Voluntários são principal mão de obra das campanhas eleitorais americanas

Estratégia de reeleição de Obama conta com 700 funcionários contratados e cerca de quatro vezes mais voluntários, que trabalham até 40 horas semanais

Carolina Cimenti, de Nova York |

Nos Estados Unidos, ano de eleições significa trabalho duro não remunerado e jornada dupla para milhares de eleitores.

A campanha de reeleição do presidente americano Barack Obama, por exemplo, conta atualmente com 700 funcionários contratados e um número quatro vezes maior de voluntários chamados “locais”, distribuídos em milhares de cidades americanas. Em janeiro, 12 mil se inscreveram para 1,2 mil vagas de estágio não remunerado para a campanha do presidente.

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Brian Loughnane doa mais de 40 horas por semana exclusivamente para organizar voluntários no bairro do Brooklyn, em NY
Brian Loughnane foi um dos selecionados. Ele agora doa mais de 40 horas por semana exclusivamente para organizar os voluntários locais na região de Carroll Gardens, no bairro do Brooklyn, em Nova York. Aos 25 anos e formado em administração, Brian diz que esse é o melhor estágio que já fez na vida. “Não é a minha primeira experiência profissional, mas eu estou aprendendo tanto em termos de construir e administrar um time, que tenho certeza que, ao fim das eleições, vai ter sido como ter feito um novo curso de graduação”, comparou o jovem que está trabalhando atualmente para aumentar o seu time de sete pessoas.

Assim como Brian, Liza Dun, 41 anos, Rick Barry, 55 anos, e o imigrante Mamadou (que não quis informar seu sobrenome), 32 anos, doam parte do seu tempo para fazer campanha e aumentar o número de voluntários e eleitores pró-Obama em Nova York. Eles usam o telefone ou mesas improvisadas nas ruas e nos parques para ajudar os eleitores a se registrar para votar (nos EUA o voto não é obrigatório, e é comum encontrar adultos que nunca votaram ou se registraram) e digitam dados de novos eleitores diariamente no sistema central da campanha do presidente.

Além disso, eles também organizam eventos como aulas de ioga, karaokês e churrascos para a vizinhança, todos devidamente catalogados como “Ioga para Obama”, “Churrasco para Obama” e “Karaokê para Obama”. “A intenção é que mais e mais pessoas participem desses eventos e decidam se voluntariar além de, é claro, votar no presidente”, explicou Liza.

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Esses eventos secundários são extremamente estimulados e, às vezes, patrocinados pelo comitê oficial da campanha. Eles servem para transformar o trabalho dos voluntários em uma atividade interessante e divertida. A ideia é dar uma imagem “cool” ao grupo de voluntários, transformá-lo em um grupo do qual outras pessoas queiram fazer parte.

“Voluntariar é uma atividade social. As pessoas fazem novos amigos, participam de novos eventos, aumentam a sua rede social e, de quebra, ajudam a eleger o presidente”, disse Brian, que não está preocupado em ficar desempregado por muito tempo. “Eu realmente acho que, ao final da campanha, alguma pessoa com quem eu trabalhar nos próximos meses, acabará me oferecendo um emprego”, afirmou ele.

Seleção

Depois de ser selecionado para virar estagiário, Brian participou de um “Obamacamp” - um fim de semana inteiro de treinamento para aqueles que serão os líderes locais da campanha. A primeira coisa que os futuros líderes aprendem no treinamento é que eles não podem falar com jornalistas. As únicas pessoas habilitadas para falar com a imprensa são os porta-vozes da campanha. A segunda é que, se eles forem extremamente bem sucedidos, haverá uma posição na equipe oficial e contratada nos próximos meses esperando por eles.

Voluntariar é bom para o candidato e pode ser bastante vantajoso para os voluntários também. “Tem vagas de voluntariado que são disputadas à tapa. Para um recém-formado em ciências políticas, por exemplo, é extremamente valioso coordenador um time de uma vizinhança importante. Isso transforma o currículo da pessoa”, avaliou Liza. Outros profissionais, como advogados e agentes imobiliários, podem conhecer futuros clientes enquanto voluntariam, ou, melhor ainda, podem acabar sendo chamados pela equipe oficial da campanha para integrar o time como consultores locais contratados.

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Ex-democrata, Steven hoje dedica horas de seu dia para fazer campanha para Romney
Mas se engana quem pensa que é só atrás de vantagens que as pessoas viram voluntárias em campanhas eleitorais. O imigrante Mamadou, natural da Costa do Marfim, chegou aos EUA há dois anos, não pode votar no país, mas decidiu doar algumas horas da sua semana para a campanha de Obama porque admira o presidente americano. “Após as eleições presidenciais da Costa do Marfim em 2010, estourou um conflito civil, apoiado pelo ex-presidente, que durou meses. Naquela época, Obama foi à televisão diversas vezes em apoio ao novo presidente eleito e criticando a violência. Ele mostrou uma preocupação genuína com o meu povo, e por isso eu quero fazer algo para apoiá-lo”, explicou Mamadou.

