Justiça pede que divulgação de áudio de atirador de Toulouse seja investigada

Trechos de diálogo entre Mohamed Merah, autor dos ataques no sul do país, e forças de segurança francesas causaram polêmica entre parentes do assassino franco-argelino

iG São Paulo |

Após a divulgação pela rede de televisão francesa TF1 de trechos da negociação entre a das forças de segurança francesas e a autor do ataques  que deixaram sete mortos no sul da  França, a Justiça francesa decidiu abrir uma investigação preliminar por violação de sigilo das investigações.

Prova: TV francesa divulga trechos da conversa entre polícia e assassino de Toulouse

O organismo da própria Polícia encarregado de examinar as ações dos policiais será responsável pela condução de um inquérito administrativo e uma investigação criminal.

Reprodução
Imagem capturada de vídeo mostra o autor dos ataques na França, Mohamed Merah

A divulgação de trechos das conversas entre Mohamed Merah e a polícia que o cercava suscitou nesta segunda-feira indignação das famílias das vítimas, enquanto o canal se justificava referindo-se ao seu papel informativo.

O grupo TF1 exibiu no domingo à noite os trechos onde é possível ouvir o franco-argelino de 23 anos explicar seus crimes de forma tranquila. Ele matou entre os dias 11 e 19 de março, em Toulouse e Montauban, três militares e quatro judeus, incluindo três crianças.

"Compreendemos perfeitamente o choque e a violência para as famílias das vítimas que é escutar a voz deste que assassinou um de seus parentes", explicou a diretora de informação do grupo TF1, Catherine Nayl. "Mas nós fizemos isso conscientes de seu valor informativo", prosseguiu.

Os trechos, datados de 21 e 22 de março, contêm "informações muito importantes sobre a maneira como os homens da polícia de elite francesa negociaram" durante o cerco ao apartamento em Toulouse, que durou 32 horas, justificou.

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"Acredito que esse documento prova que até o fim (...), os negociadores tentaram deter Mohamed Merah, e fazê-lo ainda vivo", antes de ele ser finalmente morto no dia 22 de março no momento da invasão ao apartamento, afirmou. "Também compreendemos nesse documento que Mohamed Merah, com sangue-frio e determinação absoluta (...), construiu um personagem", acrescentou.

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Nas gravações, Merah afirma estar pronto para continuar em sua loucura mortal, assegura ter ligações com a Al-Qaeda e com o crime organizado, fala sobre suas viagens ao Afeganistão e ao Paquistão, e explica como enganou a vigilância dos serviços de inteligência que o monitorava.

A um funcionário da Direção Central de Inteligência Interna (DCRI), com quem se reuniu após uma de suas viagens ao Paquistão, ele disse: "Quando você me ligou, quando eu estava no seu escritório, eu estava em contato com eles (membros da Al-Qaeda), eu os encontrei (...) Acho que foi um dos maiores erros de sua carreira".

Merah explica ainda como ao errar o alvo (um militar), ele acabou atacando a escola judaica Ozar Hatorah, onde assassinou três crianças e um professor: "Eu errei um alvo (...) e a partir daí peguei a moto e fui embora. Não foi premeditado, no fim das contas sim, eu tinha a intenção de fazer isso, mas naquela manhã não era esse o meu objetivo".

Os assassinatos cometidos por Merah provocaram uma grande comoção na França e colocaram em questão a contra-espionagem francesa, criticada por não levar a sério um suspeito que já havia estado sob investigação das autoridades.

Por meio de seus advogados, amigos e parentes das vítimas informaram que acionarão a justiça para impedir a publicação do áudio.

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"As vítimas ficaram escandalizadas quando tomaram conhecimento do conteúdo dessas negociações pela televisão. Neste ritmo, os vídeos dos massacres que circularão na internet e aí o problema será irremediável", declarou Samia Maktouf sobre os vídeos filmados por Merah durante os ataques com uma câmera portátil e apreendidos pela justiça.

"Ouvir esse assassino arrogante é insuportável para as famílias", reagiu o presidente do Conselho Representativo das Instituições Judaicas na França (CRIF), Richard Prasquier.

O ministro do Interior francês, Manuel Valls, lamentou domingo à noite que "nenhuma precaução tenha sido tomada para respeitar as famílias das vítimas".

A previsão é que a transcrição do áudio seja publicada na terça-feira pelo jornal Le Monde.

*Com AFP

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