Cautela 'para não repetir erros' marca novo diálogo entre Colômbia e Farc

Presidente colombiano optou por discrição e mantém conversas em sigilo. Acordo tem sido recebido com otimismo pela opinião pública e por especialistas

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O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, optou pela discrição ao confirmar que seu governo vem mantendo conversas sigilosas com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) para iniciar um processo de paz.

Ele frisou que as operações militares ''continuarão no país enquanto a paz não for alcançada'' e alertou que o diálogo com o grupo guerrilheiro tem como princípio a ''não-repetição de erros de negociações anteriores''.

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Para analistas ouvidos pela BBC Brasil, a tônica do discurso presidencial reflete a preocupação de que, uma vez iniciada uma nova tentativa de negociar, o processo possa fracassar como no passado.

Embora tenha sido recebido com otimismo pela opinião pública e por especialistas, o governo preferiu manter a cautela. A confirmação veio depois de vários dias de especulação sobre o possível diálogo entre interlocutores de ambas as partes.

Detalhes do diálogo

Na semana passada, a emissora de TV municipal de Bogotá, Canal Capital, já havia anunciado que as Farc e o governo haviam se aproximado e que as conversas tinham a participação de Cuba e da Venezuela.

Nesta segunda-feira, o diretor da Telesur, a TV estatal da Venezuela, Jorge Enrique Botero, anunciou que as negociações de paz entre as Farc e o governo Juan Manuel Santos começariam em outubro.

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Botero divulgou, inclusive, os nomes dos interlocutores de cada parte: do lado do governo colombiano, o Alto Conselho para Segurança Nacional, Sérgio Jaramillo, o ministro do Meio Ambiente, Frank Pearl, e o jornalista Enrique Santos, irmão mais velho do presidente da República, que já foi editor do jornal El Tiempo e da Revista Alternativa, conhecida por seu viés de esquerda.

Do lado das Farc, o interlocutor seria Jaime Alberto Parra, conhecido como Mauricio Jaramillo, ''El Médico'', que estudou medicina em Cuba.

A Telesur chegou a anunciar que o início das negociações estaria marcado para 5 de outubro e que o local provável seria a cidade de Oslo, na Noruega.

O governo não confirmou nenhuma destas informações e a postura do presidente em não adiantar mais detalhes sobre o assunto foi vista de maneira positiva por analistas.

"O recado de Santos foi de que o ambiente está sendo construído e que nada mais além disso deve ser dito ou considerado agora", avaliou o cientista político Victor de Currea-Lugo, da Pontifícia Javeriana da Colômbia, à BBC Brasil.

Ambiente de desconfiança

A possibilidade de uma aproximação entre as Farc e o governo colombiano foi anunciada em um ''bom momento'', na visão de analistas locais, já que a opinião pública se mostra favorável à ideia.

Uma pesquisa divulgada na edição do último domingo do jornal El Tiempo apontou que 74,2% dos colombianos respaldam a possibilidade de que o governo Santos inicie um diálogo com as Farc.

Mas os comentários nas redes sociais mostram a polarização da sociedade colombiana frente ao assunto.

No Twitter e no Facebook, a sociedade manifestou apoio ou reprovação. ''A guerra fracassou, o diálogo é a saída'', postou um internauta.

''Todo mundo animado! Quero ver depois, quando as Farc enganarem o governo de novo'', postou outra pessoa.

Entre os principais críticos está o ex-presidente Álvaro Uribe, que costuma usar o Twitter para opinar sobre a política colombiana.

Uribe foi duro em seu comentário: ''Dois anos de diálogo clandestino, desmotivação das Forças Armadas, debilidade a segurança e legitimação de (Hugo) Chávez, protetor de terroristas'', referindo-se ao governo Santos e ao venezuelano.

Polarização

O cientista político da Corporação Novo Arco Íris, ONG colombiana especializada no conflito armado do país, destaca que a polarização já é esperada, apesar da prevalência da expectativa favorável ao início do processo de paz.

Para ele, o governo terá de ter paciência e habilidade política para lidar com as ''vozes contrárias'' à saída negociada.

''No time do contra, Uribe tem um papel protagonista. Ele aglutina as forças de extrema direita, remanescentes de paramilitares e grandes criadores de gado, que não querem a conclusão de um processo de paz'', destacou Ávila.

O analista considera que um tema chave no sucesso da negociação será a restituição de terras, já que a reforma agrária é um ponto importante para as Farc e que sempre encontrou resistência entre grupos econômicos do país.

A lei de vítimas e restituição de terras, aprovada em julho do ano passado é considerada muito importante. ''Se o governo consegue restituir as terras já reclamadas — um milhão e quinhentos mil hectares —, já terá dado um passo significativo'', ponderou Ávila.

Experiências frustradas

Para os analistas, neste momento preliminar o governo deve, primeiro, afastar os ''fantasmas'' das negociações fracassadas no passado, como a de 1984, no governo de Belizário Betancur (que chegou a conseguir um cessar-fogo) e no caso mais conhecido, o da Zona de Distensão de Caguán, de 1998, quando, depois de quatro anos de negociação, o conflito foi retomado.

Mas agora o cientista político Victor Currea-Lugo vê um cenário diferente. Segundo ele, em Caguán a ''principal aposta'' dos dois lados não era a paz. Currea-Lugo acredita que na Zona de Distensão ocorreu somente uma trégua, de onde depois a guerrilha saiu fortalecida e o governo saiu com o acordo para o Plano Colômbia.

''Naquele momento, a paz não era prioridade de nenhum dos atores'', disse. Agora, ressalta, ''os dois lados sinalizam interesse pela paz e a população mostra cansaço em relação à guerra. Assim, creio que estamos em uma nova fase, que, bem conduzida, poderá levar à paz''.

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