pois sem eles o nosso Exército não teria sido capaz de ter voltado", disse.

No entanto, Modibo Traoré, um porta-voz do Exército malinês, afirmou que os militares estão preparados para o desafio e serão auxiliados por forças que virão de países vizinhos ao Mali.

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"Em cada cidade recuperada haverá unidades africanas que apoiarão os militares para garantir que a cidade continue segura", disse. "Ao mesmo tempo, outros soldados estão avançando para recapturar outras cidades."

Especialistas militares disseram que o Exército do Mali é um parceiro fraco.

"O Exército malinense não está à altura da tarefa de manter o controle de cidades do país por conta própria. Ele precisa do apoio francês e do apoio de uma grande força africana", disse David Zounmenou, pesquisador sênior do Instituto de Estudos de Segurança, em Pretória, África do Sul. "É extremamente arriscado confiar no Exército do Mali."

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As Forças Armadas do país são fracas por muitas razões. Depois que o Mali sofreu golpes em 1968 e 1991, o governo quis reduzir a influência do Exército e fortalecer a democracia, e com isso o orçamento de defesa foi reduzido e seu equipamento tornou-se desatualizado, disse Zounmenou. O Exército do Mali ficou cheio de amigos do regime que somente queriam um empregos, explicou.

No entanto, o Exército malinês agora tem a responsabilidade de manter os centros que foram retomados pelos soldados franceses. Em Diabaly, depois de garantir a cidade, os militares franceses decolaram tão rapidamente quanto chegaram.

O malinenses estão sozinhos novamente - e responsáveis por Diabaly. Alguns moradores, no entanto, perguntam-se o quão seguro realmente estão. Mohamed Sanogo disse: "Ainda não consegui entender a facilidade com a qual os islâmicos foram capazes de capturar esta cidade."

Por Baba Ahmed

*Com BBC e AP

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