Juiz protela processo na corte por fracasso da promotoria em compartilhar todas as evidências sobre o caso com defesa

Alphons Orie, juiz que preside o julgamento do ex-general servo-bósnio Ratko Mladic , decidiu nesta quinta-feira protelar indefinidamente a apresentação de evidências por causa de "erros" dos promotores em revelar as provas aos advogados de defesa - uma decisão que põe em dúvida o futuro do julgamento. Os promotores são obrigados a compartilhar todas as evidências com a equipe de defesa de Mladic.

Julgamento: Mladic começa a ser julgado por crimes de guerra

Reprodução de vídeo mostra comandante militar servo-bósnio Ratko Mladic no segundo dia de seu julgamento em Haia, Holanda
AP
Reprodução de vídeo mostra comandante militar servo-bósnio Ratko Mladic no segundo dia de seu julgamento em Haia, Holanda
Acusação: Mladic ordenou massacre de Srebrenica, diz promotoria

Segundo ele, os juízes estão analisando o "escopo e total impacto" do erro e têm o objetivo de estabelecer um nova data de início "assim que possível". Espera-se que a apresentação de provas e o primeiro depoimento de uma testemunha tivessem início no dia 29. Os promotores já admitiram os erros e não se opuseram ao adiamento.

A defesa de Mladic, 70 anos, pediu na segunda-feira aos juízes o adiamento em seis meses do julgamento por não estar preparada para a abertura. 

Preso em 26 de maio de 2011, na Sérvia, após ter escapado da justiça internacional durante 16 anos, Mladic é acusado de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes cometidos por suas tropas durante a guerra da Bósnia, que deixou 100 mil mortos e 2,2 milhões de refugiados durante 1992 e 1995.

O julgamento do ex-general começ ou na quarta-feira com a declaração preliminar da acusação, que terminou nesta quinta-feira.

Mladic, que pode ser condenado à prisão perpétua, é acusado, entre outros crimes, do massacre de Srebrenica em julho de 1995, no qual mais de 8 mil homens e adolescentes muçulmanos morreram em ações das forças sérvias da Bósnia, no pior massacre na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Antes de o juiz anunciar que adiava o julgamento, o promotor Peter McCloskey disse no Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII) que o ex-general servo-bósnio dirigiu no terreno e "consciente de todos seus atos" o massacre.

"Em um período de cinco dias, de 12 a 16 de julho de 1995, as forças armadas do (líder servo-bósnio) Radovan Karadzic e de Ratko Mladic expulsaram a população civil de Srebrenica e cometeram o assassinato sistemático de homens e garotos", disse McCloskey. O Exército de Mladic "acatou as ordens de assassinato com dedicação e eficiência militar", acrescentou.

O promotor afirmou que Mladic "às vezes liderou no terreno" as ações de detenção, transporte e assassinato dos homens muçulmanos no enclave de Srebrenica. "Um Exército desorganizado não deixa 8 mil mortos. Só um Exército bem liderado e dirigido, que sabe o que faz, pode alcançar algo assim", disse.

Saiba mais: Mladic liderou maior atrocidade na Europa desde 2ª Guerra

Entre outras coisas, a promotoria mostrou um vídeo em que Mladic, filmado por um mercenário, manda seus homens continuarem "a vingança contra os turcos" e queima uma bandeira da Turquia que até esse momento tremulava no enclave de Srebrenica.

A gravação corresponde a 11 de julho de 1995, quando começou o massacre dos bósnios muçulmanos. Mladic, atento aos documentos, compareceu com aspecto mais cansado do que há 24 horas e pediu um intervalo após os primeiros 45 minutos de sessão.

Antes da interrupção do processo pelo juiz, os promotores previam apresentar durante o julgamento as versões de 411 testemunhas, sete das quais dariam suas declarações no próprio tribunal.

*Com AFP, EFE e AP

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