General da reserva Mauricio Santoyo, que comandou corpo de elite antiterrorista antes de cuidar da segurança do ex-presidente, fez denúncia perante a Justiça americana

AFP

O ex-presidente colombiano Álvaro Uribe voltou ao centro de uma polêmica na Colômbia depois de seu ex-chefe de segurança ter confessado nos Estados Unidos a sua ligação com paramilitares de extrema-direita, embora analistas descartem que o caso o atinja neste momento.

Noguera: Ex-chefe de serviço secreto colombiano é condenado a 25 anos 

Foto de 2007 mostra Santoyo, ex-chefe da segurança de Álvaro Uribe
AP
Foto de 2007 mostra Santoyo, ex-chefe da segurança de Álvaro Uribe

O general da reserva Mauricio Santoyo, que exerceu o comando do Corpo de Elite Antiterrorista da polícia antes de se encarregar da segurança de Uribe, admitiu na segunda-feira junto à Justiça dos Estados Unidos ter apoiado e protegido entre 2001 e 2008 as paramilitares Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC).

A confissão de Santoyo representa mais um escândalo envolvendo importantes colaboradores do governo Uribe (2002-2010) ou políticos vinculados ao ex-presidente.

Uribe concedeu nesta terça-feira diversas entrevistas e postou mensagens no Twitter para se distanciar do seu ex-chefe de segurança, que disse tê-lo decepcionado. "Espero que o general Santoyo diga ao juiz se recebeu mau exemplo, sequer uma insinuação indevida de seus comandantes, de ministros ou da minha pessoa", escreveu Uribe na rede social.

Entorno

Para o congressista de esquerda Iván Cepeda, com esse caso se torna "inegável que todo o entorno de Uribe estava repleto de paramilitares".

"A essa altura é muito difícil acreditar que ele era uma espécie de transeunte desatento no palácio de governo", disse Cepeda à AFP, ao citar outros casos, como o de Jorge Noguera, ex-diretor do serviço de inteligência DAS, condenado por homicídio e cumplicidade com paramilitares, ou o de Mario Uribe, ex-presidente do Senado e primo do ex-presidente, que foi sentenciado por vínculos com as milícias de extrema-direita.

No entanto, não parece que o caso de Santoyo possa afetar diretamente Uribe, como também não ocorreu com as outras investigações contra seus antigos colaboradores, segundo avaliou o cientista político Fernando Giraldo, professor da Universidade Javeriana de Bogotá.

"Não se vê no horizonte próximo que isso vá ocorrer com ele. Tem uma simpatia muito grande na sociedade e isso o protege. Também há muitas pessoas que lhe devem favores, há cumplicidades que o protegem", disse Giraldo. "Na Colômbia não foram quatro ou cinco atores que estiveram ligados ao paramilitarismo, foi o grosso da sociedade, os sindicatos, o Congresso, os meios de comunicação, embora, obviamente, as responsabilidades tenham níveis diferentes", acrescentou o acadêmico.

As AUC, que cometeram centenas de milhares de crimes atrozes contra a população civil, surgiram para combater as guerrilhas esquerdistas, ativas na Colômbia desde os anos 60.

Nessa luta, os paramilitares estabeleceram vínculos com a elite política. Até agora, cerca de 20 lideranças políticas, entre ex-congressistas, ex-governadores e ex-prefeitos, foram condenados pela Suprema Corte de Justiça por esses vínculos, e outra centena está sob investigação.

Entre 2003 e 2006, as AUC negociaram sua desmobilização com o governo Uribe, obtendo benefícios processuais em troca da confissão de seus crimes e a reparação das vítimas.

Santoyo é acusado de conspirar com as AUC para introduzir cocaína nos Estados Unidos e se entregou às autoridades americanas em julho. Ele havia sido acusado anteriormente de interceptações ilegais de comunicações por defensores dos direitos humanos e outros ativistas na região de Antioquia no fim dos anos 1990, quando Uribe era governador daquele Departamento (Estado).

Mas até agora, ele "havia sido um dos intocáveis da Justiça colombiana e, aparentemente, a proximidade com o ex-presidente Uribe o tornou imune, passando por cima das decisões da justiça e conseguindo ser promovido até alcançar o grau máximo de general", reportou nesta terça-feira a Corporação Novo Arco-íris, que analisa o conflito armado interno.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.