Na venezuelana Táchira, clima pacato do interior dá lugar à tensão com Colômbia

Conhecido por ser quartel-general das Farc, Estado opositor é alvo de extorsão e expropriações

Marsílea Gombata - Táchira, Venezuela* |

A 841 km de Caracas, o clima de tensão se sobrepõe à atmosfera pacata de San Cristóbal, capital do Estado de Táchira, que faz fronteira com a Colômbia

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Marsílea Gombata
Campo rural no Estado de Táchira onde se especula que estejam guerrilheiros colombianos das Farc

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Para quem chega de fora, a recomendação é expressa: “Não caminhe nas ruas depois das 18h.” A tranquilidade em meio à densa floresta que circunda a cidade dá lugar a um clima de apreensão perceptível nas ruas vazias antes mesmo do anoitecer, nos coletes à prova de balas utilizados por qualquer vigia, nos portões de concessionárias e hotéis fechados 24 horas por dia.

Com denúncias sobre a presença de guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) no Estado, a população da região montanhosa é coibida pela pressão do grupo colombiano, que com frequência extorque os habitantes locais, especialmente moradores de áreas rurais.

No ano passado, a ONG Cáritas disse que membros das Farc e também do Exército de Libertação Nacional (ELN) cruzavam a fronteira e cobravam resgates em pequenos sequestros para conseguir se manter em território venezuelano. Segundo o diretor da Cáritas Orlando Neira, além de pedir dinheiro para famílias que não têm como pagar, os guerrilheiros também têm como alvo produtores agrícolas e fazendeiros.

“Em muitas partes do Estado, as pessoas acabam pagando quantias mensais para não ser sequestradas”, disse Roberto Briceño-León, diretor do Observatório Venezuelano da Violência. Segundo ele, enquanto um dono de ônibus pode pagar 1 mil bolívares fortes (cerca de R$ 427), um fazendeiro produtor de gado chega a pagar 4 mil bolívares fortes (R$ 1.707,60) e empresários, 10 mil bolívares fortes (R$ 4.270).

Para Briceño-León, nessas regiões, a “ apologia à violência feita pelo governo ” se traduz na execução de políticas como a expropriação de terras. “Decidem expropriar uma área e o fazem, sem decreto, sem mandado e sem pagar nada ao proprietário, coisas previstas na Constituição“, denunciou. “O que as pessoas acabam pensando então? Que a lei não vale, o que importa é a força.”

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Não são raras as pixações em muros de San Cristóbal contrárias à presença de guerrilheiros da Farc no Estado e à expropriações de terra, aumentando ainda mais o clima tenso dentro do Estado de maioria opositora ao chavismo.

Marsílea Gombata
Estádio de beisebol de San Cristóbal de Táchira, onde estariam guerrilheiros das Farc, tem pôster de Chávez na entrada

“Aqui se tem mais medo da polícia do que de bandido”, disse José Muñoz, que trabalha em uma agência aduaneira local. “Os policiais pedem dinheiro antes mesmo de pedir documentos. Estão apodrecidos.”

*A repórter viajou a convite do Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela para o Programa de Acompanhamento Internacional das Primárias da Oposição

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