Argélia diz ter terminado operação para libertar reféns em campo de gás

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Fontes afirmam que 30 reféns, entre eles sete estrangeiros, e 11 militantes morreram, mas governo argelino ainda não confirmou número total de vítimas

AP
Homem lê jornal com manchete 'Terroristas atacam e sequestram em Amenas' perto de banca na Argélia

A agência de notícias estatal da Argélia APS afirmou nesta quinta-feira (17) que a operação militar para libertar reféns num campo de gás no deserto do Saara foi encerrada.

Pelo menos 30 reféns, entre eles ao menos sete estrangeiros, e 11 militantes islâmicos morreram, disseram fontes argelinas.

O governo do país, por sua vez, informou que vários reféns foram mortos, sem precisar um número exato de vítimas.

Em meio a relatos de mais baixas numa das piores crises internacionais envolvendo reféns nas últimas décadas, líderes ocidentais manifestaram irritação por não terem sido consultados de antemão sobre a operação militar argelina. Cerca de oito horas depois do início da ofensiva, a imprensa estatal argelina disse que a operação já estava encerrada.

Os governos dos EUA, Grã-Bretanha, Noruega, França, Romênia e Áustria disseram que há cidadãos seus entre os reféns. 

Autoridades e imprensa: Alguns reféns escapam de militantes na Argélia 

O governo argelino disse que foi forçado a intervir por conta da resistância dos militantes e seu desejo expresso de fugir levando os reféns. 

"Quando o grupo terrorista insistiu em deixar a instalação, levando consigo os reféns para países vizinhos, foi emitida a ordem às unidades especiais para atacarem a posição onde os terroristas estavam entrincheirados", disse o ministro argelino das Comunicações, Mohamed Said, à agência estatal de notícias. Said acrescentou que os terroristas eram "multinacionais", vindos de diferentes países com o objetivo de desestabilizar a Argélia, envolver o país no conflito em Mali e prejudicar sua infraestrutura de gás natural.

O caso gerou temores de que militantes jihadistas possam lançar mais ataques na Argélia, um vasto país desértico, com grandes reservas de gás e petróleo, que só recentemente começou a se recuperar de um prolongado conflito contra rebeldes islâmicos na década de 1990, que causou estimadas 20 mil mortes.

A APS, agência estatal de notícias da Argélia, disse que cerca de metade dos reféns estrangeiros já estava em liberdade, e que cerca de 600 trabalhadores argelinos no local, sob vigilância menos rigorosas, haviam conseguido fugir.

O número preciso e a nacionalidade dos reféns estrangeiros não puderam ser confirmados, pois alguns países relutam em ceder informações que possam ser úteis aos sequestradores.

Hoje: Argélia cerca radicais e debate ajuda externa para pôr fim a sequestro de reféns 

A Casa Branca afirmou que o governo americano estava preocupado com os relatos de mortes e estava buscando esclarecimentos do governo argelino, enquanto o Primeiro Ministro japonês Shinzo Abe protestou formalmente contra a operação militar, por conta do risco que impunha aos reféns.

Porta-vozes do Primeiro Ministro da Grã-Bretanha David Cameron afirmaram que o país não havia sido informado com antecedência da operação, mas a descreveram como muito grave e séria. O governo norueguês evitou criticar a Argélia, mas disse que gostaria de ter sido notificado antes dos início do ataque ao campo de gás. Seu Primeiro Ministro Jens Stoltenberg disse que mesmo que os argelinos tenham recusado ajuda médica, a Noruega iria mandar um avião com equipamentos de primeiros socorros e equipes médicas.

Um avião não-tripulado do Expército americano acompanhou a operação militar, afirmaram fontes do governo americano. Os Estados Unidos haviam oferecido assistência militar para o resgate, mas o governo argelino recusou a oferta.

