Dias sem pôr-do-sol dificultam jejum de muçulmanos na Finlândia

Muçulmanos praticantes estão observando atualmente o mês sagrado do Ramadã, em que jejuam entre o nascer e o pôr-do-sol

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Muçulmanos praticantes estão observando atualmente o mês sagrado do Ramadã, em que jejuam entre o nascer e o pôr-do-sol. Mas o que fazem os muçulmanos de uma cidade onde o sol nunca se põe? É o caso da cidade de Rovaniemi, uma terra de extremos ao norte da Finlândia, a 830 km da capital Helsinque. No meio do inverno (entre dezembro e março), a cidade fica na total escuridão. Mas durante o verão no hemisfério Norte, ela fica sempre iluminada pela luz do sol.

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Rovaniemi, na Finlândia, onde os muçulmanos têm dificuldade de jejuar

Os dias longos são um problema para muçulmanos como Shah Jalal Miah Masud, de 28 anos, que mudou-se para a Rovaniemi há cinco anos para estudar, vindo de Bangladesh. Quando conversou com a BBC, estava há 24 horas sem comer ou beber água. "Aqui não escurece. Sempre fica igual. O sol está sempre no horizonte, e é difícil saber que horas são", diz ele, de bom humor. Às 23h, o sol continua visível no horizonte. O céu ganha uma cor azul bonita. E isso é o mais escuro que o céu ficará, até que o sol volte a subir, dentro de cinco horas.

Masud confessa que está cansado pelo jejum. Mas, apesar da fome e da fadiga, ele diz que é um prazer cumprir o Ramadã nos longos dias finlandeses.

Meca e Medina

Uma outra opção é reduzir o número de horas do jejum, marcando sua duração a partir do nascer e do pôr-do-sol em países mais ao sul da Terra.

Quanto a isso, Abdul Mannan - um imã local e presidente da associação islamica norte-finlandesa - diz que há duas linhas de pensamento. "Acadêmicos egípcios dizem que, se os dias tiverem (luz por) mais de 18 horas, você pode seguir o horário de Meca ou Medina, ou do país muçulmano mais próximo", explica. "Mas há o ponto de vista saudita, segundo o qual você tem que seguir os horários locais, seja o dia longo ou curto."

Mannan diz que a maioria dos muçulmanos do norte da Finlândia observa os horários de jejum de Meca ou da Turquia, país de maioria muçulmana mais próximo dali. Para Nafisa Yeasmin, pesquisadora da Universidade da Lapônia, escolher qual horário seguir não é uma decisão fácil. Ela mudou-se de Bangladesh à Finlândia há seis anos, com o marido e dois filhos.

Enquanto prepara uma tradicional refeição muçulmana, ela se lembra de seu primeiro Ramadã em Rovaniemi, quando decidiu jejuar pelo horário local e passava até 20 horas por dia sem comer. "Era difícil, porque em Bangladesh estávamos acostumados a 12 horas de luz do dia e 12 horas de noite", diz ela. "Daí decidi parar. Comecei a seguir o horário de Meca. Mas estou um pouco preocupada quanto a se Alá vai aceitar ou não." Já Kaltouma Abakar, uma refugiada vinda de Darfur (Sudão), decidiu manter-se firme e jejuar segundo os horários de Rovaniemi, segundo contou ela à agência Associated Press.

Refugiados

Muitos muçulmanos vão à Finlândia em busca de refúgio, vindo de todos os lugares do mundo, especialmente Somália, Iraque e Afeganistão. Desde 2001, a Finlândia começou a aceitar 750 refugiados por ano. Recém-chegados muitas vezes são mandados para cidades no norte do país, como Rovaniemi, em programas habitacionais do governo.

Na cidade de 60 mil habitantes, os muçulmanos enfrentam outro obstáculo além dos dias longos de verão: nenhuma loja local vende comida halal (preparada seguindo os preceitos islâmicos). A cidade mais próxima a vender alimentos halal fica a 300km. Outra opção é a cidade de Lulea, que está perto da fronteira com a Suécia, a seis horas de distância de carro. Muitos vão para Lulea com uma longa lista de compra de supermercado, atrás de itens como grão-de-bico, tâmaras e carne halal, e fazem longos estoques desses produtos para aguentar o período do Ramadã.

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