Ex-líder da Libéria acusa tribunal em Haia de comprar testemunhas

Taylor expressa 'compaixão' por vítimas de violência em Serra Leoa e pede sentença guiada por 'reconciliação, não retribuição'

iG São Paulo |

O ex-presidente da Libéria Charles Taylor, condenado pelo Tribunal Especial de Haia para Serra Leoa por ser cúmplice de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, acusou nesta quarta-feira a procuradoria da corte de ter comprado testemunhas contra ele. Em uma decisão histórica anunciada em abril, Taylor foi considerado culpado de apoiar rebeldes em Serra Leoa em troca de diamantes brutos.

Durante uma audiência para definir sua pena, que será anunciada em 30 de maior, Taylor, 64 anos, voltou a alegar inocência e disse que o dinheiro teve “papel dominante” em seu julgamento. “Testemunhas foram pagas, coagidas e, em muitos casos, ameaçadas”, afirmou o ex-presidente, insistindo que todas as suas ações tiveram o objetivo de estabilizar a região. “Expresso minha tristeza e minha compaixão pelos crimes sofridos por indivíduos e suas famílias. “O que fiz, fiz com honra. Estava convencido de que a Libéria só poderia seguir em frente se houvesse paz em Serra Leoa.”

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O ex-presidente da Libéria Charles Taylor aguarda início de audiência em Haia

A procuradoria pede 80 anos de prisão para o ex-líder, que pediu que a corte leve sua idade em consideração e defina uma sentença com espírito de “reconciliação, não retribuição”. “Sou pai de muitas crianças, sou avô e bisavô”, afirmou. “Digo com respeito: reconciliação e cura, não retribuição, devem ser os princípios a guiar sua decisão.”

Taylor foi o primeiro chefe de Estado condenado por uma Corte internacional desde os julgamentos de Nuremberg, que ocorreram após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O juiz Richard Lussick afirmou que Taylor forneceu armas, munição, equipamentos de comunicação e planejamento à Frente Revolucionária Unida de Serra Leoa, responsável por atrocidades durante a guerra civil do país, entre 1991 e 2002. O grupo é famoso por ter amputado mãos e pernas de civis durante o conflito.

De acordo com Lussick, o apoio dado por Taylor foi “constante e significativo”. Ele foi considerado culpado de 11 acusações, incluindo assassinado, estupro e recrutamento de crianças como soldados.

No entanto, Taylor não foi considerado comandante direto das ações dos rebeldes, pois os juízes consideraram que ele não tinha controle sobre o grupo. Isso pode atenuar a sentença de prisão, a ser cumprida no Reino Unido.

Trajetória

Em 1989, aos 41 anos, Taylor era o líder de um grupo armado e deu início à guerra civil na Libéria, encerrada após um tratado de paz em 1995. Em 1997 foi eleito presidente e seu governo durou seis anos. Em agosto de 2003, rebeldes tomaram a capital do país, forçando-o a ir ao exílio na Nigéria. Taylor disse que optou por se exilar para acabar com o conflito em seu país.

Após 2003, Taylor vinha sendo acusado de violar as regras de seu exílio na Nigéria ao continuar influenciando a política interna na Libéria. Meses após a posse da presidente liberiana, Ellen Johnson-Sirleaf, em 2006, a Nigéria concordou em extraditar Taylor, que fugiu.

Capturado e enviado à Libéria, Charles Taylor foi levado a Serra Leoa pela ONU para aguardar julgamento. Sua prisão foi considerada um sinal de que os líderes de grupos armados africanos não gozavam mais de impunidade.

Com AP

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