Na ONU, Dilma condena violência na Síria e preconceito contra islâmicos

Em discurso de abertura da 67ª Assembleia Geral da ONU, presidenta critica políticas fiscais ortodoxas adotadas por outros países e cita sucesso da Rio+20

Carolina Cimenti - Nova York | - Atualizada às

A presidenta Dilma Rousseff  abriu nesta terça-feira a 67ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, nos EUA. Em um discurso menos aplaudido em comparação ao do ano passado, quando se tornou a primeira mulher a abrir o evento , a presidenta afirmou que o Brasil condena "fortemente a violência na Síria", rejeita o preconceito contra islâmicos e defende o fim do embargo americano à Cuba.

Em um dos três momentos em que seu discurso foi interrompido por aplausos, a presidenta condenou a violência na Síria e fez um apelo para que tanto os partidários do presidente Bashar Al-Assad quanto os opositores deponham as armas.  "Não há solução militar para a crise na Síria. A diplomacia não só é a melhor como, creio, a única solução", afirmou a presidenta.

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AP
A presidenta Dilma Rousseff abriu a 67ª Assembleia Geral da ONU


Em meio aos violentos protestos em decorrência de um filme americano que ridiculariza Maomé , a presidenta também foi aplaudida ao repudiar a "escalada de preconceito islamofóbico ocidental". "Repudiamos também os atos de terrorismo que vitimaram diplomatas americanos na Líbia", acrescentou a presidenta em referência a Christopher Stevens, embaixador americano morto em ataque em Benghazi .

Dilma tambpem discorreu sobre o que acredita serem as causas das revoltas que atingem vários países do mundo árabe. "Não é difícil identificar em quase todos esses movimentos um grito de revolta contra a pobreza, desemprego, realidade de falta de oportunidade e liberdades civis impostos por governos autoritários", afirmou Dilma. "Não é dificil encontrar nesses acontecimentos as marcas de ressentimentos históricos provocados por décadas de políticas coloniais ou neocolonias levadas a cabo em nome de uma ação supostamente civilizatória. Pouco a pouco, foram ficando claros os interesses econômicos por trás dessas políticas."

Economia

A presidenta lembou que, pelo segundo ano consecutivo, uma voz feminina inaugura o debate na Assembleia - a tarefa cabe ao Brasil desde 1947, quando discursou o diplomata Oswaldo Aranha (1894-1960). "Para muitos, nós mulheres somos a metade do céu. Mas nós queremos ser a metade da Terra também, com igualdade de direitos e oportunidades, livres de todos os preconceitos", afirmou.

Um ano depois, segundo Dilma, o mundo enfrenta os mesmos problemas que exigem "soluções cada vez mais urgentes". Entre esses problemas, a presidenta destacou a crise econômica de 2008 que, segundo sua visão "ganhou novos e inquietantes contornos".

Dilma subiu o tom contra os países ricos, criticando o que chamou de "política monetária expansionista, que desequilibra as taxas de câmbio" , e defendeu o Brasil das recentes acusações de protecionismo feitas pelos Estados Unidos, dizendo se tratar, ao contrário, de "legítima defesa comercial". " A opção por políticas fiscais ortodoxas vem agravando a recessão das economias desenvolvidas com reflexos nos países emergentes, incluindo o Brasil", disse Dilma.

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Segundo a presidenta, o resultado de tais políticas, como a recente injeção de recursos do Fed (o banco central americano), é a "perda de mercado" dos países emergentes "com a valorização de suas moedas", o que acaba agravando a pobreza e impossibilitando a retomada da economia global.

Palestina e Cuba

Assim como fez no ano passado, Dilma defendeu o reconhecimento do Estado palestino como solução para o conflito no Oriente Médio, bem como a sua adesão como membro pleno da ONU, no que foi aplaudida. Para a presidenta, a reforma institucional das Nações Unidas e, principalmente, do Conselho de Segurança - cujos membros permanentes são EUA, China, Rússia, Reino Unido e França - é de "imperiosa urgência".

Roberto Stuckert Filho/PR
Antes do discurso, a presidenta Dilma Rousseff teve um encontro com o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon

"O Conselho de Segurança não pode ser substituído, como vem ocorrendo, por coalizões que acontecem à revelia, sem autorização. O uso de força sem autorização do Conselho vem ganhando ares de aceitável. E definitivamente não é aceitável."

Dilma destacou o papel do Brasil em promover a integração da América Latina e do Caribe e defendeu o fim do embargo dos Estados Unidos a Cuba, que dura mais de 50 anos, dizendo que a ilha "tem avançado na atualização de seu mundo econômico".

"A cooperação para o progresso de Cuba é prejudicado pelo embargo que há décadas golpeia sua população."

Rio + 20

Dilma usou parte de seu discurso para tratar da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que ocorreu em junho, no Rio de Janeiro. Segundo a presidenta, a conferência foi "a maior e mais participativa da história da ONU".

"A Rio+20 projetou um poderoso facho de luz sobre o futuro que queremos. Temos de levá-lo adiante. Temos de encarar a mudança do clima como um dos principais desafios das gerações presente e futuras", disse.

A presidenta disse esperar que os países desenvolvidos cumpram as metas firmadas por chefes de Estado na ocasião. "São metas ambiciosas para um país em desenvolvimento que enfrenta urgências de todos os tipos para dar bem-estar à população", reconheceu.

Preparação

A presidenta passou toda a segunda-feira em seu hotel em Nova York, o St Regis, reunida com os ministros que a acompanham na viagem - Antonio Patriota (Relações Exteriores), Aloizio Mercadante (Educação), Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio), Aguinaldo Ribeiro (Cidades) e Helena Chagas (Secretaria de Comunicação Social), além do Secretário Especial de Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia -, aprimorando e ensaiando o discurso. À noite, assistiu a uma ópera.

Segundo os assessores de Dilma, a presidenta considera esse discurso, que tradicionalmente abre os debates da Assembleia Geral da ONU todos os anos, uma das melhores plataformas para mostrar as opiniões do governo brasileiro, ou "a melhor oportunidade de visibilidade para o País todos os anos", como colocaram os assessores para o iG.

A filha da presidenta, Paula, que também acompanha a visita a Nova York, assistiu ao discurso sentada na plateia, ao lado da embaixadora brasileira para a ONU, Maria Luiza Viotti. Ela sorriu quando a mãe subiu ao palco.

Depois de proferir o discurso, Dilma sentou junto à delegação brasileira para assistir ao discurso do presidente americano, Barack Obama . Depois, ao chegar no hotel, disse que o pronunciamento do líder foi "muito bom", apesar de algumas divergências em relação ao dela em termos econômicos. "Ele tem a posição dele e eu tenho a minha. Cada um tem o direito de ter a sua posição", afirmou.

Na agenda desta terça-feira, há dois encontros bilaterais: com o presidente egípcio, Mohammed Morsi, para falar de temas comerciais, e com o presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, para discutir o futuro do brasileiro que foi preso no país por tráfico , e corre o risco de ser executado. Ela também encontrará o ex-presidente americano Bill Clinton.

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