Crime e insegurança são desafios do próximo presidente da Venezuela

Alta taxa de homicídios e de armamentos assustam população do país, que vai às urnas neste domingo

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"Queria pôr fogo no bairro", disse María Elena Delgado, lembrando a morte do primeiro dos três filhos que perdeu por causa da violência em um bairro pobre de Caracas, reflexo da alta insegurança na Venezuela, o principal desafio para o presidente que for eleito no domingo .

"Mas dizia, meu Deus, violência gera violência, não posso fazer isso porque meus filhos vão ter problemas", disse ela, que viveu seus 57 anos no populoso bairro de Petare, onde sua casa de tijolos é uma das milhares com a construção pela metade, que cobrem os morros desta área.

Erasmo, de 15 anos, foi usado como "escudo em uma briga entre malandros (delinquentes)". Um ano depois Norka, de 12 anos, morreu com uma bala perdida na cabeça que o atingiu ao atravessar a rua, e um terceiro, Wilmer, de 40 anos, morreu quando um tiro atravessou seu rosto durante um tiroteio antes de descer de um ônibus.

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Em Caracas, homem passa por pôsteres do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que tenta reeleição no domingo

María Helena também perdeu um sobrinho e um neto, em 2009 e 2010 respectivamente, quando tentaram assaltá-los, conta a mãe de 15 filhos, oito dos quais crianças, sentada na única cadeira de sua pequena casa.

A história de María Helena é apenas uma amostra da violência nas ruas da Venezuela, onde foi registrada uma taxa de 50 homicídios a cada 100 mil habitantes em 2011, equivalente a 14.092 assassinatos, colocando o país como o mais violento na América do Sul, segundo dados oficiais.

O drama se repete em outro extremo da cidade, onde outra mãe vive o luto de perder um filho. A mulher espera em silêncio o corpo de Yosmel, de 16 anos, na porta do necrotério de Bello Monte da capital.

Em Petare, três ou quatro vezes por dia são registradas mortes durante disputas entre "gangues pela venda de drogas, armas ou poder no bairro", disse o policial Gualter Pereira, durante uma patrulha noturna neste bairro acompanhada pela AFP. "Fazemos o que podemos", diz Pereira resignado, se queixando de que os "delinquentes têm armas melhores" que os policiais.

Corpos de vítimas da violência chegam diariamente à funerária Virgen de la Luz de Petare, diz à AFP o gerente Jose Zamora. Atualmente "assaltam uma pessoa e a matam porque ela não tem dinheiro, sequestram uma pessoa, cobram o resgate e a matam. É algo que não tem uma explicação lógica", comenta Zamora, acrescentando que "quanto mais desigualdade social mais delinquência".

Ele diz, contudo, que em sua funerária são velados principalmente criminosos mortos a tiros. Apesar de não existir na Venezuela um conflito armado ou uma guerra contra o narcotráfico, como em outros países da região, essas mortes são registradas diariamente, a maioria por causa de crimes com armas de fogo, segundo as autoridades.

Com 28,9 milhões de habitantes, circulam pelo país entre 9 e 15 milhões de armas legais e ilegais, segundo dados oficiais de 2009. María Helena Delgado afirma que em seu bairro "há bastante gente armada" e que agora usam armas praticamente para resolver "todos os problemas".

O presidente Hugo Chávez, que no domingo buscará ser reeleito, admitiu que a violência no país é um problema grave. Seu rival na eleição, o ex-governador Henrique Capriles, acusa o governo de ter sido incapaz de resolver o problema da insegurança em seus 14 anos de gestão e alerta os venezuelanos que uma reeleição seria "mais do mesmo".

O governo se defende lembrando que implantou planos de combate ao crime, como a criação da polícia nacional em 2009, operações especiais de segurança e uma campanha de desarmamento, que começou o ano passado.

Contudo, o diretor do Observatório Venezuelano de Violência (OVV), Roberto Briceño, questiona a efetividade desses planos e considera que a situação vai além do tema social. Segundo o especialista, a chave está em uma institucionalidade frágil e a alta impunidade.

A violência se intensificou para "a resolução de conflitos normais em uma comunidade, que não encontra saídas jurídicas-institucionais". "O que ocorre na Venezuela é que não existe uma vontade política para fazer com que a lei seja cumprida", acrescenta.

María Helena Delgado também é testemunha desta impunidade. Depois dos assassinatos de seus filhos, ela conta que "várias pessoas foram presas, mas logo foram soltos". "Aí houve o poder do dinheiro: você me paga e eu te solto", sentencia.

Briceño considera que é preciso "mensagens muito claras de que aqueles que descumprem a lei serão punidos" e critica o tom beligerante do discurso oficial, por exemplo quando Chávez "disse que esta é uma revolução pacífica, mas armada", o que para ele legitima a violência entre as pessoas.

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