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Favorito à presidência do México quer parceria com Brasil para fortalecer região

Em entrevista ao iG , Enrique Peña Nieto, que pode levar o PRI de volta ao poder, diz que países devem coordenar ação conjunta em questões globais

Luísa Pécora - iG São Paulo |

Um ex-governador jovem, fotogênico e casado com uma atriz de novelas pode levar o Partido Revolucionário Institucional (PRI) de volta à presidência do México após 12 anos na oposição. Líder nas pesquisas para a votação de 1º de julho , Enrique Peña Nieto, 45 anos, tem planos ambiciosos para o país: tirar 15 milhões da pobreza, reduzir a violência e transformar o México em uma potência emergente com relevância política global – uma tarefa na qual, segundo ele, o Brasil pode ajudar.

“Definitivamente o Brasil é um sócio estratégico para o México”, afirmou, em entrevista ao iG por email. “Podemos coordenar ações conjuntas em questões multilaterais, pois temos objetivos comuns como potências emergentes. A influência (de México e Brasil) na região pode garantir resultados benéficos para ambos os países e para a América Latina.”

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Enrique Peña Nieto, favorito à presidência do México, participa de evento de campanha (arquivo)


Se for eleito, porém, Peña Nieto enfrentará uma série de desafios, a começar pela guerra contra o narcotráfico , que deixou 50 mil mortos no país desde 2006, segundo estimativas. A desigualdade social e a pobreza ainda representam obstáculos para o crescimento, enquanto as melhores condições econômicas, combinadas à crise nos Estados Unidos, inverteram a tendência migratória dos últimos 60 anos : hoje, menos mexicanos cruzam a fronteira e muitos dos que viviam em território americano retornam a seu país. Com isso, novas demandas por melhores empregos e condições de vida se apresentam ao governo.

Peña Nieto também tem de lutar contra a imagem de seu partido, que muitos mexicanos associam a governos autoritários e corruptos que governaram o México por 70 anos, até a eleição de Felipe Calderón, do Partido de Ação Nacional (PAN), em 2000. Para vencer a candidata do PAN, Josefina Vázquez Mota , e o candidato da coalizão esquerdista, Andrés Manuel López Obrador , Peña Nieto tenta convencer os eleitores de que os abusos cometidos pelo partido são coisa do passado, apresentando-se como um sinal de renovação.

Na entrevista a seguir, o candidato presidencial do México fala ao iG sobre como pretende solucionar os principais problemas do país, discute a importância da parceria com o Brasil e celebra o “ânimo” dos governos latino-americanos em melhorar a vida da população.

iG: A chegada do PAN ao poder em 2000 pôs fim a 70 anos de governo do PRI. Quais erros o partido cometeu?
Enrique Peña Nieto: Nos anos 1990, o PRI cometeu diversos abusos e más práticas que provocaram um desencanto generalizado na sociedade mexicana. Mas, ao mesmo tempo - e principalmente -, o PRI também promoveu uma mudança democrática no país. A liberdade, a participação política e a expressão dos cidadãos aumentaram como não se havia visto no passado. O custo disso para o partido foi perder a eleição de 2000. Agora, 12 anos depois, o PRI está fortalecido e renovado, com uma geração jovem, pujante e consciente da realidade do México hoje.

iG: Se o senhor for eleito, como pretende conduzir seu governo para garantir a manutenção de seu projeto político e o de seu partido?
Peña Nieto: O México vive uma democracia eleitoral, e a intenção do meu governo será transformá-la em uma democracia de resultados, que busque realizações e ponha em vigor os direitos individuais estabelecidos pela Constituição. Devemos deixar a fase de servir aos interesses eleitorais e, agora, servir aos interesses dos cidadãos. O principal propósito do meu governo será criar melhores oportunidades para os mexicanos, criar mais empregos e que paguem mais. Quero dar rumo e ordem ao país.

iG: E como fazer isso?
Peña Nieto: Defini cinco grandes compromisos que, por sua vez, levaram a muitos outros compromissos em nível nacional e local ao longo da campanha. São eles: recuperar a paz e a liberdade, a partir de uma estratégia nacional para reduzir a violencia; fazer do México um país inclusivo, tirando 15 milhões de mexicanos da pobreza; crescer para criar mais e melhores empregos, com 1 milhão de novas vagas por ano; dar educação de melhor qualidade para todos, para ser o líder da América Latina no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos, uma rede mundial de avaliação de desempenho escolar); e recuperar a liderança do México no mundo, para nos consolidarmos como uma potência emergente e participar de forma mais decisiva na solução dos conflitos globais. Tudo isso deve acontecer por meio de um Estado eficaz, que ofereça certeza e resultados à população.

iG: Muitos eleitores associam o PRI a governos autoritários e corruptos. Como o senhor pretende combater essa visão?
Peña Nieto: Promovendo mecanismos que garantam a transparência e a prestação de contas, como a criação de uma Comissão Nacional Anticorrupção. Outro modo de acabar com essa antiga percepção é fortalecer o ataque contra a impunidade. Devemos dar mais respaldo aos tribunais, assim como à procuradoria-geral da República em sua capacidade de investigação, com tecnologia aplicada e melhor uso da inteligência.

