Peña Nieto, a imagem de um PRI renascido que busca esquecer o passado no México

De família de tradição política, com governadores do Estado do México, novo presidente mexicano trouxe de volta ao poder partido que governou o país durante 71 anos

iG São Paulo |

Enrique Peña Nieto , o novo presidente eleito no México , é o produto mais carismático do Revolucionário Institucional (PRI) que governou durante 71 anos o país e ao qual tenta dar uma imagem de modernidade, apesar de alguns de seus opositores o criticarem por um passado autoritário e corrupto.

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Membro do partido que governou o país de forma ininterrupta por 71 anos até 2000, naquilo que o escritor peruano Mario Vargas Llosa descreveu como "a ditadura perfeita", Peña Nieto tem um rosto que atrai as mulheres e faz encenações bem ensaiadas em seus atos de campanha.

AP
Enrique Peña Nieto comemora vitória nas urnas durante discurso na Cidade do México

Tanto é que toda a campanha do PRI foi baseada em torno da carismática figura do ex-governador do Estado do México, que não apresentou propostas mirabolantes. Mas, para afiançar sua confiabilidade, Peña Nieto valeu-se de um recurso que já havia utilizado em campanhas anteriores: registrou suas promessas em cartório.

"Você me conhece e sabe que eu vou cumprir", dizia ele na propaganda que inundou os meios de comunicação nos últimos três meses. Aos 45 anos de idade e formado em direito com mestrado em administração, o novo presidente mexicano prometeu "um governo eficaz, honesto, transparente e que preste contas”, além de uma economia de livre mercado com “consciência social”. Em relação à violência , um dos temas mais sensíveis aos mexicanos, ele prometeu que a luta prosseguirá, mas com “uma nova estratégia para proteger a vida dos cidadãos”.

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Nascido em uma família de tradição política em Atlacomulco, município situado no Estado do México que é base de um importante grupo de poder do PRI, Peña Nieto nutre há anos uma imagem de "presidenciável". Três de seus parentes foram governadores do Estado do México, todos eles do PRI, partido ao qual se afiliou aos 18 anos.

Através de Arturo Montiel, que o precedeu no governo do Estado do México e a quem, uma vez nesse cargo, exonerou das acusações de corrupção que pesavam sobre ele, foi galgando postos no partido até chegar a secretário de Administração do governo do Estado.

Peña Nieto formou seu próprio grupo político, os Golden Boys, e em 2003 conquistou seu primeiro cargo de eleição popular ao obter uma cadeira no Congresso estatal, mas ocupou o posto por apenas por dois anos, já que em 2005 o deixou para se candidatar ao governo de seu Estado natal, o mais povoado do país.

Disputa presidencial

Depois de uma vitória contundente, começou a aparecer como o candidato ideal de um PRI dividido e desacreditado que ficou em terceiro lugar na eleição presidencial de 2006.

Durante a disputa pela Presidência do país, na qual não teve rivais em seu partido, foi acusado de gastar milhões de dólares nos últimos anos para se promover na Televisa, a principal rede de televisão do país.

Com seu característico e impecável topete e seu rosto de galã de telenovela, teve de lutar durante a campanha eleitoral para se desvincular dos velhos rótulos de corrupto e autoritário que o PRI não consegue deixar para trás, apesar de ter dado sete décadas de estabilidade ao México.

"Meu compromisso é mudar o México (...) O passado já está escrito, mas a partir de hoje temos esta nova luz, temos a oportunidade de escrever uma nova página na história do México", disse no lançamento de sua campanha no fim de março.

Uma das sombras que pairaram sobre sua campanha são os graves abusos, incluindo as mortes de duas pessoas e os estupros de mais de 20 mulheres, cometidos pela polícia ao reprimir um conflito social na localidade de San Salvador Atenco, algo que lembra massacres ocorridos na longa gestão do PRI no país, de1929 a2000.

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Apuros ao longo da campanha, como quando confundiu títulos e autores em uma feira de livros ou mesmo quando não soube dizer o preço de uma tortilha, alimento básico dos mexicanos, são incidentes que valeram ao candidato a fama de vazio e superficial, mas que foram insuficientes para prejudicaram a sua candidatura.

Aos 28 anos, casou-se com Mónica Petrelini, com quem teve três filhos. Ficou viúvo 13 anos depois, quando já era governador, após sua esposa sofrer um ataque de epilepsia. Algum tempo depois, reconheceu que havia tido outros dois filhos com duas mulheres.

Quase dois anos depois de ficar viúvo, iniciou um relacionamento com Angélica Rivera, uma popular protagonista de telenovelas, com quem se casou em 2010, após um romance seguido amplamente pelos tabloides. Seus adversários e alguns meios de comunicação chegaram a acusá-lo de ser um "produto de marketing", como se fosse um galã de novelas imposto pela rede de TV Televisa.

Executivo

O novo presidente mexicano se define como um pragmático que valoriza mais os resultados que as ideologias, e disse durante a campanha que estimulará investimentos privados na petrolífera Pemex - algo que é tabu inclusive dentro do seu partido.

Peña se formou politicamente no que analistas chamam de Grupo Atlacomulco, visto como parte da velha guarda do PRI, capaz de manipular várias administrações do partido. O grupo, cuja existência é negada pelos líderes partidários, está supostamente composto por ex-governadores do Estado do México que nasceram na localidade de Atlacomulco nas últimas sete décadas, e que funcionaria como uma espécie de clã.

*Com AFP e Reuters

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