Disputa de terras perto da fronteira com Brasil causa violência no Paraguai

Operação policial de reintegração de posse deixa 17 policiais e sem-terras mortos; presidente paraguaio mobiliza Exército para conter violência

iG São Paulo |

O Paraguai mobilizou seu Exército nesta sexta-feira para solucionar uma disputa de terra em uma remota reserva floretal no norte do país, perto da fronteira com o Brasil, onde combates deixaram 17 mortos entre policiais e sem-terras.

AP
Trabalhador agrícola ferido em disputa de terra é levado para hospital em Curuguaty, Paraguai

Segundo o ministro do Interior paraguaio, Carlos Filizzola, os confrontos aconteceram durante uma operação policial de reintegração de posse de uma fazenda invadida em Curuguaty, no Departamento (Estado) de Canindeyú, perto da fronteira com o Paraná.

O incidente aumentou a tensão em torno da questão agrária no Paraguai. A operação foi lançada na fazenda do empresário Blas N. Riquelme. Centenas de policiais chegaram ao local em veículos e helicópteros, com um mandado da Justiça determinando a retirada dos camponeses do terreno.

O confronto armado aconteceu em uma região de selva que foi cercada pela polícia, segundo o Ministério do Interior. O presidente Fernando Lugo lamentou as mortes em um pronunciamento na residência presidencial de Mburuvicha Roga, na capital do país. "Manifesto meu firme apoio às forças de ordem e me solidarizo com as famílias das vítimas que perderam suas vidas durante o cumprimento de uma missão", afirmou o presidente.

Exceção

Lugo afirmou que o governo está trabalhado para "devolver a calma e a segurança" à região. Ao mesmo tempo, porém, o Congresso Nacional convocou uma sessão extraordinária para analisar a situação.

Uma das possibilidades em discussão é a declaração de estado de exceção na região. A medida já foi usada no país em outubro de 2011 (a pedido do Congresso) e 2010 (por ordem de Lugo) para combater guerrilheiros do EPP (Exército do Povo Paraguaio). Apesar disso, a participação de membros do EPP na resistência armada à desocupação da fazenda até agora é descartada pelo Ministério do Interior.

Parlamentares chegaram a cogitar a discussão no Congresso sobre uma medida para destituir Filizzola de suas funções. O ministro afirmou, por sua vez, que não pretende deixar a pasta. "Não vou renunciar ao cargo", afirmou. Ele disse ainda que "não é a primeira vez" que o mesmo grupo invade as terras de Riquelme.

Sem-terra

Os camponeses envolvidos no confronto fazem parte da chamada 'Liga Nacional de Carperos' (Liga Nacional de Acampados, em tradução livre). Em um comunicado, a MCNOC (Mesa Coordenadora Nacional de Organizações Camponesas), que reúne setores dos sem-terra, criticou o governo nacional.

"Rejeitamos os assassinatos de camponeses e de policiais e de centenas de feridos em uma mostra de irresponsabilidade do governo e destacamos que não será dessa maneira que se dará uma resposta aos graves problemas da população paraguaia", diz o texto.

A MCNOC tem reivindicado uma política de reforma agrária no país e critica a expansão do agronegócio no Paraguai. Os conflitos por terras têm sido constantes nos últimos anos no Paraguai.

Analistas econômicos vinculados ao governo afirmam que a expansão do cultivo da soja, que colocou o país entre os maiores produtores do mundo, tem contribuído para "expulsar" os que moram no interior do país.

"A soja colocou o Paraguai entre um dos maiores produtores do planeta, mas a questão da terra ficou ainda mais difícil para os paraguaios", disse um deles em recente entrevista à BBC Brasil.

A situação ocorre em um momento no qual surgem críticas ao comportamento do presidente Lugo, que nos últimos dias assumiu a paternidade de mais uma criança , dos tempos em que foi bispo da igreja católica. Lugo foi eleito presidente como "bispo dos pobres" e defensor dos sem-terra e o primeiro a ser eleito presidente após décadas de governo do Partido Colorado.

*Com AP e BBC

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