Apesar de diferenças, chavistas devem manter união para evitar suicídio político

Por Bruna Carvalho - iG São Paulo |

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Em um eventual futuro sem Chávez, Maduro e Cabello - principais herdeiros políticos do chavismo - devem deixar diferenças de lado em nome do continuísmo, dizem analistas

A ausência de Hugo Chávez do poder por causa da difícil recuperação de sua quarta cirurgia relativa a um câncer levanta questões sobre como será o futuro da Venezuela, que há 14 anos é governada pelo mesmo presidente. Apesar de possuírem diferenças de origem política, os principais herdeiros do chavismo dentro do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) devem permanecer unidos para sobreviver politicamente mesmo sem a presença do líder cuja imagem traduz o movimento, segundo especialistas ouvidos pelo iG.

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AP
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Reeleito em outubro, Chávez foi submetido a quatro cirurgias em 18 meses em decorrência de um câncer diagnosticado em 2011. Em dezembro, entretanto, ele apontou pela primeira seu vice, Nicolás Maduro, como potencial sucessor, colocando em dúvida seu retorno ao governo. Desde a complexa operação em 11 de dezembro, o governo tem fornecido boletins médicos pouco claros sobre o estado de saúde do líder venezuelano, que não aparece em público há mais de um mês.

O ministro das Comunicações e outras autoridades informaram que ele sofreu complicações durante o procedimento cirúrgico e tem uma infecção pulmonar. Desde a internação do presidente, o discurso entre seus aliados é de unidade, mas opositores do governo indicam que há uma disputa entre Maduro e o presidente da Assembleia Nacional do país, Diosdado Cabello.

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Conhecido por ter um perfil mais moderado e conciliador, o ex-motorista de ônibus Maduro faz parte da ala sindicalista do partido e é considerado o político mais próximo do presidente desde o diagnóstico do câncer. Ele continuará governando interinamente a Venezuela enquanto Chávez se recupera, conforme decisão da Suprema Corte que, na quarta-feira, considerou constitutional a decisão do Congresso de prorrogar a data da posse.

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Outro importante herdeiro político de Chávez é Cabello. Ex-militar, ex-governador e ex-ministro, é considerado parte de uma corrente mais linha dura do partido e possui fama de intransigente. Em comparação com Maduro, possui menos contato com Cuba, que tem no governo venezuelano um importante parceiro econômico.

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Unidade

Apesar de representarem duas tendências distintas dentro do PSUV, o cientista político venezuelano Rafael Villa, da USP, aponta que do ponto de vista prático as diferenças de ideais entre Maduro e Cabello não são suficientes para provocar uma ruptura a curto ou médio prazo. Em longo prazo, porém, os riscos de cisão existem em qualquer organização política, ressalva.

Segundo Villa, as divergências podem vir à tona mais para frente no que se refere ao conteúdo de medidas do governo relacionadas, por exemplo, ao diálogo com setores de produção ou à defesa de uma aproximação ou afastamento em relação a algum parceiro estrangeiro. "A divisão, entretanto, não é um fato nesse momento. Esses grupos estão interessados em dar continuidade ao chavismo, essa é a meta fundamental deles", disse.

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A opinião é compartilhada por Leandro Area, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Central da Venezuela. De acordo com o cientista político, sempre que uma figura política que garante a unidade deixa o poder, seus herdeiros tendem a tentar suprir esse vazio, o que geralmente provoca conflitos. Mas, no caso venezuelano, afirma que é pouco provável que os grupos de orientações distintas do PSUV desfaçam o conjunto mantido sob Chávez e criem novos partidos. "Seria uma tendência suicida. Um suicídio no poder", disse. "É preferível (para os aliados) que exista um chavismo sem Chávez, mas que exista um chavismo. Maduro e Cabello sabem disso."

Além do desejo de manter a unidade no poder, a própria situação delicada em que se encontra Chávez faz com que seus aliados protelem essas divergências, aponta Villa. O desafio atual é manter a governabilidade enquanto o presidente está doente. Outro fator que favorece a coesão é a popularidade que Chávez garantiu ao seu governo, graças aos programas sociais e a uma oposição fraca.

Oposição

A oposição da Venezuela, mesmo com o crescimento eleitoral em comparação há quatro anos, ainda não tem capital político para ocupar o espaço eventualmente deixado por Chávez, de acordo com os especialistas. A despeito do aumento da violência, da corrupção e da inflação em torno dos 20%, o governo venezuelano tem bases sociais fortalecidas. Segundo Villa, esse é o principal problema da oposição: falta de aderência nas camadas mais pobres da população.

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Reuters
Partidária do presidente venezuelano, Hugo Chávez, segura um jornal em ato de apoio do lado de fora do Palácio Miraflores (10/1)


Nas eleições regionais de dezembro, por exemplo, os chavistas foram eleitos em 20 dos 23 Estados do país. Henrique Capriles, candidato derrotado por Chávez na eleição presidencial, foi reeleito em Miranda, mas sua vitória foi por margem estreita: alcançou 50,35% dos votos sobre o rival chavista Elías Jaua. "O chavismo na Venezuela hoje em dia não é só uma força política. É uma força social", aponta Villa.

Area afirma que, caso haja um afastamento permanente de Chávez, a oposição enfrentará um obstáculo maior ainda: o de superar o vínculo afetivo criado entre o presidente e a população. Na quinta, nas ruas de Caracas, dezenas de milhares marcaram a posse simbólica do ausente Chávez, em mostra de apoio ao líder doente. "Se houver uma eleição em que se enfrentem Maduro ou Cabello contra Capriles, por exembro, é certo que a oposição voltaria a perder a eleição."

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