Instabilidade política estimula agressividade em turismo no Egito

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Perante a queda de turistas por causa de tumultos que continuam dois anos após queda de Mubarak, egípcios recorrem à coerção para forçar visitantes a fazer passeios

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Nas pirâmides do Egito, o desespero dos vendedores pode ser um pouco assustador para alguns turistas.

Jovens egípcios cercam qualquer carro com estrangeiros antes que ele sequer chegue às maravilhas do mundo que datam de mais de 4,5 mil anos. Eles batem nas portas e nos capôs, alguns acenando as varas e chicotes que usam para conduzir camelos, exigindo que os turistas venham até a sua loja ou andem de camelo ou apenas lhes deem algum dinheiro.

Saiba mais: Egípcios se preocupam com economia após referendo sobre Constituição

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Turistas estrangeiros visitam o local histórico das Pirâmides de Gizé, no Egito (27/09/2012)

Retrospectiva: Dois anos depois, transições difíceis ameaçam futuro da Primavera Árabe

Na cidade de Aswan, o operador turístico Ashraf Ibrahim recentemente levava um grupo a uma mesquita histórica quando uma multidão de homens oferecendo passeios de carruagem os cercou tentando forçá-los a fazer passeios. Os motoristas disseram a Ibrahim que levasse turistas para seus passeios no futuro para evitar que queimassem seus ônibus.

Os vendedores do Egito sempre foram agressivos - mas eles estão mais desesperados do que nunca depois de quase dois anos de devastação na indústria de turismo, um dos pilares da economia.

Dezembro, tradicionalmente o início do pico da temporada turística do Egito, demonstrou ser ainda pior. Muitos estrangeiros se afastaram por causa das cenas televisivas de protestos e confrontos nas ruas do Cairo na batalha sobre uma Constituição controversa.

Dezembro: Presidente egípcio sanciona a nova Constituição

As visitas caíram 40% em relação a novembro, de acordo com funcionários do aeroporto, falando sob condição de anonimato por não estar autorizados a liberar essa informação.

Trabalhadores do turismo têm pouca esperança de que as coisas vão melhorar agora que a Constituição entrou em vigor após um referendo nacional. A luta pelo poder entre o presidente islâmico Mohammed Morsi e a oposição ameaça entrar em erupção a qualquer momento, em mais agitação nas ruas.

Mais em longo prazo, muitos na indústria temem que os islamitas começarão a fazer mudanças, como a proibição do álcool ou dos trajes de banho em praias, o que afastará ainda mais os turistas.

"Ninguém pode planejar nada, porque um dia você acha que tudo pode ficar bem e no outro que está tudo perdido. Você não pode sequer tomar uma decisão certa ou fazer planos para o próximo mês", disse Magda Fawzi, diretora da Sabena Manegement.

Ela está pensando em fechar sua empresa, que administra dois hotéis na cidade de Sharm el-Sheikh e quatro barcos de cruzeiro de luxo no Nilo entre as antigas cidades de Luxor e Aswan. Em um hotel, apenas 10 dos 300 quartos estão reservados, e apenas um de seus navios está operando, disse. Ela já demitiu 350 funcionários.

"Não acho que haverá qualquer estabilidade com esse tipo de Constituição. As pessoas não vão aceitar isso", disse.

Para complicar as tentativas de atrair turistas de volta ao país, existe o problema da ilegalidade que tem atingido o Egito nos últimos dois anos. Com pouca supervisão da polícia, os vendedores cada vez atacam guias e os próprios turistas para forçar o fechamento de negócios. Em setembro, 150 guias turísticos fizeram um protesto contra os ataques.

"Temos lutado com esse problema desde antes da revolução que derrubou Hosni Mubarak, mas agora a situação está completamente fora de controle", disse Ibrahim.

Nas Pirâmides de Gizé, a polícia parece indiferente. Policiais que controlam o tour em camelos chegam a participar, pressionando os turistas a fazer passeios.

Gomaa al-Gabri, funcionário de uma loja de antiguidades, ficou furioso e chegou a gritar: "Vocês, filhos de cães" e uma série de outros insultos contra um policial tentando obter dinheiro de um turista.

"Eles estão tentando tirar a minha renda", disse o pai de um filho de 11 anos. "Nos tempos de Mubarak, não se atreveriam a falar com eles assim."

Para alguns turistas nas pirâmides, o caos é parte da experiência. "Adoro isso", disse o turista britânico Brian Wilson. "Você não pode culpar as pessoas que querem ganhar dinheiro."

Por Aya Batrawy

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