Artista tatuado concorre à presidência da República Checa

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Na primeira eleição direta da história checa, compositor de ópera tatuado da cabeça aos pés está em terceiro lugar nas pesquisas; votação ocorre nesta sexta e sábado

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Ele é tatuado da cabeça aos pés, uma mistura de cores azul, verde e vermelho.

Ele também está surpreendentemente em terceiro lugar entre nove candidatos nas pesquisas das eleições presidenciais checas, a primeira com voto popular direto da história país. A votação de dois dias começou nesta sexta-feira.

Dramaturgo dissidente: Ex-líder checo Vaclav Havel morre aos 75 anos

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O candidato da República Checa Vladimir Franz dá entrevista após votar nas eleições presidenciais em Praga

Vladimir Franz, um compositor de ópera e pintor, aparentemente pode ser um dos mais improváveis candidatos a ocupar um cargo de prestígio anteriormente mantido pelo amado dramaturgo dissidente Vaclav Havel, professor creditado por traçar a transição econômica do comunismo para um mercado livre.

Alguns apelidaram Franz de “Avatar”. E, durante um debate na televisão, um concorrente o comparou a "uma criatura exótica de Papua Nova Guiné".

Mas ele possui muitos admiradores em um país onde os eleitores estão cada vez mais cansados de políticos corruptos que não cumprem nenhuma de suas promessas, mais de duas décadas após a queda do comunismo.

Franz não tem experiência política e confessa ter pouco conhecimento de economia. Ele disse que só decidiu lançar sua campanha depois que um grupo de admiradores estabeleceu a iniciativa “Franz para Presidente” e pediu que ele estremecesse a disputa com seu poder de surpreender as pessoas. Mas ele agitou a competição de tal forma que um importante economista ofereceu seus serviços gratuitamente, e os funcionários de sua campanha também são voluntários.

Ele gastou apenas US$ 25 mil de doações para sua campanha e nem sequer possui nenhum cartaz nas ruas. Franz entrou para o mundo político com 88 mil assinaturas no final de 2012 - muito mais do que as 50 mil exigidas pela lei. Não filiado a nenhum partido, sua campanha depende principalmente de uma plataforma que destaca a importância da educação e da moral da nação.

"O sistema (político) é tão encantado com ele mesmo que perdeu a capacidade de autorreflexão", disse em entrevista à Associated Press na terça-feira de 8 de janeiro. Os checos, disse, "são obrigados a viver com essa situação desagradável".

Ele é especialmente popular entre os eleitores jovens - e aqueles que ainda não podem votar. Em uma simulação eleitoral em 441 escolas de ensino médio ao redor de todo país um mês antes da votação, Franz teve uma vitória esmagadora, conquistando mais de 40% dos cerca de 60 mil votos.

Estima-se que ele deverá ganhar cerca de 11% dos votos na primeira rodada nesta sexta e sábado - não o suficiente para ficar entre os dois primeiros. Mas pode ser que ele contribua para a vitória dos principais candidatos - os ex-primeiros-ministros Jan Fischer e Milos Zeman - que iriam atrás de seus partidários caso a votação vá para um segundo turno daqui duas semanas.

Karel Strachota, que organizou a votação nas escolas, disse que os jovens não se identificam com os atuais partidos. Franz é visto como "um candidato que não foi contaminado pela política", disse Strachota. "Eles simpatizam com seu inconformismo e com a forma como ele se apresenta."

E, surpreendentemente, poucas pessoas parecem se incomodar com suas tatuagens.

"Pessoalmente, não votaria nele - mas (as tatuagens) não são um problema para todos", disse Tomas Pistora, 33, especialista em TI de Praga. "Os jovens preferem ele, pois não possuem nenhum outro candidato melhor."

Muitos checos, especialmente na capital, não estão chocados com o visual de Franz, pois o professor de 53 anos está sempre presente na Academia de Artes Cênicas de Praga.

"A tatuagem não faz diferença nenhuma para mim", disse Jakub Fisera, um estudante em Praga, acrescentando que a falta de experiência em política poderia ser um problema. "A tatuagem é um sinal de livre arbítrio, e isso não prejudica a liberdade de ninguém", disse.

Pela primeira vez, o presidente ccheco será eleito por uma votação popular - um novo sistema que torna possível que os candidatos independentes, como Franz, possam concorrer ao cargo em grande parte cerimonial.

Vaclav Klaus, o atual líder, opôs-se à mudança. Ele a chamou de "um erro fatal" e disse temer que pessoas como Franz possam ter a oportunidade de suceder-lhe.

À medida que a campanha se aproximava de seu fim na terça, oito candidatos estavam ocupados com a disputa. O nono - Franz - tinha outros assuntos a tratar: um ensaio final de sua ópera "Guerra com os Tritões" na Ópera do Estado.

Dividido entre arte e política, Franz não participou de um debate eleitoral para poder voltar à casa de ópera que faz parte do Teatro Nacional de Praga.

Mas ele se comprometeu a ficar até o final do último debate televisionado na quinta de 3 de janeiro. Não foi uma escolha fácil, mas percebeu que sua credibilidade dependia de sua participação no debate.

"Para um compositor checo ter uma estreia mundial no Teatro Nacional é algo extraordinário. Tive de fazer uma escolha entre um serviço ao público e a realização do meu sonho de vida. Eu optei pelo debate."

Por Karel Janicek

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