Hollande segue passos do presidente socialista François Mitterrand

Candidato francês alinha discurso com ideias do ex-presidente e passa por mudanças físicas e em sua postura para parecer mais sério

iG São Paulo |

Favorito para vencer a eleição presidencial francesa no segundo turno de domingo , o socialista François Hollande tem seguido os passos e encarnado trejeitos do ex-presidente François Mitterrand (1981-1995), que tem tido como mestre político.

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Trinta e um anos depois da vitória de Mitterrand nas eleições presidenciais francesas, nunca um candidato socialista esteve tão próximo de chegar ao Palácio do Eliseu como está agora Hollande. À frente nas pesquisas, o homem que dirigiu o Partido Socialista (PS) entre 1997 e 2008 não esconde sua admiração pelo único socialista a vencer a disputa presidencial.

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Militante passa em sala do escritório do Partido Socialista francês em Rennes, que tem fotos de Mitterrand (E) e Hollande (23/4)
Em análise, o jornal francês Le Monde comparou os discursos dos políticos para mostrar como Mitterrand serviu de inspiração para o candidato socialista. No principal tema de campanha, a declaração de guerra contra “os privilégios dos senhores do dinheiro”. "Meu adversário de verdade não tem nome, nem rosto, nem partido, nem será candidato. Mas é quem governa. É o mundo das finanças, que tomou o controle da economia, da sociedade e de nossas vidas", afirmou em seu comício de lançamento de campanha. O teor, segundo o jornal francês, é uma reminiscência do estilo de Mitterrand, que defendeu uma ruptura com “todos os poderes do dinheiro” no congresso dos socialistas em junho de 1971.

Outros traços mostram que o programa de Hollande segue a linha de Miterrand. Enquanto Mitterrand aumentou em 100 mil os funcionários públicos, Hollande promete mais 65 mil. De acordo com o português Jornal de Negócios, o discurso em prol do dirigismo estatal também retoma o cenário de 30 anos atrás.

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Em maio de 1981, quando foi eleito o primeiro presidente socialista da 5ª República francesa, “Mitterrand prometia alargar ainda mais o controle e dirigismo estatal sobre a economia, ameaçava ‘quebrar o capitalismo’, ‘derrubar o muro do dinheiro’ e executar um extenso programa de nacionalizações” em um momento Ronald Reagan e Margareth Thatcher se moviam em sentido contrário, lembrou o colunista Avelino de Jesus.

Além da proximidade do discurso, os trejeitos e postura do candidato também lembram o presidente socialista. Mais sério do que o habitual, Hollande foi submetido a uma grande transformação, na qual perdeu peso e mudou sua personalidade. O Hollande brincalhão e irônico deu lugar a um político mais sério. Sua voz e seus gestos também mudaram, o que é visto por muitos observadores como uma imitação de Mitterrand.

Tudo isso com o objetivo de conquistar o que cinco anos antes não conseguiu Ségolène Royal, sua ex- mulher e mãe de seus quatro filhos, quando foi derrotada pelo atual presidente Nicolas Sarkozy em 2007.

O primeiro e único debate na televisão entre Sarkozy e Hollande , que acontece nesta quarta-feira à noite, a quatro dias do segundo turno das eleições presidenciais francesas, será um confronto de personalidades opostas. Esse único choque direto entre os rivais é a última cartada de Sarkozy para tentar reverter sua derrota apontada em todas as pesquisas sobre o segundo turno de domingo.

Candidato da mudança

Assim como Mitterrand em 1981, Hollande se apresenta como o candidato da mudança, disposto a interromper dez anos consecutivos de governos de direita, os quais responsabiliza pela grave crise que o país atravessa.

Sob a nova postura, Hollande também tenta retomar um laço afetivo dos franceses com a própria França. Ao prometer dirigir o país com o espírito de reconciliação, o candidatou lembrou o lema de Mitterrand, para quem se deve amar a França para poder governá-la.

Apesar de não ter sido ‘mitterrandista’ em sua juventude, segundo a revista L’Express, o candidato reconhece o “espírito da força” da figura de Mitterrand e tem lançado um chamado para toda a esquerda e “todos aqueles que querem uma mudança”.

Formado na prestigiada Escola Nacional da Administração, berço da maior parte dos políticos franceses, Hollande ingressou cedo no PS e trabalhou em diversos gabinetes ministeriais, como o do ex-primeiro-ministro Lionel Jospin (1997-2002). Em 1997, quando os socialistas conseguiram a vitória nas eleições legislativas e formaram o governo, Jospin o encarregou de assumir a liderança do partido, cargo que ocupou até 2008, quando decidiu preparar a própria candidatura ao Palácio do Eliseu.

Nas entrelinhas, observou o jornal Le Figaro, Hollande busca demonstrar continuidade entre Mitterrand e ele quando lembra aos eleitores que o ex-presidente "não estava buscando a conquista do poder, mas (...) o sonho francês". Ele, no entanto, é cuidadoso ao comparar 1981 com 2012 e mostra que quer escrever sua própria história. "Havia um ex-presidente, havia uma crise, havia uma expectativa muito grande de mudança", avaliou Hollande. "Mas as personalidades são diferentes, a França mudou."

*Com EFE

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