Fernando Lugo: o ex-bispo que deu fim à hegemonia colorada no Paraguai

Câncer, escândalos sobre paternidade e problemas com ministros marcaram trajetória de presidente cassado

iG São Paulo | - Atualizada às

Fernando Lugo, ex-bispo católico que fez história no Paraguai ao chegar à Presidência e mudar o rumo político do país após seis décadas, enfrentou nesta sexta-feira um processo de impeachment que o destituiu do cargo .

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Lugo, um socialista que desafiou o Vaticano ao trocar o altar pelos palanques, e que derrotou um câncer durante seu mandato, foi acusado de responsabilidade por um conflito fundiário que resultou em 17 mortos na semana passada.

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No palácio presidencial em Assunção, Lugo se negou a deixar o poder na quinta-feira

Bispo ligado ao movimento agrário, ele deixou a batina para concorrer à Presidência do Paraguai. Seu governo colocou fim a 61 anos de hegemonia do Partido Colorado, sustentáculo da ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989).

Lugo venceu as eleições presidenciais de 20 de abril de 2008 à frente de uma coalizão de partidos de direita e esquerda, a Aliança Patriótica para a Mudança (APC, sigla em espanhol) pondo fim ao Partido Colorado, que se confundiu durante seis décadas com o Estado paraguaio.

O presidente cultiva um jeito sereno e pausado de falar, como se estivesse em uma missa, mas sua presidência esteve longe de navegar em águas calmas, e ele precisou enfrentar, além de um câncer, escândalos pessoais que terminaram com o reconhecimento de dois filhos e a resistência de um Congresso no qual nunca teve maioria.

E a heterogênea aliança que o amparou, na qual se misturam esquerdistas radicais e liberais, tampouco esteve isenta de divergências internas. Nos últimos dias, a pressão sobre ele se multiplicou, o que levou à destituição do ministro do Interior e do comandante da polícia, e à renúncia de quatro ministros e um secretário de Estado.

A presidência de Lugo foi sacudida por reiteradas denúncias de paternidade feitas por várias mulheres, que pediam exames de DNA por filhos que, segundo elas, tiveram com o mandatário enquanto era bispo de San Pedro, departamento mais pobre do país. Sua popularidade de 93% no momento de sua posse como chefe de Estado caiu para 30% depois dos escândalos em abril de 2009, quando foi obrigado a reconhecer um filho de 2 anos, Guillermo Armindo, de Viviana Carrillo, de 24 anos. Há duas semanas, o presidente reconheceu outro filho (Ángel, de 10 anos) de uma segunda mulher que pediu reconhecimento de paternidade, enquanto outras duas entraram com um processo contra ele pelo mesmo motivo.

Em agosto de 2010, seus médicos anunciaram que ele sofria de câncer linfático, mas afirmaram que ele poderia ser curado. Lugo se submeteu a seis sessões de quimioterapia, reduzindo consideravelmente suas aparições públicas.

O ex-sacerdote, que trabalhou no Equador com o monsenhor Leónidas Proaño (conhecido pelos equatorianos como "bispo dos pobres") se cercou durante seu governo de colaboradores de esquerda, representantes de dezenas de partidos e movimentos políticos e sociais.

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Partidário da Teologia da Libertação, Lugo afirmou então que seu governo não cairia na polarização ideológica, evitando se identificar com qualquer corrente de esquerda latino- americana em particular.

A luta pela terra dos camponeses pobres, no entanto, abalou seu governo. Conduzido à política por seu trabalho entre os camponeses, Lugo afirmava, ao assumir a Presidência, que faria uma reforma agrária "projetada e negociada com todos os atores envolvidos, sem processos traumáticos nem violentos".

Mas o presidente paraguaio foi abalado por invasões de grupos de camponeses ligados ao governo em propriedades de ricos produtores no leste, região agrícola mais rica do país na fronteira com Brasil e Argentina, onde milhares de "brasiguaios" prosperam.

Dirigentes dos agricultores sem terras da Liga Nacional de Acampados, que invadem propriedades e se instalam em tendas de plástico, foram recebidos em várias oportunidades pelo presidente Lugo no Palácio do Governo e na residência presidencial.

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Presidente Lugo caminha na área externa de residência presidencial Mburuvicha Roga, em Assunção, Paraguai (20/6)

Em 15 de junho, seis policiais desarmados foram mortos durante a desocupação de uma propriedade em Curuguaty,250 kma nordeste de Assunção, possivelmente por franco atiradores que estavam ao lado dos camponeses.

A reação da polícia provocou a morte de 11 camponeses e a consequente crise política, que levou ao pedido de impeachment do presidente.

Origem

Nascido no dia 30 de maio de 1951 em uma família humilde na pequena localidade de San Solano,400 kma sudeste de Assunção, o menor de sete irmãos (cinco homens e uma mulher), Lugo começou como noviço dos missionários do Verbo Divino em 1970 e foi ordenado sacerdote em 1977, até chegar a bispo.

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Sobrinho de um líder do Partido Colorado que foi perseguido e exilado pelo ditador Stroessner, Lugo ingressou na política dia 29 de março de 2006, quando conseguiu reunir 40 mil pessoas de todas as tendências para protestar contra o então governo de Nicanor Duarte (2003-2008).

Em abril de 2008 foi eleito presidente, recebendo uma inédita dispensa do Vaticano. Tomou posse em meio a uma grande festa cívica, com popularidade estratosférica.

Mas as reformas propostas por seu governo tropeçaram na oposição parlamentar, e o respaldo à sua gestão começou a cair à medida que crescia a percepção de paralisia num governo em que tudo estava por fazer. Ainda assim, avançou em questões sociais, como ao estabelecer a gratuidade da saúde pública e a assistência monetária a famílias miseráveis, com a contrapartida de que vacinassem e matriculassem seus filhos em escolas.

*Com AFP e Reuters

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