Ex-premiê britânico acusa Murdoch de manipular inquérito sobre grampos

Brown desmentiu declaração de magnata de que ameaçou uma guerra contra a News Corp., pivô do escândalo de escutas ilegais, por sentir-se preterido por jornais do magnata

iG São Paulo | - Atualizada às

O ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown (2007-2010) acusou nesta segunda-feira o empresário Rupert Murdoch de manipular um inquérito governamental sobre a ética nos meios de comunicação, ao prestar um depoimento inverídico acusando Brown de ter ameaçado uma guerra contra a News Corporation , o conglomerado midiático de Murdoch.

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AP
Ex-premiê britânico Gordon Brown chega à Suprema Corte com sua mulher, Sarah, para prestar depoimento à Comissão Leveson em Londres

"Essa conversa nunca aconteceu. Estou chocado e surpreso de que isso possa ter sido sugerido", disse Brown à comissão Leveson, que investiga a relação entre políticos e
a imprensa no caso das escutas em que jornalistas grampeavam telefones para obter informações exclusivas. "Essa ligação não aconteceu, a ameaça não foi feita."

Sob juramento, Murdoch declarou ao inquérito que, em setembro de 2009, recebeu um telefonema de Brown prometendo vingança contra o apoio declarado pelo tabloide Sun ao Partido Conservador, de oposição a Brown.

"Bem, sua empresa declarou guerra ao meu governo, e não temos alternativa senão fazer guerra contra a sua empresa", teria dito Brown, segundo Murdoch. Questionado sobre como um premiê em exercício poderia se portar assim, o empresário declarou: "Não acho que ele estivesse em um estado mental muito equilibrado."

A Reuters teve acesso a declarações de cinco assessores de Brown, entregues no ano passado a um órgão regulador, que disseram ter acompanhado o telefonema e negaram que as ameaças tenham sido feitas. Eles declararam que o telefonema aconteceu em novembro de 2009, e não em setembro, como disse Murdoch. A empresa News Corp., de Murdoch, não se pronunciou sobre os desmentidos.

Além de negar ter pressionado Murdoch, Brown contou que teve uma relação tensa com o jornal The Sun, de Murdoch, que acusou de difamá-lo e de publicar sem seu consentimento informação confidencial sobre a saúde de seu filho.

O político trabalhista afirmou que nunca teve o apoio de Murdoch, cujo The Sun, publicação de maior tiragem do Reino Unido, anunciou em 2009 que voltava a apoiar o Partido Conservador,  do atual primeiro-ministro David Cameron, após ter sido temporariamente partidário de Tony Blair (1997-2007).

A relação de Brown com o Sun foi especialmente difícil porque, segundo o político, o tabloide se empenhou em uma campanha pessoal para desprestigiá-lo, sobretudo em relação à Guerra do Afeganistão .

Em um episódio, o Sun publicou que Brown dormiu em um funeral de soldados britânicos - quando na realidade, segundo o político, "ele estava rezando" - e insinuou que o destino dos militares não lhe importava.

Em seu depoimento, Brown alegou ainda que nunca deu seu consentimento para que o jornal sensacionalista publicasse em 2006 - quando era ministro da Economia - que seu filho James Fraser tinha sido diagnosticado com fibrose cística, ao contrário do que declarou à mesma comissão Rebekah Brooks , ex-diretora do tabloide e antiga braço direito de Murdoch.

O ex-chefe do governo explicou que o hospital escocês onde seu filho foi tratado com poucos meses de idade pediu desculpas pelo provável vazamento da informação, e criticou os métodos
jornalísticos empregados pelo Sun para obtê-la.

Brown afirmou que a imprensa britânica "quando é boa, pode ser a melhor do mundo", mas que para melhorá-la é preciso incentivar o bom jornalismo, que não mistura "fatos e opinião", e acabar com as más práticas.

O inquérito britânico foi encomendado pelo governo conservador depois da revelação de que o extinto tabloide News of the World , que pertencia a Murdoch, espionou as caixas postais telefônicas de centenas de pessoas.

O escândalo abalou a reputação do poderoso Murdoch, e em maio uma CPI britânica considerou que o magnata de origem australiana não estaria qualificado para comandar uma grande companhia de abrangência global.

*Com Reuters e EFE

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