Belém festeja primeiro Natal após mudança de status palestino na ONU

Principal autoridade católica na Terra Santa afirma que, embora caminho para a verdadeira libertação em relação a Israel continue longo, terra natal palestina nasceu neste ano

iG São Paulo |

Em sua homília anual pré-Natal, o principal clérigo da Igreja Católica de Roma na Terra Santa, o patriarca de Jerusalém Fouad Twal, celebrou neste domingo o recente reconhecimento implítico da ONU a um Estado palestino afirmando que, embora o caminho para a verdadeira libertação em relação à ocupação israelense continue longo, a terra natal palestina nasceu.

Celebração: "Agora temos um Estado", disse Abbas na Cisjordânia após decisão da ONU

AFP
Patriarca de Jerusalém, Fuad Twal (C), é visto em Belém após atravessar barreira de separação de Israel (ao fundo) na Cisjordânia

Twal disse aos fiéis na sede do patriarcado na Antiga Cidade de Jerusalém que as festividades deste ano eram indubitavelmente cheias de alegria, celebrando "o nascimento de Cristo nosso Senhor e o nascimento do estado Palestino".

De Jerusalém, ele começou uma procissão para a cidade cisjordana de Belém, local reconhecido como o de nascimento de Jesus. Lá, ele foi recordado que a vida dos palestinos em campo na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, sob ocupação israelense, e na Faixa de Gaza, sob bloqueio israelense, realmente não mudou desde que a ONU concedeu à Autoridade Palestina, de Mahmud Abbas, o status de Estado observador não-membro .

Twal teve de entrar na cidade bíblica, que é uma região autônoma da Cisjordânia, atravessando um grande portão de metal na barreira de concreto que Israel construiu entre Jerusalém e Belém durante a onda de ataques suicidas palestinos na última década. Ele fez sua entrada acompanhado por tropas de escoteiros palestinos com suas cornetas herdadas do colonialismo britânico (1920-1948).

Além de esse ser o primeiro Natal celebrado na cidade berço do cristianismo desde o reconhecimento da ONU aos palestinos, é também o primeiro desde que Belém se tornou Patrimônio Mundial da Unesco. Os palestinos conquistaram uma vitória histórica em junho, quando obtiveram o registro da Igreja da Natividade e da rota de peregrinação de Belém como Patrimônio Mundial da Unesco, apesar da oposição de Israel e dos EUA.

Sob um límpido céu azul, milhares de turistas e palestinos, cristãos ou muçulmanos, reuniram-se em frente à Basílica da Natividade, local do nascimento de Cristo, segundo a tradição cristã. O cortejo colorido foi a oportunidade para a realização de uma grande festa popular palestina na Praça da Manjedoura, no coração de Belém, onde as festividades são a principal atração turística anual da Cisjordânia.

"Mas é verdadeiramente especial este ano, porque as celebrações ocorrem após a ONU nos conceder o estatuto de Estado. Aos olhos do mundo, nós somos um Estado", comemorou Taghreed Rishmawi, um estudante de 20 anos de Belém.

A partir da meia-noite (20h no horário de Brasília), o patriarca presidirá a Missa de Natal na igreja de Santa Catarina, ao lado da Basílica da Natividade, na presença de Abbas, do primeiro-ministro Salam Fayyad e do ministro jordaniano das Relações Exteriores, Nasser Jawdeh.

"Israel tratará de igual para igual outro Estado para o bem de todos", disse o bispo Twal, considerando "urgente" encontrar uma "solução justa e pacífica para a questão palestina". Ele também pediu ao presidente americano, Barack Obama, uma "ação imediata" para fazer avançar o processo de paz.

Por sua vez, em uma mensagem de Natal, o presidente Abbas disse que, em Belém, "resistimos à opressão com amor; a desafiamos com orgulho; construiremos as instituições do nosso Estado e desenvolveros a nossa infraestrutura apesar da máquina de destruição do ocupante (Israel)".

AP
Peregrina católica observa velas do lado de fora do Grotto na Igreja da Natividade, em Belém, Cisjodânia

Nas últimas semanas, Israel multiplicou os anúncios de projetos para a construção de milhares de unidades habitacionais em assentamentos na Jerusalém Oriental anexada e na Cisjordânia ocupada, em retaliação à conquista palestina na ONU.

Retaliação: Israel diz que congelará repasse de fundos à Palestina após decisão da ONU

Mas para Xavier Abu Eid, um cristão palestino, assessor da Organização de Libertação da Palestina, o novo Estado da Palestina é um sinal de esperança para a paz. "No Natal celebramos o nascimento do Príncipe da esperança e Príncipe da paz. Há 64 anos, o povo palestino espera alcançar uma paz justa", disse à AFP, em referência à "Nakba", o êxodo palestino no momento da criação do Estado de Israel, em 1948.

Em uma mensagem de Natal, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ressaltou que "há em Israel uma comunidade cristã forte e crescente", enquanto "o número de cristãos diminui em todo o Oriente Médio, e muitos estão em perigo".

Violência: Guerra civil na Síria influencia êxodo cristão no Oriente Médio

Durante as férias de Natal, o Exército israelense aliviou as medidas de segurança para facilitar a passagem de peregrinos cristãos nos postos de controle, seja palestinos dos territórios ocupados ou árabes israelenses. Belém está localizada além da barreira de segurança erguida por Israel na Cisjordânia - o que os palestinos chamam de "muro do apartheid".

*Com AP e AFP

    Leia tudo sobre: natalbelémestado palestinoespecial natalisraelpalestinos

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG