Paraguaios temem violência por processo de impeachment contra Lugo

Na capital, muitos fecham lojas e retiram crianças da escola pelo temor de que julgamento de sexta desate protestos similares ao que deixaram 17 mortos em 1999

iG São Paulo | - Atualizada às

Legisladores do Paraguai votaram nesta quinta-feira para pôr fim à presidência do presidente Fernando Lugo, 63, por seu papel em um disputa violenta envolvendo sem-terra e anunciaram que o julgamento do impeachment será realizado na sexta-feira no Senado. Os confrontos entre policiais e sem-terra deixaram ao menos 17 mortos em uma reserva florestal perto da fronteira com o Brasil há uma semana.

Senado: Presidente do Paraguai terá duas horas para se defender de impeachment

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Pessoas protestam contra processo de impeachment contra presidente do Paraguai, Fernando Lugo. No cartaz, lê-se: 'Legisladores, não deixaremos que roubem nossa democracia'

Julgamento: Câmara aprova procedimento de impeachment contra Lugo

Lugo, que foi eleito há quatro anos com a promessa de que ajudaria os pobres desse país sul-americano, fez um pronunciamento na televisão nacional para desmentir os rumores de que renunciaria e prometeu enfrentar o julgamento "com todas as suas consequências".

A Câmara dos Deputados aprovou o processo de impeachment por 76 votos a um. Horas depois o Senado anunciou que Lugo terá duas horas para defender-se na sexta-feira, com a previsão de que a sentença será emitida depois das 17h30 de Brasília.

No Paraguai, um país pobre e com histórico de instabilidade política, a votação fez com que residentes temerosos na capital, Assunção, fechassem seus negócios e retirassem as crianças das escolas. Os hospitais ficaram em alerta, liberando os pacientes em antecipação a uma possível violência.

Os paraguaios estão desanimados com a possibilidade de que o julgamento no Senado sob controle da oposição desate protestos de rua como os que se seguiram ao assassinato do vice-presidente Luis Maria Argana, em 1999. Confrontos com as forças do governo deixaram 17 mortos entre manifestantes que pediam o julgamento do presidente Raúl Cubas Grau pela morte de Argana. Cubas acabou por renunciar após a violência.

"Não escaparemos da turbulência, está vindo", disse o analista político paraguaio Galeano Perrone, especialista em questões de defesa nacional. "Se você me perguntasse, te aconselharia a ir ao supermercado e comprar pilhas, tudo o que puder."

O presidente, um ex-bispo católico ligado a movimentos sociais, tornou-se em 2008 o primeiro presidente a quebrar a hegemonia de seis décadas do Partido Colorado no poder, incluindo os 35 anos do regime militar comandado por Alfredo Stroessner (1954-1989).

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Eleito pelas promessas de defender as necessidades dos pobres, ele tem tido dificuldades para levar sua agenda de reformas por conta da influência da oposição no Congresso, onde ele tem poucos aliados. Se destituído, Lugo seria imediatamente substituído pelo vice-presidente Federico Franco, que pertence a seu partido.

O julgamento foi promovido pelo conservador Partido Colorado, de oposição, após o massacre de 11 sem-terra e seis policiais durante uma ação de desapropriação em uma reserva florestal em uma fazenda privada em Curugutay, no Departamento (Estado) de Canindeyú, perto da fronteira com o Paraná e a 350 km de Assunção.

Na rápida discussão sobre a instalação do processo político, parlamentares argumentaram que Lugo era o responsável pelas mortes na reserva de 2 mil hectares, que faz parte de uma grande propriedade rural do empresário e político paraguaio Blas Riquelme, do Partido Colorado. Advogados dos sem-terra dizem que Riquelme usou influência política para conseguir as terras do Estado há décadas, e dizem que o local deveria fazer parte de uma reforma agrária.

O socialista Carlos Filzzola, que até sábado era o ministro do Interior de Lugo, classificou a votação pelos congressistas de "golpe institucional" e disse que o destino do presidente já está selado. "O julgamento político é uma formalidade", afirmou.

Em uma reunião de emergência realizada paralelamente à Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20 , os presidentes da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) aprovaram o envio de uma missão de chanceleres para acompanhar o julgamento. A missão será integrada pelo chanceler brasileiro, Antonio Patriota, e pelo secretário-geral da Unasul, o venezuelano Alí Rodríguez, que acaba de assumir o posto.

Saiba mais: Unasul enviará grupo para acompanhar processo de impeachment no Paraguai

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Paraguaios protestam contra aprovação do Congresso a processo de impeachment contra presidente Fernando Lugo na Plaza de Armas, em Assunção

O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, afirmou que o anúncio da missão da Unasul ajudará na situação paraguaia. Apesar de o processo de impeachment fazer parte da Constituição do país, Garcia afirmou que uma análise da legislação paraguai mostrou que a ordem legal do país prevê um processo mais longo para esse procedimento.

Paraguai é o quarto fornecedor mundial de sementes de soja, e disputas de terra aumentaram em anos recentes enquanto os produtores buscam mais áreas para o cultivo do produto, que lidera as exportações do país. Lugo prometeu terras para 87 mil famílias sem-terra, mas fracassou em cumprir a meta, parcialmente por ter sido bloqueado pelo Congresso.

*Com AP

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