Candidatura de ex-deputado pode custar votos a Romney na Virgínia

Agenda conservadora de advogado Virgil Goode, entrevistado pelo iG, tem potencial de desviar votos de republicano e favorecer Obama em Estado-chave

Leda Balbino - enviada a Washington |

Com o argumento de que os dois principais candidatos à presidência dos EUA são – lá no fundo – iguais, o ex-deputado federal Virgil Goode, 66, concorre nas eleições de 6 de novembro com uma convicção antiaborto e a promessa de que equilibrará o orçamento americano, impedirá a imigração ilegal e representará o cidadão comum – e não os “multimilionários”.

“Não temos o dinheiro dos ricaços que apoiam as campanhas dos outros dois candidatos, mas temos a mensagem e a esperança de que cada cidadão nos EUA acorde e veja que não quer ser controlado pelos multimilionários”, disse ao iG por telefone de seu escritório em Rocky Mountain, no centro-sul da Virgínia.

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AP
Candidato presidencial Virgil Goode faz campanha no centro de Lynchburg, Virgínia (13/09)

Para poder concorrer pelo minúsculo Partido Constitucional, o advogado Goode conseguiu 20 mil assinaturas, o dobro do que precisava, em uma petição popular no Estado. O mesmo trabalho foi feito em outras regiões, o que lhe dará o direito de ter seu nome impresso em cédulas eleitorais de ao menos 26 Estados americanos.

Como se diz contra a avalanche de dinheiro que corre na disputa presidencial, Goode financia sua campanha com recursos próprios de US$ 40 mil e doações de no máximo US$ 200. Até agora, diz, conseguiu juntar US$ 200 mil, orçamento que lhe permite ter apenas um funcionário por período integral e três por meio período. Ele não tem nenhum anúncio na TV.

A principal plataforma de campanha de Goode é alcançar o equilíbrio orçamentário com uma receita que inclui o fim dos subsídios e dos departamentos de Energia, Educação e Comércio. Também defende impedir a imigração ilegal argumentando que os estrangeiros sem documentos representam gastos ao país.

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Apesar de não ter nenhuma chance real de vencer a eleição, há quem aponte a possibilidade de a agenda conservadora de Goode retirar votos do candidato republicano, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney , e atrapalhar sua tentativa de impedir a reeleição do presidente dos EUA, o democrata Barack Obama.

“Se ele conseguiu 20 mil assinaturas na petição, provavelmente de pessoas em sua maioria republicanas, pode ser que reverta isso em votos nas urnas e possibilite a vitória de Obama na Virgínia”, disse Tim Hagle, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade do Iowa. “Isso pode definir a eleição como um todo”, afirmou.

Não seria a primeira vez na história americana. Em 2000, democratas acusaram Ralph Nader, do Partido Verde, de retirar votos de Al Gore na Flórida, resultando na vitória de George W. Bush. “Nader conseguiu cerca de 60 mil votos na Flórida, e Bush ganhou o Estado por uma diferença de quase 600 votos”, disse Hagle.

Disputa acirrada

O motivo para um candidato menor poder influenciar um resultado é o fato de a eleição nos EUA não ser definida pelo voto popular nacional, mas por uma disputa Estado a Estado e pelo número de votos a que cada um deles tem direito no Colégio Eleitoral – órgão em que um candidato tem de conquistar 270 dos 538 votos para vencer.

Com 13 votos no Colégio Eleitoral, a Virgínia tem especial importância nessa matemática por ser um dos swing states (Estados-pêndulo, em tradução livre), cruciais por terem um resultado eleitoral incerto. De acordo com média de pesquisas do site Real Clear Politics, Romney e Obama estão praticamente empatados na Virgínia – então, cada voto conta.

Mas Garren Shipley, diretor de comunicações do Partido Republicano na Virgínia, subestima o impacto de Goode na eleição. Segundo ele, no ano passado um candidato também na região centro-sul do Estado parecia que representaria um risco para um republicano na corrida para o Senado estadual se alcançasse mais de 4% dos votos. No final, conta Shipley, “ele voltou para casa com apenas 1%”.

“Os eleitores republicanos conservadores dessa área entenderam que, se queriam o democrata derrotado, teriam de votar no nosso candidato. Temos certeza de que nossos eleitores sabem que um voto em Goode é um voto em Obama”, disse Shipley ao iG em seu escritório na cidade de Richmond.

Apesar das declarações, o Partido Republicano pressionou Goode para que retirasse seu nome da cédula. A legenda contratou advogados para desafiar a candidatura em comissões estaduais, manobra que foi bem-sucedida na Pensilvânia, mas falhou na Virgínia.

“Como conseguimos o dobro de assinaturas na Virgínia, isso nos ajudou muito”, disse o candidato do Partido Constitucional, que foi eleito pela primeira vez ao Congresso como um democrata em 1996 e rompeu com o partido após votar pelo impeachment de Bill Clinton (1993-2001) no escândalo de Monica Lewinsky. Ele se tornou um republicano em 2002, e então perdeu seu posto em 2008.

De acordo com uma pesquisa do jornal Washington Post feita entre 12 e 16 de setembro, Goode tem o apoio de 2% dos eleitores da Virgínia. Não há dados mais recentes, porque as sondagens atuais se concentram apenas nos dois principais candidatos. Sobre a possibilidade de sua agenda conservadora desviar votos de Romney em 6 de novembro, Goode aposta no contrário. “Vamos atrair democratas que votaram em Obama em 2008 e nunca depositaram um voto a favor dos republicanos”, afirmou.

Questionado se acreditava que os 20 mil signatários de sua petição se converterão em eleitores efetivos na próxima semana, Goode indicou não ter convicção. “Acho que alguns sim, outros não”, respondeu. “Alguns assinaram a petição dizendo não saber se votariam em mim, mas o fizeram para que os eleitores pudessem ter outras opções e não apenas estar presos a Romney e Obama”, afirmou.

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