Republicanos

As campanhas dos pré-candidatos republicanos também contam com trabalho voluntário. Porém, como o candidato da oposição ainda não foi oficialmente nomeado, a campanha eleitoral dos republicanos ainda é ligada às primárias e muda de endereço conforme o voto avança nos Estados americanos. Mesmo assim, sem uma organização centralizada, os republicanos contam com voluntários ao redor do país.

Steven Rosenberg é um advogado americano que, além de escrever um blog e ter lançado uma conta no Twitter em apoio a Mitt Romney, também gasta entre uma e duas horas por dia fazendo comentários de apoio ao pré-candidato republicano em artigos na internet, páginas de Facebook e blogs. “É muito difícil ser republicano no Estado de Nova York, que é predominantemente democrata. Por isso mesmo eu me sinto na obrigação de fazer esse trabalho”, explicou Steve. “É uma forma para me preparar intelectualmente para as críticas e piadas que meus amigos fazem diariamente”, brincou.

O advogado conta que até 2008 apoiava os democratas e era, inclusive, filiado ao partido. Mas conforme o então candidato Barack Obama fazia seus discursos na primeira campanha eleitoral, Steven ia mudando de lado. “Não fui eu quem mudou, foram os democratas. Eles eram centro, mas agora são radicais de esquerda. John Kennedy seria um republicano hoje”, afirmou Steven. “Essa mudança no partido me impulsiona ainda mais a fazer campanha para Romney”, explicou.

Pode ser que quando Mitt Romney for nomeado candidato, sua estratégia mude. Mas atualmente, o republicano investe mais da metade do seu orçamento em anúncios de TV e menos de 5% em voluntários (com elaboração de material impresso para ser doado e treinamento, por exemplo). Enquanto isso, Obama constrói uma campanha praticamente horizontal, descentralizando quase completamente a campanha local nos bairros das cidades americanas, que ficam nas mãos dos voluntários.

Internet

O diretor da campanha digital de Obama, Teddy Goff, conversou com iG depois de fazer uma apresentação sobre o tema na Social Media Week em Nova York e disse que neste ano a equipe está ainda mais preparada que em 2008 para ajudar os voluntários a voluntariar. “Se a pessoa precisa de material impresso, nós mandaremos. Se precisa de auxílio técnico para lançar uma página na internet, nós daremos. Se precisa de camisetas para organizar uma corrida pró-Obama, por exemplo, daremos. O importante é a campanha sair das nossas mãos e ser feita na rua, pelas pessoas”, afirmou Goff.

Os voluntários são tão importantes para a campanha de reeleição do presidente que a primeira-dama Michelle Obama conversa ao telefone uma vez por semana com grupos organizados de voluntários. No dia 26 de abril, por exemplo, ela participou de uma teleconferência com o grupo Latinos for Obama, da qual o iG participou como ouvinte. “Eu sei que vocês estão doando o precioso tempo de vocês para ajudar o presidente, e agradeço profundamente. Quanto mais nos aproximarmos de novembro, mais vamos precisar da ajuda e da energia de vocês”, disse a primeira-dama.

Michelle também sugeriu tópicos a serem defendidos pelos voluntários. “Quando vocês falarem com parentes, amigos e vizinhos lembrem-se de mencionar que o presidente lutou para que o sistema público de saúde gratuito passasse a existir, que ele lutou para diminuir os impostos das mini e pequenas empresas, e que o governo dele tem ajudado a criar empregos todos os meses, desde o fim de 2009”, afirmou a primeira-dama, depois de 30 minutos de conversa. E, antes de se despedir, explicou que precisava desligar porque tinha de ajudar duas meninas a fazer seus deveres de casa, “assim como grande parte das mães latinas da nossa sociedade.”

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Liza Dun, Rick Barry e o marfinense Mamadou são voluntários da campanha de Obama em Nova York
“Uma pessoa responde muito mais e melhor se ouve coisas positivas sobre o presidente diretamente de um amigo do que de um comercial pago na TV”, disse Goff. “E esse é exatamente o motivo porque investimos tanto em aumentar e estimular nossa rede de voluntários”, explicou o diretor da campanha digital de Obama.

Enquanto isso, Brian e seu time de Carroll Gardens se mantêm ocupados preparando um grande churrasco público para mais de 50 pessoas, no qual pretendem alimentar e registrar dezenas de novos eleitores, para engordar as urnas democratas locais, e, quem sabe, seus próprios currículos e bolsos no futuro.

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