Mladic começa a ser julgado por crimes de guerra

Ex-general servo-bósnio é acusado de atrocidades durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), incluindo o massacre de Srebrenica

iG São Paulo |

O Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII) iniciou nesta quarta-feira o julgamento do ex-general servo-bósnio Ratko Mladic , alvo de 11 acusações de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra na Bósnia, entre 1992 e 1995. Mladic, 70 anos, foi preso na Sérvia no ano passado, após 16 anos foragido, e pode ser condenado à prisão perpétua.

Usando terno e gravata, Mladic fez anotações durante a audiência e não demonstrou emoção enquanto os promotores listaram os crimes pelos quais é acusado. Uma mulher que assistia ao julgamento chamou o réu de “abutre”, causando uma breve interrupção. Depois, Mladic encarou uma muçulmana da plateia e passou a mão sobre a garganta, como se a cortasse, num gesto que levou o juiz Alphons Orie a advertir contra "interações inapropriadas".

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AP
Ratko Mladic compareceu ao tribunal sem seu característico boné

Mais cedo, Orie afirmou que o tribunal estuda a possibilidade de adiar a fase de apresentação de provas, marcada para começar em 29 de maio, por causa de “erros” dos promotores em entregá-las à defesa. O procurador Dermot Groome disse não se opor a um “adiamento razoável”.

Em sua declaração inicial, Groome disse que Mladic liderou uma tentativa de limpeza étnica na Bósnia. Ele falou sobre um menino de 14 anos que perdeu o pai e o tio durante um massacre das forças sérvio-bósnias em novembro de 1992, parte de uma série de atrocidades contra muçulmanos e croatas. “O mundo assistiu incrédulo a um genocídio acontecer em bairros e vilarejos dentro da Europa”, afirmou.

Groome disse que as forças de Mladic continuaram a praticar tais atrocidades até 1995, quando mataram cerca de oito mil muçulmanos em Srebrenica , no pior assassinato em massa na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

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O promotor disse que pretende usar as palavras do próprio Mladic contra ele no julgamento, citando uma série de declarações do ex-general na televisão e no rádio, além de diários que ele mantinha na época da Guerra da Bósnia (1992-1995).

Groome mostrou imagens de TV na qual Mladic inspeciona a artilharia sérvia ao redor da capital, Sarajevo, e nega envolvimento em crimes de guerra. “Não participei de nenhum crime, apenas defendi meu povo”, diz o ex-general. Logo depois, porém, Groome mostrou outro vídeo no qual Mladic afirma: “Toda vez que venho a Sarajevo, mato alguém.”

Mladic não se declarou culpado ou inocente, mas negou ter cometido qualquer transgressão, dizendo ter agido para defender os sérvios na Bósnia. Seu advogado, Branko Lukich, afirmou que o ex-general está em melhores condições de saúde – Mladic teve um ataque cardíaco durante o período que passou foragido e outros problemas desde que foi detido. “Ele está se sentindo melhor”, disse Lukich. “Para o padrão dele – que é um homem geralmente em má forma -, está se sentindo bem.”

O presidente da Bósnia, Bakir Izetbegovic, disse que o país espera que o julgamento mostre a verdade. “Esperamos a verdade a justiça para as vítimas e seus familiares”, afirmou. “Este é o pior período da nossa história.”

Em Srebrenica, viúvas e mães de vítimas do massacre se reuniram para assistir ao julgamento juntas. “É muito doloroso para nós”, afirmou Suhreta Malic, que perdeu mais de 30 familiares no massacre de 1995. “Não perdemos galinhas, perdemos nossos filhos”, acrescentou, chorando, com fotos das vítimas nas mãos.

Mas em Pale, um reduto sérvio na Bósnia-Herzegovina, alguns aplaudiram quando o ex-general apareceu na tela da televisão. “Mladic é nosso herói, é triste vê-lo ali”, afirmou Milan Ivanovic, um estudante de Direito de 20 anos. “Culpamos o tribunal e a comunidade internacional.”

O mesmo tribunal está julgando Radovan Karadzic , ex-líder político servo-bósnio que também enfrenta acusações relativas à limpeza étnica na Bósnia. Ambos foram indiciados há 17 anos, mas os casos foram separados quando Karadzic foi capturado na Sérvia em 2008 e transferido para Haia.

Mladic também foi levado a Haia cinco dias após sua captura na Sérvia. Nascido na Bósnia, no vilarejo de Kalinovik, ele cresceu na Iugoslávia e se tornou um oficial do Exército do Povo Iugoslavo. Quando o país começou a se desintegrar em 1991, foi enviado para liderar a 9ª Corporação do Exército Iugoslavo contra as forças croatas, em Knin.

Mais tarde, assumiu o comando do Segundo Distrito Militar do Exército Iugoslavo, com base em Sarajevo. Em maio de 1992, a Assembleia Servo-Bósnia votou pela criação de um Exército servo-bósnio, nomeando Mladic como seu comandante.

Com AP e BBC

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