Crise causada por tempestade Sandy representa ao mesmo tempo risco e oportunidade para democrata e republicano estimularem eleitores às urnas

Para o candidato republicano, Mitt Romney , a tempestade Sandy não poderia ter acontecido em um pior momento para sua campanha em Estados-chave da eleição, como a Virgínia. Enquanto o presidente dos EUA, Barack Obama, conseguiu ir ao Estado no dia 25 para um de seus últimos comícios eleitorais, o ex-governador de Massachusetts teve de cancelar uma visita prevista para o domingo por causa da chegada da tormenta à costa leste americana. Além da Virgínia, Romney também suspendeu comícios em Wisconsin, Ohio e Iowa.

Obama também foi obrigado a abrir mão de eventos previstos para segunda-feira na Flórida, Ohio e Virgínia ao lado do popular ex-presidente Bill Clinton (1993-2001), mas teve a chance de ficar sob os holofotes nacionais e projetar liderança presidencial ao comandar os esforços de emergência ao furacão. Embora carregue o ônus da responsabilidade em relação à crise, uma eventual resposta bem-sucedida ao fenômeno pode favorecê-lo perante seu rival nas urnas no dia 6.

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O diretor de Comunicações do Partido Republicano na Virgínia, Garren Shipley
Leda Balbino
O diretor de Comunicações do Partido Republicano na Virgínia, Garren Shipley


Em uma eleição que promete ser uma das mais acirradas da história, a presença dos dois candidatos em campo é essencial para fazer eleitores, principalmente os indecisos, irem às urnas em um país onde a votação não é obrigatória. E estimular o comparecimento é a base das duas campanhas na Virgínia.

“Desde 2009, temos uma ampla campanha para estimular as pessoas a votar aqui”, disse ao iG o diretor de Comunicações do Partido Republicano no Estado, Garren Shipley, em seu escritório na cidade de Richmond. “Até 2008, não havíamos percebido que tínhamos de estar preparados na Virgínia para um eleição apertada em nível nacional.”

O alerta foi disparado nas eleições presidenciais de 2008, quando Obama pôs fim ao reinado de 44 anos dos republicanos no Estado. Após o “preço pago pelo despreparo” de há quatro anos, contou Shipley, o partido montou na Virgínia um aparato com mais de 30 escritórios voltado ao amplo contato com os eleitores e a um trabalho de porta em porta para estimular o comparecimento eleitoral.

A Virgínia é um de nove Estados cruciais no dia 6 pelo fato de a eleição americana não ser definida pelo voto popular nacional, mas indiretamente por disputas estaduais que equivalem a votos no Colégio Eleitoral . Chamados de swing states (Estados-pêndulo, em tradução livre), Carolina do Norte, Colorado, Flórida, Iowa, Nevada, New Hampshire, Ohio, Virgínia e Wisconsin são cruciais porque o resultado de sua votação é incerto e porque totalizam 111 dos 538 votos do Colégio Eleitoral – em que é necessário conquistar 270 votos para vencer.

Segundo Shipley, o aparato criado após a última eleição presidencial vem rendendo bons frutos. “Nosso primeiro teste foi em 2009, quando elegemos nosso governador por uma diferença de 17 pontos porcentuais sobre o democrata”, afirmou, pontuando que também superaram os rivais políticos nas eleições para o Congresso nacional em 2010 e para o Congresso estadual em 2011. “Então, o sistema que construímos aqui é tão bom, ou melhor, do que o dos democratas.”

Questionado por que então Romney e Obama estão empatados no Estado, que conta com 13 votos no Colégio Eleitoral, o republicano primeiramente brincou que, se soubesse a resposta, estaria ganhando mais. Depois pontuou que o presidente americano saiu em vantagem no Estado pelo fato de os republicanos só terem escolhido seu candidato em 29 de maio, após um longo processo de primárias do partido . “Só nos sobraram cinco meses para pôr toda a força atrás de Romney”, afirmou.

Outro motivo, segundo republicano, é o fato de a campanha de Obama nunca ter deixado o Estado. “Depois da vitória em 2008, a campanha ‘Obama para a América’ foi transferida para o Comitê Nacional Democrata. Então, o presidente Obama vem fazendo campanha pela reeleição há quatro anos”, disse.

‘Obama para a América’

De acordo com memorando de 24 de outubro de Jeremy Bird, diretor da campanha de campo do Partido Democrata, a legenda tem 60 escritórios do “Obama para a América” na Virgínia.

Para ganhar no Estado de 8 milhões de habitantes, o partido aposta no alto comparecimento de negros (20% da população), hispânicos (8%), mulheres e menores de 35 anos às urnas no dia 6. Desde 1º de agosto, indicou o documento, 50 mil negros e hispânicos, 105 mil menores de 35 anos e 87 mil mulheres se registraram para votar – grupos em que o líder americano tem vantagem sobre Romney, segundo pesquisas.

Irene Hughes, voluntária da campanha de Obama na Virgínia
Leda Balbino
Irene Hughes, voluntária da campanha de Obama na Virgínia

Em seu relatório, Bird aponta, porém, que a maior força de Obama no Estado são “as equipes que estão em campo há muito tempo e têm raízes profundas”, ecoando a percepção de Shipley de que a campanha manteve sua atuação no Estado durante os últimos quatro anos. “Não são apenas nossos 60 escritórios, são centenas de locações gerenciadas por líderes voluntários que foram treinados para organizar suas comunidades.”

Uma das pessoas motivadas por essa estrutura é a aposentada Irene Hughes, de 63 anos, que oferece seu tempo para ajudar a campanha em Richmond. Cheio de cartazes com palavras de incentivo e agradecimento e retratos de Obama e de seu vice, Joe Biden, o escritório local do “Obama para a América” estava movimentado no dia 24 com partidários que buscavam ingressos para participar do comício de Obama no dia seguinte.

Mas, segundo indicou Irene, não era algo restrito ao evento. “Quanto mais a eleição se aproxima, mais as pessoas vêm aqui. Mais querem ajudar, se interessam. Elas estão centradas na campanha, sabem que há muito em jogo”, afirmou. Por isso, acredita que o comparecimento a favor de Obama está garantido para a próxima semana.

Questionada se vê os 20% da população negra da Virgínia como essencial para repetir o sucesso de 2008, Irene lembra que há quatro anos conheceu pessoas que votaram pela primeira vez por estarem entusiasmadas com o democrata. “Mas não acho que votaram nele só por ser negro – isso é um toque a mais”, afirmou. “O primeiro presidente negro acabou sendo inteligente, gentil, cuidadoso. Obama é o pacote completo”, completou.

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