Reino Unido homenageia princesa indiana assassinada por nazistas na 2ª Guerra

A filha da rainha Elizabeth 2ª participou de uma cerimônia para a inauguração de uma estátua em homenagem à princesa indiana Noor Inayat Khan, conhecida como a "Princesa Espiã"

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A princesa Anne, filha da rainha Elizabeth 2ª, participou nesta quinta-feira de uma cerimônia para a inauguração de uma estátua em homenagem à princesa indiana Noor Inayat Khan, conhecida como a "Princesa Espiã". A cerimônia acontece nos Gordon Square Gardens, em Londres.

Educada no Reino Unido e na França - e portanto bilíngue -, Khan, descendente da realeza indiana, foi recrutada em 1942 pelo Serviço de Operações Especiais (SOE) para trabalhar em Paris como operadora de rádio. Sua vida é relatada na biografia Spy Princess: The Life of Noor Inayat Khan, escrita por Shrabani Basu.

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Noor Inayat Khan, conhecida como a "Princesa Espiã", foi uma das figuras mais importantes para resistência indiana durante a 2ª Guerra Mundial

Registros históricos mostram que ela foi a primeira operadora de rádio do sexo feminino a ser enviada para a França durante a ocupação nazista. Depois de passar três meses em fuga, a espiã foi aprisionada, torturada e executada pela Gestapo, a polícia secreta da Alemanha nazista, no campo de concentração de Dachau, em 1944. Sua última palavra - dita no momento em que o esquadrão alemão erguia suas armas - foi simplesmente: "Liberté!" (liberdade, em francês).

Segundo a biógrafa Basu, liberdade era um conceito que a princesa - uma pacifista transformada pelas circunstâncias em heroína da guerra - valorizava muito. Por sua bravura, ela foi condecorada postumamente no Reino Unido e na França. Os franceses ainda criaram dois memoriais em sua homenagem e sua morte é lembrada todos os anos no país.

Realeza indiana

Corajosa, glamorosa, sensível e, ao mesmo tempo, capaz de inspirar respeito em oponentes e naqueles à sua volta, Khan teria agido não por amor ao Reino Unido, mas por uma profunda aversão ao fascismo e poderes ditatoriais.

Seu pai era músico e professor de sufismo - corrente religiosa islâmica que tenta alcançar a unidade com Deus por meio de uma vida simples, orações e meditação. Khan foi criada com princípios sólidos e valores de tolerância religiosa e não violência. Basu disse que a princesa "não conseguia suportar a ideia de um país ocupado", um sentimento que, aparentemente, era compartilhado por outros membros da família.

O tataravô de Khan era o Sultão Tipu, o governante islâmico da região de Mysore, no sul da Índia, no éculo 18. Ele não se sujeitou ao domínio britânico e foi morto em batalha em 1799.

Nascida na Rússia em 1º de janeiro de 1914, de pai indiano e mãe americana, a princesa passou a infância em Londres. Mais tarde, a família se mudou para Paris. Lá, Khan estudou medicina e música. Em 1939, uma coletânea de histórias infantis indianas recontadas por ela foi publicada pelo jornal francês Le Figaro.

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De pai indiano e mãe americana, a princesa foi educada em Paris, onde estudou medicina e música

Quando a guerra começou, em 1939, a princesa fez um treinamento para trabalhar como enfermeira para a Cruz Vermelha. Ela fugiu da França pouco antes de o governo francês se render aos alemães, em novembro de 1940, escapando por barco para a Inglaterra acompanhada pela mãe e irmã.

'Tigresa'

Pouco após sua chegada, Khan se alistou como operadora de rádio na Women's Auxiliary Air Force (WAAF), órgão de apoio à Força Aérea britânica integrado por mulheres. Ela chamou a atenção do SOE e, às vezes usando o nome de Nora Baker, passou a fazer parte do seu esquadrão de espiões de elite, em 1942.

Curiosamente, um relatório de treinamento do SOE descreveu Khan como não muito inteligente e "não apta a trabalhar em seu campo de atividade". Apesar disso, ela foi enviada para a França logo depois. Sob o codinome Madeleine, a espiã passou a integrar a rede de resistência Prosper, encarregada pelo então primeiro-ministro britânico Winston Churchill de "atear fogo à Europa".

Mesmo havendo suspeitas de que a rede tinha sido infiltrada por um espião nazista, Khan se recusou a retornar ao Reino Unido. A biógrafa Basu, que passou oito anos pesquisando a vida da espiã, disse à BBC: "Ela era uma pessoa gentil, autora de histórias infantis, uma musicista, mas se transformou. Em batalha, era uma tigresa".

Com vários de seus colegas capturados pela Gestapo, Khan continuou, por tanto tempo quanto possível, a enviar mensagens de rádio interceptadas para a Inglaterra. Seus comandantes insistiam que ela retornasse, mas ela liderou sozinha uma célula espiã em Paris durante mais três meses, mudando com frequência sua aparência e identidade.

Traída e capturada, foi enviada para a prisão Pforzheim na Alemanha, onde ficou presa em regime solitário e acorrentada. Khan sofreu dez meses de espancamentos, tortura e falta de alimentos, mas se recusou a revelar quaisquer informações. Sua coragem - e duas tentativas de escapar - levaram os alemães a classificá-la de "altamente perigosa", apesar de sua educação pacifista.

Força Interior

Em setembro de 1944, a espiã e algumas de suas colegas do SOE foram transferidas para o campo de concentração de Dachau, onde foram executadas. Para Basu, o mundo moderno pode aprender lições com a história de Noor Inayat Khan. "Ela demonstrou força interior e coragem. Imensa coragem e determinação", afirmou.

Para a biógrafa, essas são qualidades importantes no momento complicado que vivemos hoje. "É importante lembrarmos essas qualidades e valores". A escritora chama a atenção também para um fato que muitos no ocidente desconhecem. "Dois milhões e meio de indianos entraram na guerra como voluntários. Foi o maior exército voluntário", disse. "Noor Inayat Khan era parte disso", disse.

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