Após estupro coletivo brutal, mulheres esperam mudança social na Índia

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Mobilização popular após violência sexual que causou morte de estudante de 23 anos traz esperança de fim para humilhações e medo enfrentados diariamente por indianas

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Preeti Singh fica preocupada toda vez que sua filha de 20 anos precisa passar uma noite no hospital estudantil onde estuda medicina. Se sua filha precisa ficar até mais tarde, Singh pede que ela espere o dia clarear antes de voltar para casa.

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Em protesto em Nova Délhi, indianas seguram cartaz em que se lê: 'Querida sociedade, ensine seus filhos a não molestar em vez de ensinar suas filhas a se vestir' (02/01)

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"Fui criada com o medo de que uma vez que a noite chega, você deve estar dentro de casa", disse Singh, 43, uma professora do jardim de infância em Bangalore, Índia. "Não consigo tirar de mim esse medo."

Ao redor de toda Índia, mulheres contam histórias semelhantes. No entanto, atualmente existe a possibilidade de que isso mude.

Durante décadas, as mulheres não tiveram muitas escolhas. Tudo o que podiam fazer era deixar de pegar um ônibus lotado e ignorar comentários obscenos. Mesmo aquelas que não sofreram abuso sexual vivem com medo de que isso possa acontecer consigo mesmas ou com uma pessoa querida.

O estupro coletivo e espancamento de uma universitária de 23 anos em um ônibus em movimento na capital da Índia fizeram com que a violência sexual – assunto muito pouco mencionado na sociedade indiana – viesse à tona.

Após o ataque em 16 de dezembro em Nova Délhi, que resultou na morte da jovem 13 dias depois, milhares de indianos – homens e mulheres – saíram às ruas das cidades de todo o país, fazendo vigílias à luz de velas e passeatas exigindo que as autoridades tomassem medidas mais rígidas para criar um ambiente seguro para as mulheres.

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"Pelo menos agora as pessoas estão tomando uma atitude", disse Rashmi Gogia, 35, recepcionista em um escritório de advocacia em Nova Délhi.

Jornalistas da Associated Press entrevistaram mulheres em toda a Índia, de cidades ao norte do país como Lucknow e Allahabad, até Bangalore, no sul, passando por cidades do leste como Patna e Gauhati, até Ahmadabad, no oeste.

A indignação provocada pelo ataque tem dado às mulheres pelo menos uma medida de esperança de que o país de 1,2 bilhão de habitantes verá uma melhoria significativa na forma como as mulheres são tratadas, embora a maioria saiba que qualquer tipo de mudança será provavelmente lenta.

Mulheres dispostas a falar sobre um cometário obsceno que já ouviram disseram ter aprendido a ignorá-lo. A maioria delas afirmou ter decidido não prestar atenção a essas humilhações para evitar a irritação de seus agressores ou por medo de envergonhar a si mesmas e a suas famílias.

"O que posso fazer? Tenho de chegar ao trabalho, preciso usar o transporte público", disse Yasmin Talat, 20, uma estudante de pós-graduação e orientadora vocacional em Allahabad, cujos pais não a deixam sair sozinha depois das 19 horas.

O assédio e a violência enfrentada diariamente por milhões de indianas é algo que está profundamente enraizado numa cultura que valoriza mais os homens.

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Os maus-tratos começam logo cedo – com abortos seletivos e até mesmo o infanticídio de meninas, que mexeram com as proporções de gênero da Índia. O censo realizado em 2011 na Índia mostrou que o país tinha 914 meninas com menos de 6 anos para cada 1 mil meninos.

Filmes indianos e programas de televisão rotineiramente banalizam as mulheres. Nas canções, muitas vezes nos filmes de Bollywood, não é incomum que o galã e um grupo de seus amigos persigam uma atriz timidamente relutante, tocando-a, puxando-a e jogando-se em cima dela.

Na televisão, as novelas mais populares mostram a mulher ideal indiana sendo mansa, submissa e aceitando seu papel tradicional dentro da casa.

Qualquer discussão sobre a violência sexual tem sido até agora um tabu. No passado, os políticos disseram que as mulheres deveriam vestir-se modestamente e não ficar fora de casa até tarde para evitar estupros e assédios.

Mas, após o caso do estupro em Nova Délhi, uma máquina governamental geralmente letárgica reagiu rapidamente e com mais empatia do que em casos anteriores. Talvez percebendo a intensidade da raiva do público – alguns ativistas e manifestantes exigiram que todos os estupradores fossem castrados quimicamente, recebessem a pena de morte ou até mesmo que fossem linchados em público –, o governo prometeu recrutar mais mulheres policiais e aprimorar as leis contra a agressão sexual.

Veja imagens dos protestos contra estupro coletivo na Índia:

Manifestantes em Mumbai neste sábado (29/12) protestam contra o estupro de uma estudante que resultou na sua morte. Foto: APPessoas acompanham a chegada do corpo da estudante vítima de um estupro coletivo. Foto: ReutersMulheres indianas acendem velas em protesto contra estupro coletivo de jovem na capital, Nova Délhi; a jovem morreu nesta sexta-feira (28). Foto: APManifestantes indianos são escoltados pela polícia durante protesto contra estupro brutal de estudante em ônibus por gangue no dia 16 (24/12). Foto: APManifestantes tentam se proteger enquanto são agredidos por polícia em Nova Délhi durante manifestação violenta contra estupro coletivo de estudante (23/12) 
. Foto: APPolícia indiana tenta conter mulheres que protestam contra estupro coletivo de jovem de 23 anos em ônibus de Nova Délhi (23/12). Foto: APManifestantes em Nova Délhi pedem maior punição contra suspeitos de estuprar estudante em ônibus (22/12). Foto: APEstudantes seguram cartazes pedindo punição aos estupradores de uma estudante durante protesto em Allahabad, Índia (20/12). Foto: APIndianos participam de vigília à luz de velas do lado de fora de hospital onde vítima de estupro coletivo está internada em Nova Délhi (20/12). Foto: APMulheres fazem protesto em frente à casa da chefe de governo do Estado Sheila Dikshit em Nova Délhi, Índia (19/12). Foto: AP

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A raiva e apoio público fizeram com que muitas mulheres na Índia sentissem que seus medos e preocupações finalmente foram ouvidos.

Ranjana Kumari, diretora do Centro de Pesquisa Social e ativista de longa data dos direitos das mulheres, disse que o fato de que meninos e homens se uniram aos protestos "nos deu esperança". "E isso faz com que a questão seja pertinente a todos e não apenas às mulheres", disse.

Mas ninguém imagina que a mudança acontecerá rapidamente. "O processo é gradual", disse Kumari. "Sociedades extremamente patriarcais não mudam de um dia para o outro. Mas esse movimento, certamente, não será à toa."

Por Muneeza Naqvi

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