EUA divulgam papéis que indicam terrorista irritado com fato de muçulmanos civis, e não EUA, serem alvo de grupos alinhados à Al-Qaeda

Em foto de 1988, Bin Laden fala aos jornalistas em em Khost, Afeganistão
AP
Em foto de 1988, Bin Laden fala aos jornalistas em em Khost, Afeganistão
O líder da Al-Qaeda Osama bin Laden, morto há um ano em seu esconderijo na cidade de Abbottabad , Paquistão, estava frustrado com as divisões dentro de sua rede terrorista e com a perda de confiança entre os muçulmanos que ele gostaria de incitar contra seus próprios governos e o Ocidente.

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A informação está em 17 - somando 175 páginas - de 6 mil documentos apreendidos durante a ação no Paquistão e divulgados nesta quinta-feira pelo Centro de Combate ao Terrorismo da Academia Militar dos EUA, que também mostram as preocupações do líder da Al-Qaeda com a dificuldade de a organização sobreviver em meio a morte de muitos de seus operativos graduados.

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"Planejo divulgar uma declaração de que começamos uma nova fase para corrigir (os erros) que cometemos", escreveu Bin Laden em 2010. "Ao fazer isso, conseguiremos reconquistar, se Deus quiser, a confiança de uma amplo segmento daqueles que perderam a confiança nos jihadis (militantes da guerra santa)."

De acordo com o Exército, os documentos revelados foram produzidos entre setembro de 2006 e abril de 2011 e incluem comunicações entre Bin Laden e seus associados, seu diário manuscrito e cartas de outros líderes da rede terrorista.

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Até o fim, Bin Laden manteve-se comprometido a atacar os americanos e elaborar novas conspirações, ainda que improváveis, de matar líderes americanos. Ele desejava especialmente atingir aviões com o atual diretor da CIA, o general David Petraeus, e mesmo com Barack Obama, considerando que o assassinato do presidente americano levaria ao poder o "extremamente despreparado" vice Joe Biden e os EUA à crise.

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Mas uma análise dos EUA divulgada juntamente com a correspondência de Bin Laden o mostra irritado com a incapacidade de grupos terroristas alinhados de conquistar apoio público para sua causa, suas campanhas midiáticas malsucedidas e seus planos mal elaborados que, na visão do líder da Al-Qaeda, mataram muitos muçulmanos inocentes.

Pelos temores de que isso tudo vinha fazendo com que os muçulmanos se distanciassem da ideologia da jihad (guerra santa), Bin Laden aconselha a não lançar ataques dentro do mundo islâmico, mas, em vez disso, concentrar as forças contra os EUA. Em uma carta de abril de 2011, Bin Laden discute a Primavera Árabe , classificando-a de "evento formidável".

Adam Gadahn, de Bin Laden, aconselhou-o a afastar sua organização do braço da organização no Iraque, a Al-Qaeda na Mesopotâmia, enquanto o líder terrorista pediu a outros grupos militantes que não repetissem o erro da organização iraquiana.

A correspondência inclui cartas do segundo na linha de comando Abu Yahya al-Libi, defendendo que o braço paquistanês Tehrik-e-Taleban parasse seus ataques indiscriminados contra muçulmanos. A liderança da Al-Qaeda "ameaçou adotar medidas públicas se não observar em vocês passos claros e imediatos para reformar (suas medidas) e se distanciar desses erros vis que violam a lei islâmica", escreveu al-Libi.

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Além disso, Bin Laden alertou o líder da Al-Qaeda no Iêmen, Nasir al-Wuhayshi, contra tentar tomar o controle do Iêmen para estabelecer um Estado islâmico no país, aconselhando-o a "concentrar seus esforços em atacar os EUA". O líder terrorista também pareceu não ter interesse em reconhecer o al-Shabab quando o grupo somali lhe prometeu lealdade, por pensar que seus líderes eram governantes fracos das áreas sob seu controle e eram muito rígidos ao aplicar as penalidades islâmicas, como cortar os dedos de ladrões.

De acordo com os EUA, as cartas refletem a relação da Al-Qaeda com o Irã - um ponto de profundo interesse para Washington - não "como uma aliança, mas como negociações indiretas e desagradáveis" sobre alguns terroristas da Al-Qaeda e seus parentes presos no país persa.

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Nada nos documentos divulgados aponta diretamente para os simpatizantes da Al-Qaeda no governo paquistanês, apesar de tais referências provavelmente terem sido mantidas sob sigilo pelos EUA. Bin Laden descreveu "fiéis irmãos paquistaneses", mas não identificou nenhuma autoridade do governo ou militar que estivesse a par de seu esconderijo em Abbottabad ou fosse seu cúmplice.

No início desta semana, o chefe de contraterrorismo da Casa Branca , John Brennan, disse que os documentos reforçavam a ideia de que os EUA estão mais seguros sem Bin Laden. De acordo com ele, o líder da Al-Qaeda reconhecia os "desastres após desastres" contra sua rede nos papéis, e o militante saudita considerou mudar o nome de sua organização.

*Com BBC e AP

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