Obama e Romney têm receitas diferentes para a prosperidade dos EUA

Visões opostas sobre papel que governo federal deve desempenhar no país são ponto crucial de divergência entre democratas e republicanos

Leda Balbino - enviada a Washington |

Ao depositar seu voto nas urnas em 6 de novembro , milhões de americanos não farão uma escolha apenas entre dois candidatos, mas entre uma filosofia conservadora e outra liberal sobre qual papel o governo federal deve desempenhar para fomentar a prosperidade dos EUA.

Defendores da ideia de “governo limitado ou menor”, o Partido Republicano e seu candidato Mitt Romney defendem a ideia de responsabilidade individual e querem pouca (ou mesmo nenhuma) intervenção governamental na economia e setores relacionados. Para eles, apenas a iniciativa privada pode fazer com que o país e, por consequência, todos os americanos, prosperem como um todo.

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Os democratas e o presidente dos EUA, Barack Obama, são favoráveis à ideia de responsabilidade social e a um papel maior do governo onde for necessário: nos setores econômicos, na assistência à saúde, no sistema financeiro. “Os democratas defendem uma mistura de individualismo e comunidade, incluindo um papel importante para o governo lidar com falhas de mercado, aumentar as oportunidades e oferecer uma rede de segurança social”, disse ao iG Thomas Mann, especialista em Estudos de Governança da Brookings Institution.

Para estimular a economia, os republicanos prescrevem baixos impostos, menos regulamentação e menor intervenção, com o argumento de que essa receita impede a distorção do mercado financeiro e a imposição de travas aos empreendimentos privados. “Os republicanos são céticos em relação ao papel do governo federal. Creem que o livre comércio e o capitalismo de mercado resolvem tudo”, disse David Schultz, professor da Universidade Hamline de St. Paul, Minnesota.

Em discurso na convenção do partido em Tampa (Flórida), no final de agosto, o candidato à vice-presidência republicana, Paul Ryan , resumiu essa ideia: “A escolha é entre pôr limites duros ao crescimento econômico ou limites duros ao tamanho do governo, e nós escolhemos limitar o governo.”

Os democratas confrontam esse argumento afirmando que a ausência total de intervenção só beneficia as classes já privilegiadas e, assim, produz um sistema injusto. Para eles, é errada a filosofia de que a geração de riqueza pela iniciativa privada repercutiria de cima para baixo, de forma automática, para o resto da sociedade.

Em sua convenção realizada no início de setembro em Charlotte, o Partido Democrata reiterou que os mais ricos deveriam pagar proporcionalmente mais impostos para que o peso da redução do déficit, do pagamento da assistência à saúde e da oferta de educação e infraestrutura não fosse carregado desproporcionalmente pela classe média.

“Descobrimos que aumentar a igualdade de oportunidades e a perspectiva de alcançar a autonomia econômica não é apenas moralmente certo, mas uma boa filosofia econômica”, disse o ex-presidente Bill Clinton (1993-2001) em seu discurso no evento . “Por quê? Porque a pobreza, a discriminação e a ignorância restringem o crescimento.”

Veja as principais propostas de Obama e Romney:

De acordo com o analista político Geoffrey Skelley, do Centro de Política da Universidade da Virgínia, as duas visões atraem perfis diferentes de eleitor para cada um dos partidos. “Pequenos empresários são em sua grande maioria republicanos pelo seu interesse em menos regulamentação e impostos menores. Negros e latinos são mais favoráveis à intervenção governamental na assistência à saúde e na economia”, afirmou.

Reforma da saúde

De acordo com o professor de direito da Universidade da Dakota do Sul Patrick Garry, autor do livro “Conservatism Redefined: A Creed for the Poor and Disadvantaged” (Conservadorismo Redefinido: Uma Crença pelos Pobres e Desfavorecidos, em tradução livre), a ideia de governo menor tem como base a Constituição americana, que data de 1787.

“A Carta contém provisões para que o governo central não se tornasse tão poderoso em detrimento dos Estados”, disse em referência ao fato de os EUA serem uma república federalista, em que o poder é compartilhado pelos governos federal e estaduais.

Esse é um dos motivos pelos quais os republicanos rejeitam a histórica reforma de saúde patrocinada por Obama e aprovada em 2010 pelo então Congresso de maioria democrata, a mais significativa medida a ser adotada nesse setor nos EUA desde 1965. Para os conservadores, questões relativas à saúde e à educação têm de se restringir ao âmbito local e estadual, e não federal.

Os democratas discordam com o argumento de que a reforma era necessária para encaminhar a nação para um sistema universal de saúde e auxiliar mais de 30 milhões de americanos que atualmente estão à própria sorte por não terem nenhuma cobertura. A medida tem entrado em vigor aos poucos, e a previsão é de que sua cláusula mais polêmica – que obriga cada cidadão a pagar por cobertura sob pena de multa – passe a valer a partir de 2014.

O argumento pela obrigatoriedade é evitar que os indivíduos careçam de cuidado ao longo da vida e, assim, sobrecarreguem mais tarde o sistema de saúde gratuita oferecido para maiores de 65 anos. Como contrapartida, a lei prevê subsídios para ajudar os pobres a adquirir seu plano de saúde e impõe mecanismos para regular o mercado privado e evitar um aumento repentino dos preços.

Quando foi governador de Massachusetts, Romney implementou em 2006 uma lei que também obriga os cidadãos do Estado a ter cobertura. Mas o candidato presidencial republicano critica o "tamanho único" da legislação federal, que vale para todos os Estados. Em junho deste ano, a reforma de saúde de Obama, conhecida popularmente como ObamaCare, recebeu o endosso da Suprema Corte, que a considerou constitucional.

Questões sociais e política externa

Mas republicanos e democratas não discordam apenas na economia ou sobre o papel do governo em áreas como saúde e educação. Os dois partidos têm visões completamente díspares nas questões sociais, como aborto e casamento gay.

Segundo Skelley, a maior parte dos deputados e senadores republicanos se opõe ao aborto e ao casamento gay, enquanto a maioria dos democratas favorece preservar os direitos aos abortos legais, e muitos também defendem o direito ao casamento gay ou ao mesmo o direito às uniões civis.

Na política externa, Romney tem como assessores neoconservadores que favorecem mais investimentos para um Exército mais forte e maior e uma política militarista e intervencionista. Sob Obama, os democratas defendem um Exército menor e um esforço multilateralista se houver necessidade de intervenções militares, como no caso da operação lançada sob mandato da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o líder líbio, Muamar Kadafi , em 2011.

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