Erros humanos causaram crise nuclear de Fukushima, diz comissão do Japão

Negligência do governo, dos órgãos reguladores e operadores são causa do pior acidente nuclear do mundo em 25 anos, que aconteceu após terremoto de 2011, diz relatório

iG São Paulo | - Atualizada às

A crise nuclear japonesa de Fukushima era um desastre possível de evitar que aconteceu em consequência de erros humanos e da negligência do governo, dos órgãos reguladores e dos operadores da usina, disse um painel de especialistas nesta quinta-feira, ao concluir um inquérito sobre o pior acidente nuclear do mundo em 25 anos.

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AP
Fotografia divulgada pela Tepco mostra o momento em que a Usina de Fukushima é atingida pelo tsunami de 11 de março de 2011

"Fica claro que esse acidente foi um desastre provocado pelo homem. Os governos anteriores e o da época (o do então primeiro-ministro Naoto Kan ), as autoridades reguladoras e a Tokyo Electric Power (Tepco) - operadora da usina - falharam no dever de proteger a população e a sociedade", afirma o inquérito de 641 páginas feito por uma comissão estabelecida em dezembro a pedido do Parlamento do Japão.

O acidente de Fukushima, o mais grave desde a catástrofe de Chernobyl (Ucrânia) em 1986, aconteceu após um terremoto de 9 graus de magnitude na região de Tohoku (nordeste), que
desencadeou um tsunami em todo o litoral em 11 de março de 2011 .

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Uma onda de quase 15 metros de altura arrasou as instalações da central nuclear Fukushima Daiichi, afetando os sistemas de resfriamento dos reatores e geradores de emergência situados no subsolo.

Apesar de reconhecer que a crise foi desatada pelo terremoto seguido do tsunami, o relatório afirma que "o acidente em Fukushima não pode ser contemplado como um desastre natural. Foi um desastre produzido pelo homem que poderia ter sido previsto e prevenido".

"A Comissão encontrou ignorância e arrogância imperdoáveis para quaisquer pessoas ou organização que tratam de energia nuclear. Encontramos negligência de práticas globais e negligência com a segurança pública", disse o painel.

À margem da catástrofe natural, o relatório afirma também que as autoridades públicas não exerceram seu papel de supervisão, que foi assumido de forma prejudicial pela própria Tepco.

Além disso, embora a Tepco garanta que a central estava preparada para abalos sísmicos e que os reatores não sofreram danos pelo terremoto de 9 graus, apenas pelo tsunami posterior, o relatório afirma que não se pode descartar a hipótese de o reator 1 ter sido danificada pelo terremoto. A descoberta pode ter sérias implicações nas usinas nucleares do Japão, que pretende religar seus reatores.

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"O acidente na Usina de Energia Nuclear de Fukushima foi resultado de conluio entre o governo, os reguladores e a Tepco, e a falta de governança pelas partes ditas", disse o painel.

Os reguladores, segundo o relatório, foram relutantes em adotar padrões de segurança globais que poderiam ter ajudado a prevenir o desastre, no qual os reatores foram atingidos provocando vazamento de radiação e obrigando 150 mil pessoas a deixar suas casas.

AP
Funcionários com macacões e máscaras de proteção esperam para entrar em centro de operações emergenciais na usina atômica de Fukushima, Japão (novembro de 2011)

O relatório foi elaborado por dez intelectuais e analistas do setor privado, que entrevistaram 1.167 pessoas para esclarecer as causas da crise nuclear. Entre os entrevistados estão o ex-premiê, que renunciou em setembro exatamente por causa das críticas à sua gestão da crise, e o ex-presidente honorário da Tepco Tsunehisa Katsumata.

Em maio, Naoto Kan admitiu em uma audiência da comissão a responsabilidade do Estado na catástrofe, mas defendeu a administração geral da crise, apesar de alguns erros.

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Os analistas afirmam que o acidente nuclear de Fukushima, que ficará "gravado na história", surpreendeu as centrais atômicas japonesas sem as medidas de proteção adequadas, e lembra que a crise "não acabou".

Cerca de 80 mil pessoas seguem sem poder voltar a suas casas em um raio de 20 km em torno da usina de Fukushima por causa da radioatividade, enquanto no interior das instalações milhares de operários trabalham para evitar vazamentos e para retirar o combustível nuclear.

Calcula-se que a delicada operação de retirar o combustível dos reatores danificados e inutilizá-los pode levar quatro décadas.

*EFE, AFP e Reuters

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