Apesar de discurso sinalizar abertura, China mantém forte cerco à imprensa

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Desfecho de protestos em Semanário do Sul mostra que, apesar de nova liderança indicar que favorece diminuir censura, país ainda não pretende abrir mão de controle sobre mídia

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Os novos líderes do Partido Comunista da China querem passar a impressão de que o país está mais aberto, mas não pretendem abrir mão de seu controle sobre a mídia local. Essa foi a mensagem resultante do caso de um influente jornal cujos funcionários brevemente se rebelaram contra a censura.

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Partidário do Semanário do Sul segura placa na qual se lê-se: '1,3 bilhão de chineses têm direito à sua própria voz e não querem ser representados' (08/01)

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A equipe do Semanário do Sul voltou a trabalhar depois que algumas das proibições foram amenizadas, mas as demandas públicas para o fim da censura foram ignoradas. Alguns observadores ficaram aliviados que nenhum jornalista foi punido - pelo menos até o momento.

"O fato de que ninguém foi punido imediatamente é uma vitória. Isso é muito significativo", disse Steve Tsang, um especialista em política chinesa pela Universidade de Nottingham, no Reino Unido.

O novo líder da China, Xi Jinping, aumentou as esperanças reformistas e conquistou um consenso especialmente populista ao prometer combater a corrupção oficial. Em um discurso no início de dezembro, ele elogiou a Constituição da China e disse que os direitos das pessoas devem ser respeitados, comentários que ajudaram a definir o cenário para o combate à censura.

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A Constituição local concede aos chineses muitos direitos, incluindo a liberdade de expressão e de imprensa, mas estes são muitas vezes ignorados. Muitos na China interpretam a Constituição como limitadora do poder do Partido Comunista.

"Nenhuma organização ou indivíduo tem o direito especial de ignorar a Constituição e a lei, e qualquer violação da Carta e da lei deve ser investigada", disse Xi. Muitos comentaristas da mídia viram suas observações como uma oportunidade para cobrar direitos há muito tempo prometidos pelo Estado, mas que até então não têm sido respeitados.

A equipe do Semanário do Sul em Guangzhou - uma cidade do sul do país conhecida por seu comércio livre, ousadia política e flores o ano todo - entrou na briga com o editorial de ano-novo exaltando a adesão à Constituição como o novo sonho chinês.

Jornalistas disseram que o censor provincial mudou o foco do artigo para um que elogiasse o partido - e o fez sem consultar o departamento editorial. Isso violou uma regra informal sobre forma como censura normalmente é empregada.

Durante três dias, centenas de partidários se reuniram em frente aos escritórios do jornal para pedir por mais liberdade de imprensa. Um homem se cobriu em jornal para mostrar sua solidariedade. Mas a disputa também atraiu políticos conservadores que chamaram os jornalistas de "traidores" e "vendidos".

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Na quinta-feira de 10 de janeiro, a polícia começou a limpar o local, afastando os manifestantes e transportando pelo menos cinco pessoas em vans. Jornalistas do Semanário do Sul se mantiveram em silêncio de acordo com as diretivas de não falar com a imprensa estrangeira.

Os funcionários ameaçaram entrar em greve e, depois de dias de negociações, concordaram que desistiriam de aplicar medidas recentemente introduzidas para censurar o conteúdo antes de sua publicação. No entanto, o status quo anterior de outras diretivas como a autocensura, ameaças de demissão e muitas outras medidas de longa data continuaram inalteradas para garantir a obediência ao partido.

O jornal foi publicado no dia 10 normalmente. Um editor disse que alguns dos funcionários tentaram publicar um comentário elogiando o jornal por ser uma tribuna da reforma, mas foram bloqueados pelo governo. O editor pediu para não ser identificado pois havia sido alertado repetidamente para não falar com a imprensa estrangeira.

O Semanário do Sul sempre foi o principal veículo para reportagens e comentários liberais desde os anos 1990. Autoridades do partido e funcionários de propaganda têm repetidamente tentado controlar o jornal, demitindo editores e repórteres que muitas vezes violaram limites não muito bem definidos.

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Manifestantes se reúnem em Guangdong diante de sede de jornal liberal (07/01)

Essa não é a primeira vez que os novos líderes passam uma ideia de que amenizarão as rígidas leis da China, mas eventualmente acabam bloqueando as pessoas que tentam testar os limites. Sob o antecessor de Xi, Hu Jintao, a liderança da China falou sobre a necessidade de fazer valer a lei, bloqueou uma regra muito usada em que a polícia tinha o poder de efetuar prisões de migrantes rurais e, depois de uma tentativa fracassada pelo governo de encobrir um caso de epidemia da SARS, pediu por mais abertura. Mas, no final do ano, o governo de Hu ficou sob a mira de advogados ativistas e intelectuais públicos que pressionaram por uma rápida mudança.

Com sede em Pequim, o historiador Zhang Lifan disse que parte do problema para Xi é que a transição de poder ainda não está completa. Xi tornou-se secretário-geral do Partido Comunista em novembro, mas não será oficialmente o presidente da China até março.

"É difícil para a nova liderança resolver esse assunto, pois não estão em pleno governo ainda", disse Zhang. "Antes de o novo poder se estabelecer, ele permanecerá instável, como um equilibrista na corda bamba, antes que possa se firmar."

Liu Kang, um professor de mídia chinesa e comunicação na Universidade de Duke, disse que o incidente mostra que a liderança do partido tem se deparado com um impasse sobre a liberdade de imprensa. "Se ele flexibilizar muito as regras, o país mergulhará no caos", disse Liu. "Se não o fizer, muitos continuarão frustrados."

Por Did Tang e Gillian Wong

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