iG: Apesar do problema do narcotráfico existir há décadas no México, ele ganhou maior repercussão mundial quando a violência chegou a níveis muito altos em meio à chamada guerra contra o tráfico de Calderón. Quais são os pontos positivos e negativos dessa estratégia de combate ao narcotráfico?
Peña Nieto: Disse muitas vezes que a estratégia do governo federal contra o crime organizado foi a correta. Ela, porém, não foi executada de forma eficaz. Minhas propostas têm como objetivo primordial acabar com os altos índices de violência , particularmente nos focos identificados como os de maior risco. Estamos convencidos de que os mexicanos querem viver com liberdade e em paz. E estamos comprometidos com a diminuição dos três crimes que mais afetam a população: homicídio, sequestro e extorsão .

iG: Como pretende combater esses crimes se for eleito?
Peña Nieto: Daremos melhor capacitação e tecnologia à policía e criaremos comandos especializados para combater esses três problemas nos lugares em que mais ocorrem. Também quero criar a Gendarmaria Nacional (força militar com função policial), para que soldados do Exército possam ser transformados em agentes policiais com treinamento especial para lidar com crimes graves, mas ao mesmo tempo estejam mais bem capacitados para servir à sociedade civil.

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O candidato do PRI à presidência do México, Enrique Peña Nieto (arquivo)


iG: Qual será o papel dos Estados Unidos para ajudar o México na guerra contra o narcotráfico? Qual grau de cooperação o senhor pretende manter com o governo americano nesse sentido?
Peña Nieto: Será fundamental continuar os esforços de cooperação com o governo dos Estados Unidos. Não apenas no sentido de apoio econômico, mas também no intercâmbio de informação e inteligência, e na realização de operações conjuntas para o controle de armas, munições, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas e pessoas. Será muito importante que o corpo diplomático mexicano e as forças policiais e armadas do país aumentem o nível de intercâmbio com nossos vizinhos do norte. Esse aumento deve ocorrer mesmo em nível regional, pois a América Central, o Caribe e o Canadá sofrem os males do narcotráfico, cada um à sua maneira.

iG: Recentemente, por causa das melhores condições de vida no México e da desaceleração econômica nos EUA, a imigração começou a mudar: menos imigrantes cruzam a fronteira e muitos regressam ao México. Quais são os desafios impostos por essa tendência? Como assegurar emprego e boas condições de vida para a população?
Peña Nieto: Estamos convencidos de que o México pode ter um crescimento econômico ainda mais vigoroso, até três vezes maior do que o obtido na última década, algo que repercutirá de maneira favorável na decisão dos mexicanos de ficar e trabalhar no país. Conforme mais e melhores empregos forem criados, a diferença na renda per capita e na capacidade de consumo fechará a brecha econômica com os Estados Unidos. Devemos fazer uma reforma energética que crie mais empregos e permita cortes no gasto com eletricidade e combustível para a indústria e para o consumidor. Temos exemplos de reformas muito bem-sucedidas, como na Colômbia, e, de maneira significativa, no caso da Petrobras. Outro item que exploraremos será o gás mineral, já que o México possui reservas muito importantes.

iG: Uma de suas rivais na eleição é uma mulher, que pode se tornar a primeira presidenta do país – algo que aconteceu recentemente em varios países latino-americanos, como Brasil , Argentina e Chile. O senhor acha que isso é um reflexo do crescente papel político e social da mulher? Como pretende lutar pelos direitos femininos caso eleito?
Peña Nieto: Sem dúvida a participação da mulher no México ganhou mais destaque. Estou convencido de que devemos apoiar todas as mulheres que estão no mercado de trabalho e, em muitos casos, são mães solteiras ou representam a maior parte da renda em seu lar. Desenvolveremos um programa de seguros de vida para mães solteiras e estamos comprometidos com o apoio à sua saúde e a de seus filhos. Também vamos oferecer crédito para mulheres empreendedoras, o que permitirá que estabeleçam negócios de forma mais simples, estimulando a inovação.

iG: Quais são os planos do senhor em relação ao Brasil? Há planos de mais cooperação?
Peña Nieto: Definitivamente o Brasil é um sócio estratégico para o México. Temos uma série de semelhanças e devemos aprender com as experiências bem-sucedidas nos dois países, assim como devemos incrementar o nível de intercâmbio em relação ao que tivemos até agora. Há varios exemplos que funcionam bem no Brasil e devemos incorporar no México, como o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e a Petrobras. À medida que obtivermos um maior intercâmbio comercial, também desenvolveremos uma melhor relação econômica – e também cultural, educativa e tecnológica. Podemos coordenar ações conjunta em questões multilaterais, pois temos objetivos comuns como potências emergentes. A influência (de Brasil e México) na região pode garantir resultados benéficos para ambos os países e para a América Latina.

iG: Algum modelo de governo latino-americano serve de inspiração para o senhor?
Peña Nieto: Me inspiro nas melhores experiências de governos bem-sucedidos da América Latina. Como governador do Estado do México, tive a sorte de visitar alguns dos nossos países irmãos e conheci inúmeras propostas e ações de governo que alimentaram minha plataforma, assim como os projetos e programas que estou propondo. Casos como o de Chile, Colômbia e Brasil, entre muitos outros, me deixaram impressões muito boas. De maneira geral, mais do que uma posição política, vi o ânimo para melhorar as condições de vida e o bem-estar da população. É isso o que celebro principalmente e o que mais me inspira a replicar no México.

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