Em entrevista, Chen Guangcheng diz temer por sua segurança e ter mudado de ideia quanto a permanecer na China

O ativista chinês Chen Guangcheng afirmou nesta quarta-feira que deixou a Embaixada dos Estados Unidos em Pequim, onde se abrigou após fugir de prisão domiciliar , após sua família ter sido ameaçada. Apesar de ter recebido garantias do governo chinês de que poderia permanecer no país, Chen disse à agência de notícias Associated Press que teme por sua segurança e quer ir embora.

Os detalhes sobre a partida de Chen da embaixada ainda são pouco claros. Inicialmente, autoridades dos EUA e da China disseram que o ativista tinha sido levado a um hospital após o governo chinês lhe dar garantias de segurança. Seu advogado, Li Jinsong, relatou uma conversa no qual ele tinha dito estar “muito feliz” e se sentir “um cidadão livre”.

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O dissidente chinês Chen Guangcheng, que fugiu de prisão domiciliar e se abrigou na embaixada americana, é visto em hospital em Pequim
AFP
O dissidente chinês Chen Guangcheng, que fugiu de prisão domiciliar e se abrigou na embaixada americana, é visto em hospital em Pequim

Horas depois, no entanto, amigos de Chen disseram que ele tinha sido obrigado a deixar a embaixada. Em entrevista por telefone à Associated Press, o ativista afirmou que uma autoridade americana havia lhe dito que o governo chinês ameaçara “bater em sua mulher até a morte”.

Segundo a agência, uma autoridade americana negou ter conhecimento de qualquer ameaça, mas disse que Chen foi informado de que sua família deixaria Pequim e seria enviada de volta a seu vilarejo natal, na província de Shandong, caso permanecesse na embaixada.

Uma ativista próxima a Chen, Zeng Jinyan, disse à BBC que Chen optou por permanecer na China para proteger sua família. Segundo Zeng, que afirmou ter falado com o dissidente por telefone, ele “não teve escolha” porque “capangas” estavam esperando por sua família em Shandong. “É impossível, ele não pôde fazer nada. Ele disse: ‘Por favor, me ajude.’”

Outro ativista próximo a Chen, Bob Fu, que mora nos EUA, disse que “fontes confiáveis” garantiram que o dissidente deixou a embaixada obrigado. “Estamos muito preocupados”, afirmou.

A suspeita complica a notícia anunciada pelos governos americano e chinês no primeiro dia de uma visita oficial à Pequim da secretária de Estado americana, Hillary Clinton.

Em comunicado, Hillary afirmou que saída do ativista da embaixada refletia “escolhas” do ativista e “valores” dos EUA.

"O senhor Chen tem uma série de acordos com o governo chinês sobre seu futuro, inclusive a oportunidade de cursar o ensino superior em um ambiente seguro", disse a secretária. "Fazer desses compromissos uma realidade é a próxima tarefa crucial." Hillary acrescentou que os Estados Unidos estão "comprometidos a continuar apoiando o senhor Chen e sua família nos dias, semanas e anos que virão”. Segundo autoridades americanas, a secretária conversou por telefone com o ativista e o ouviu dizer a seguinte frase: “Gostaria de beijá-la.”

O governo chinês exigiu um pedido de desculpas dos EUA por ter permitido a entrada de Chen na embaixada. Nesta quarta-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China disse que Chen chegou à embaixada americana “por circunstâncias anormais” e que as autoridades chinesas estão “muito insatisfeitas”.

Trajetória

Um dos ativistas mais famosos da China, Chen foi colocado sob prisão domiciliar em 2010 após passar mais de quatro anos preso sob a acusação de prejudicar o tráfico e danificar propriedades.

Ele havia acusado as autoridades locais em Linyi, na província de Shandong, de forçar milhares de mulheres a fazer abortos ou serem esterilizadas como parte da política oficial de filho único.

Amigos de Chen afirmaram que a fuga de domingo foi planejada durante meses e teve a ajuda de uma rede de colegas e ativistas. Ele escalou o muro que as autoridades haviam construído em volta de sua casa e foi levado de carro por centenas de quilômetros até Pequim, onde teria passado por vários locais até se abrigar na embaixada.

Com AP, EFE e BBC

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