Farc libertam jornalista francês na Colômbia

Sequestrado havia um mês pela guerrilha colombiana, Romeo Langlois foi solto com auxílio de missão humanitária

iG São Paulo |

O correspondente do canal France 24 Romeo Langlois, 35 anos, sequestrado havia um mês pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), foi libertado nesta quarta-feira na remota aldeia de San Isidro, no sulista Departamento (Estado) de Caquetá, com a ajuda de uma missão humanitária integrada, entre outros, por representantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), o delegado do governo da França, Jean-Baptiste Chauvin, e a ex-senadora Piedad Córdoba.

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AP
Jornalista francês Romeo Langlois segura câmera de vídeo depois de chegar, escoltado por guerrilheiros das Farc, a San Isidro, no sul da Colômbia
Logo após ser libertado, Langlois disse em San Isidro que nunca foi acorrentado ou mal tratado pela guerrilha. O jornalista, no entanto, acusou as Farc e o governo de tentarem usar o incidente politicamente. "Fez-se muita política de ambos os lados", disse.

"Estou um pouco cansado, mas bem", disse Langlois. "Não precisava dessa experiência para conhecer o conflito armado. Tomara que o Exército continue levando pessoas (às operações militares), porque esse conflito não é coberto (jornalisticamente)", acrescentou, afirmando que é preciso continuar cobrindo o conflito.

A missão de resgate foi iniciada por volta das 5h no horário local (7h de Brasília), com o jornalista sendo entregue pela guerrilha no início da tarde. As operações militares na região foram suspensas por 36 horas para facilitar o resgate.

O jornalista foi sequestrado em 28 de abril, quando os guerrilheiros fizeram uma emboscada ao batalhão que o acompanhava na cobertura de uma operação antinarcóticos em uma zona rural de Montañita, município de Caquetá, sul da Colômbia. No confronto, quatro militares morreram. Langlois foi ferido no braço esquerdo durante o combate entre os militares que o acompanhavam e o grupo de guerrilheiros.

Dois dias antes da libertação, na segunda-feira, as Farc divulgaram pela rede de televisão Venezuela Telesur um vídeo como prova de vida de Langlois . Nele, o jornalista aparentava bom estado de saúde e respondeu as perguntas de uma guerrilheira, reconhecendo os riscos ao quais se expôs para realizar seu trabalho. "Na verdade não pensava que isso se tornaria tão terrível. Eles (os militares) iam destruir um laboratório (de cocaína), eu faria umas tomadas", disse o repórter no vídeo, que teria sido gravado por guerrilheiros em uma data não informada.

No mesmo vídeo, um guerrilheiro identificado como "Colacho Mendonza" afirmou que Langlois usava um jaleco e um capacete do Exército, e que o correspondente se entregou levantando os braços no meio do conflito. "Ele já estava ferido e se entregou para salvar sua vida", afirmou Colacho, ressaltando também que um enfermeiro das Farc lhe prestou os primeiros socorros.

As Farc são a principal guerrilha da Colômbia, com mais de 45 anos de luta armada e cerca de 9,2 mil combatentes. A retenção do jornalista levantou dúvidas na opinião pública e no governo colombiano quanto ao cumprimento da promessa feita em fevereiro pelas Farc de abolir o sequestro de civis .

Em abril, a guerrilha libertou os últimos dez policiais e militares que mantinham como reféns. A operação teve a participação do Exército brasileiro, que forneceu os helicópteros e pilotos para a missão.

Analistas ouvidos pela BBC Brasil consideram que, na realidade, não era intenção das Farc sequestrar o jornalista. "Houve certa confusão pelo fato de Langlois estar com alguns trajes do Exército. Pelo Direito Internacional Humanitário, o uso de uniformes é restrito aos atores do conflito. Se um civil usa um uniforme, ele perde o status da proteção civil", avalia a jornalista Maria Victoria Duque, diretora do Instituto de Análise Razão Pública.

Do mesmo modo, o cientista político Victor de Currea-Lugo, da Pontificia Universidade Javeriana, acredita que não foi um sequestro "premeditado", porque a captura aconteceu no contexto do conflito. "As Farc não foram atrás do jornalista, mas se a guerrilha tivesse demorado mais tempo para liberá-lo, aí sim, poderíamos tratar a captura como sequestro e colocar em dúvida a decisão do grupo", afirmou Currea-Lugo.

Por sua vez, o governo também não aceitou o argumento das Farc de que Langlois poderia ser um prisioneiro de guerra . O ministro da Defesa colombiano, Juan Carlos Pinzón, admitiu que o jornalista usava jaleco e capacete militares, mas ressaltou que ainda assim, o correspondente não poderia ser capturado como prisioneiro.

"O Exército tinha o dever de oferecer-lhe mecanismos de proteção e por isso lhes demos o jaleco e o capacete das Forças Militares", explicou Pinzón.

EFE
Reprodução de vídeo da Telesur mostra jornalista francês Romeo Langlois após libertação na Colômbia
Apesar de ter se comprometido a abandonar a prática de sequestros extorsivos, a guerrilha ainda tem em seu poder alguns sequestrados civis, cujo número é desconhecido. Segundo a ONG País Libre, 405 civis podem estar em poder Farc, mas atualmente o governo colombiano fala em cerca de 100 pessoas.

A libertação de todos os sequestrados civis ou informações sobre o paradeiro destas pessoas é uma das exigências do presidente Juan Manuel Santos para avançar em um processo de negociação de paz com as Farc, já que ambas as partes tem se mostrado "abertas" a iniciar conversações.

Com BBC, EFE e AP

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