Na China, transmissão de 'V de Vingança' surpreende telespectadores

Filme sobre anti-herói anarquista nunca passou nos cinemas chineses; veiculação na TV levanta especulações sobre menos censura sob novo governo

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Telespectadores de toda a China viram um anti-herói anarquista lutar contra um governo totalitário e persuadir o povo a controlar o governo. Em seguida, a internet foi tomada por uma famosa citação do filme "V de Vingança": "As pessoas não devem ter medo de seus governos. Os governos é que devem ter medo de seu povo."

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Máscaras, incluindo a do filme 'V de Vingança', são expostas em loja de Nova York (21/10/2011)

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A exibição do filme na noite da sexta-feira 14 de dezembro na Televisão Central da China surpreendeu os telespectadores e aumentou as esperanças de que a China está diminuindo a censura.

O filme "V de Vingança" nunca foi exibido nos cinemas chineses, mas não está claro se ele chegou a ser banido. Um artigo sobre o Partido Comunista no site do Diário do Povo disse que o filme anteriormente foi proibido de ser transmitido, mas o porta-voz da agência que aprova filmes afirmou não ter conhecimento de qualquer proibição.

Alguns comentaristas e blogueiros acreditam que a transmissão poderia ter sido um ato dos produtores da CCTV testando a censura, enquanto outros apontam um sinal de que o novo líder do Partido Comunista , Xi Jinping, realmente quer a reforma do país.

O filme de 2005, baseado em uma história em quadrinhos, se passa em um futuro fictício em que o Reino Unido é controlada por um governo fascista. O protagonista usa uma máscara de Guy Fawkes, o rebelde inglês do século 17 que tentou explodir o Parlamento.

A máscara tornou-se um símbolo revolucionário para jovens manifestantes em sua maioria de países ocidentais e também tem um status de filme cult na China, já que DVDs piratas estão amplamente disponíveis no mercado. Algumas pessoas têm usado a imagem da máscara como foto de seus perfis em sites da mídia social chineses.

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O governo autoritário da China controla rigorosamente a mídia impressa, televisão e rádio. Censores também monitoram sites de mídia social , incluindo Weibo. Programas precisam ser aprovados pela Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão, mas pessoas com conhecimento da indústria disseram que a CCTV, a única empresa com uma licença de transmissão em todo o país, tem o direito de tomar suas próprias decisões de censura ao mostrar um filme estrangeiro.

"Já foi exibido. E não vejo o porquê de toda comoção", disse uma mulher que atendeu ao telefone no canal de filmes CCTV-6. "Também não previmos uma reação dessa magnitude." A mulher que deu apenas seu sobrenome, Yang, disse que repassaria as perguntas ao seu supervisor, que não foram respondidas.

O porta-voz da Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão disse que havia notado a reação online da transmissão do filme. "Não ouvi falar de nenhuma proibição a esse filme", disse Wu Baoan na quinta-feira de 13 de dezembro.

O filme está disponível em plataformas na China de filmes sob demanda, onde o conteúdo do longa-metragem também precisa ser aprovado pelas autoridades. Um cientista político da Academia Chinesa de Ciências Sociais que costumava trabalhar para CCTV disse que o filme pode ter tido aprovação, ou que a decisão de transmiti-lo pode ter sido da própria CCTV. Warner Brothers, que produziu e distribuiu o filme "V de Vingança", recusou-se a comentar.

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A China não tem um sistema de classificação, e por isso todos os filmes exibidos em seus cinemas são livres para adultos e crianças de qualquer idade. Xie Fei, cineasta e professor da Academia de Filme de Pequim, publicou uma carta aberta no Sina Weibo, no sábado de 15 de dezembro, pedindo às autoridades para substituir o processo de censura de filmes que foi criado na década de 1950 com um sistema de classificação.

A exibição de "V de Vingança" levantou algumas esperanças sobre possíveis mudanças sob o mandato de Xi, que foi publicamente chamado de o novo líder da China no mês passado. Ele já anunciou um estilo de liderança mais contido, convidando oficiais do governo a diminuir o desperdício de tempo e reuniões desnecessárias. Suas reformas visam a agradar a um público muito frustrado pela corrupção local.

A mídia estatal afirma ter diminuído os relatórios das viagens dos oficiais do governo como parte desse movimento. A Agência de Notícias de Xinhua advertiu nesta semana que os meios de comunicação deveriam "aprender a lidar profissionalmente com a informação hoje em dia à medida que um público se torna cada vez mais exigente e os coloca" constantemente sob escrutínio.

Um consultor de empresas e escritor americano com contatos de alto nível da China disse que o comprometimento com o regime de partido único na China no entanto não diminuiu. Portanto, quaisquer reformas na mídia eventualmente terão um limite.

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"Você não pode ter uma mídia totalmente livre como temos no Ocidente e ao mesmo tempo manter a integridade de um sistema de um partido único", disse Robert Lawrence Kuhn, que escreveu o livro "How China's Leaders Think" (Como os Líderes da China Pensam, em tradução literal).

A nova liderança tem de agir com cuidado, disse Kuhn, porque, na era da internet, falar sobre reformas não será esquecido. "Altas expectativas, se não forem cumpridas, poderão piorar a situação ", disse.

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