"Não me surpreenderia se o número de mortos for tão alto quanto os militantes afirmam. É um fato bem conhecido que os argelinos nunca tiveram pudores de causar um banho de sangue para responder a ataques terroristas," disse Riccardo Fabiani, analista de Norte da África para o grupo Eurasia, que manifestou dúvidas sobre as alegações que tentativas de mediação foram abandonados por causa da intransigência dos sequestradores. "Me pergunto se em apenas 24 horas é possível realmente estabelecer algum tipo de negociação com terroristas. Não acho que eles tenham tentado de verdade".

AP
Foto sem data mostra campo de gás natural de Amenas, na Argélia

Os soldados argelinos cercavam desde quarta os radicais no complexo de Ain Amenas, no Saara perto da fronteira com a Líbia, que foi ocupado durante um ataque em que um britânico e um argelino morreram. Além dos dois mortos, seis outras pessoas ficaram feridas na quarta, incluindo dois britânicos, um norueguês, dois policiais e um agente de segurança, informou a agência de notícias estatal do país. O campo de gás é operado pela estatal de petróleo da Argélia, Sonatrach, juntamente com a petrolífera britânica BP e a norueguesa Statoil.

À Agência de Informação Nouakchott, rede de notícias da Mauritânia que divulga informações de grupos extremistas vinculados à Al-Qaeda, militantes disseram que helicópteros do Exército atacaram o local, matando 35 estrangeiros e 15 sequestradores. O porta-voz do Katibat Moulathamine ("Brigada Mascarada"), grupo fundado por um importante membro da Al-Qaeda no Norte da África que reivindicou a ação, afirmou que Abou El Baraa, líder dos sequestradores, está entre os mortos, enquanto sete reféns estrangeiros estão vivos.

Segundo o militantes, o ataque aconteceu quando eles tentavam deixar o complexo. As informações dos militantes ainda não foram confirmadas oficialmente. À Reuters, um residente local disse que há vários mortos pela operação.

O governo do presidente dos EUA, Barack Obama, disse que ainda não pode confirmar se os reféns americanos estavam vivos ou mortos. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, adiou um importante discurso que faria na sexta-feira na Holanda sobre o futuro do Reino Unido na União Europeia por causa da crise argelina. "É uma situação fluida, muito incerta e que ainda está em processo... temos de nos preparar para mais notícias ruins", disse.

'Retaliação à operação da França no Mali'

Na quarta, os militantes disseram que mantinham 41 estrangeiros como reféns, enquanto o governo argelino afirmava que haveria 20, incluindo americanos, britânicos, noruegueses, franceses e japoneses. Os militantes justificaram a ação afirmando que era uma retaliação à Argélia por permitir que a França use seu espaço aéreo para lançar ataques contra grupos rebeldes vinculados à Al-Qaeda no norte do Mali.

Nesta quinta, o presidente francês, François Hollande, disse que crise na Argélia mostra que a intervenção francesa no Mali é justificada. Segundo ele, os acontecimentos pareciam ter tomado um rumo "dramático", mas que não tinha informação suficiente para permitir uma avaliação correta da situação.

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Previamente à informação sobre a operação para o resgate dos reféns, autoridades e a imprensa local disseram que alguns reféns haviam escapado do local. Detalhes da fuga e o número de envolvidos não estão claro, mas há informações de que entre 15 e 20 estrangeiros e entre 30 e 40 argelinos teriam escapado.

Os agressores mantinham os reféns em uma área do quarteirão residencial, que as forças de segurança e o Exército cercaram, segundo o ministro do Interior argelino, Daho Ould Kabila. Uma fonte da segurança argelina disse que os militantes armados exigiam uma passagem segura para sair com os reféns.

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Porta-vozes dos militantes dizem que eles divulgaram uma lista de demandas, incluindo o fim da intervenção militar francesa no Mali. Além disso, afirmaram que os reféns seriam mortos se soldados tentassem resgatá-los. "Invadir o complexo seria fácil para o Exército argelino, mas o resultado seria desastroso", advertiu.

*Com BBC, AP e Reuters

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