Al-Qaeda esculpe em cavernas e no subterrâneo seu próprio país no Mali

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Militantes se prepararam para intervenção estrangeira cavando elaborada rede de túneis, trincheiras, poços e muralhas, dizem moradores e autoridades locais

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Em cavernas, bases remotas no deserto, nas escarpas e falésias do norte do Mali, extremistas islâmicos se escondem debaixo da terra e estabelecem um conjunto formidável de defesas para proteger o que pode ser considerado, essencialmente, o novo país da Al-Qaeda.

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Eles têm utilizado tratores e máquinas da Caterpillar deixados para trás por equipes de construção para cavar o que os moradores e autoridades locais descreveram como uma elaborada rede de túneis, trincheiras, poços e muralhas. Em apenas um dos espaços, dentro de uma caverna grande o suficiente para abrigar até mesmo veículos, eles têm armazenados cerca de cem tambores de gasolina, garantindo seu abastecimento de combustível no caso de uma intervenção estrangeira, de acordo com especialistas.

Agora a intervenção chegou.

Na sexta-feira, a França enviou 550 soldados e lançou ataques aéreos contra os islâmicos no norte do Mali, iniciando uma batalha no que é atualmente o maior território do mundo ocupado pela Al-Qaeda e seus aliados. Mas a disputa tem sido mais difícil do que o previsto, e os extremistas disseram que será pior do que a do Afeganistão.

"A Al-Qaeda nunca tomou conta do Afeganistão", disse o ex-diplomata da ONU Robert Fowler, um canadense sequestrado e mantido em cativeiro durante 130 dias pela facção local da Al-Qaeda, cujos combatentes agora controlam as principais cidades no norte do país. "Mas eles de fato controlam o norte do Mali."

A filial da Al-Qaeda na África - a Al-Qaeda no Magreb Islâmico, ou AQMI - tem sido uma presença sombria nas florestas e desertos do Mali, um país prejudicado há anos pela pobreza e por um ciclo incessante de fome. No ano passado, o sindicato do terror e seus aliados se aproveitaram da instabilidade política no Mali para sair de seus esconderijos e tomar conta das cidades, passando a dominar um território maior que o da França ou do Texas - e de quase o mesmo tamanho do Afeganistão.

O catalisador para os combatentes islâmicos foi um golpe militar feito no ano passado por parte de soldados descontentes, que transformou o Mali de uma nação antes estável para a péssima condição que se encontra hoje. A perda do governo democraticamente eleito para as mãos de oficiais subalternos destruiu a estrutura militar de comando e controle, criando a oportunidade para que uma mistura de grupos rebeldes se aproveitasse.

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Depois que a comunidade internacional debateu durante um mês sobre o que fazer, o Conselho de Segurança da ONU condicionou uma intervenção militar a uma lista exaustiva de medidas preventivas a serem tomadas, começando com o treinamento dos militares do Mali. Tudo isso mudou em questão de horas na semana passada, quando os serviços de inteligência franceses avistaram dois comboios rebeldes rumo ao sul para as cidades de Segou e Mopti. Caso ambas cidades fossem tomadas, muitos temiam que os islâmicos avançariam para a capital, Bamako.

No fim de semana, o Reino Unido autorizou o envio de vários aviões para transportar os soldados franceses. Outras nações africanas também autorizaram o envio de soldados, e os EUA se comprometeram com auxílio a comunicações e apoio logístico.

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A área sob o domínio dos combatentes islâmicos é deserta e pouco povoada, mas analistas disseram que, por causa de seu tamanho e da natureza hostil do terreno, expulsar os extremistas do local poderia ser ainda mais difícil do que no Afeganistão. O ex-presidente do Mali reconheceu, de acordo com telegramas diplomáticos, que o país não é capaz de patrulhar a fronteira que tem duas vezes o comprimento da divisa entre os EUA e o México.

AQMI não opera apenas no Mali, mas em uma região ao longo de grande parte do Sahel norte. Essa faixa de 7 mil quilômetros de comprimento atravessa a maior parte da África, e inclui partes da Mauritânia, Níger, Argélia, Líbia, Burkina Faso e Chade.

Os islâmicos no norte do Mali se preparavam para uma batalha muito antes do anúncio francês, de acordo com oficiais eleitos e residentes em Kidal, Timbuktu e Gao, incluindo uma diarista contratada pela facção local da Al-Qaeda para recolher rochas cristalinas e detritos para construir uma de suas defesas. Eles falaram sob condição de anonimato por temer pela sua segurança nas mãos dos islamitas, que já disseram que acusarão de espionagem aqueles que conversarem com jornalistas.

Os combatentes islâmicos têm roubado equipamentos de empresas de construção, incluindo mais de US$ 11 milhões de uma empresa francesa chamada Sogea-Satom, de acordo com Elie Arama, que trabalha com o Fundo Europeu de Desenvolvimento. A empresa tinha sido contratada para construir uma estrada financiada pela União Europeia no norte do país entre Timbuktu e a aldeia de Goma Coura. Um funcionário da Sogea-Satom em Bamako se recusou a fazer comentários.

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Na capital regional de Gao, um jovem disse à Associated Press que foram oferecidos a ele e a vários outros 10 mil francos (em torno de US$ 20) por dia por comandantes locais da Al-Qaeda, valor bem acima do salário normal, para limpar pedras e detritos e cavar trincheiras. O jovem disse que viu tratores dentro de um acampamento islâmico em uma ex-base militar do Mali há 7 quilômetros de Gao.

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Fowler descreveu ter andado de carro durante dias com jihadistas que conheciam extensivamente o terreno de Mali, dirigindo por vales de dunas idênticos tendo como ajuda nada mais do que a direção do sol como seu mapa. Ele os viu se aproximarem de uma árvore no meio do nada para encontrar barris de óleo diesel. Em outra parte, ele os viu cavar um buraco na areia e enterrar um saco de botas, marcando o local em um GPS para referência no futuro.

Em seus quatro meses de cativeiro, Fowler nunca viu seus sequestradores irem a um posto de gasolina ou a um mercado. No entanto, nunca lhes faltava gasolina. E, apesar de sua dieta ser escassa, eles nunca ficavam sem alimentos, uma prova da extensa rede de abastecimento que criaram e agora estão refinando e expandindo.

Entre os muitos desafios que um Exército invasor terá de enfrentar está o terreno inóspito, disse Fowler, que muitas vezes "dificultava a respiração” de tão quente. Um documento secreto da embaixada dos EUA em Bamako divulgado pelo site de vazamentos WikiLeaks descreveu como até mesmo os soldados posicionados no norte do Mali antes do golpe só conseguiam trabalhar entre 4h e 10h, passando o dia à sombra de seus veículos.

No entanto, Fowler disse que viu os combatentes da Al-Qaeda cantarem versos corânicos sob o sol escaldante do Saara durante horas, apenas um sinal de seu compromisso e ideologia. "Nunca vi um grupo de homens jovens mais concentrados do que aqueles", disse Fowler, que agora vive em Ottawa, Canadá. "Ninguém está atrás de diversão. Eles deixaram para trás suas esposas e filhos. Eles acreditam estar a caminho do paraíso."

Por Rukmini Callimachi

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