Autoridade do governo Cameron renuncia após filho de magnata revelar laços políticos da News Corporation

O dono da News Corporation , Rupert Murdoch, negou nesta quarta-feira que esteja tentando se vingar do primeiro-ministro britânico, David Cameron, por ter ordenado a abertura de investigações sobre o escândalo de escutas ilegais do extinto tabloide News of the World . Murdoch prestou depoimento a um inquérito judicial sobre o comportamento e a ética da imprensa no Reino Unido, criada após as denúncias de irregularidades no jornal, que era publicado pela News International, braço europeu da News Corp.

Nesta quarta-feira, Adam Smith, assessor do Secretário da Cultura, Jeremy Hunt, renunciou ao cargo um dia após a divulgação de emails que mostravam conversas dele com autoridades da News Corp na época em que a empresa tentava comprar a operadora de TV por satélite BSkyB. As informações foram divulgadas durante depoimento do filho de Murdoch , James, o que provocou especulações sobre uma tentativa de vingança do magnata.

“Eu disse isso? Está no meu depoimento?”, perguntou Murdoch, quando questionado pelo advogado Robert Jay sobre os rumores de que estava tentando se vingar ao mostrar os laços da News Corp com políticos. Diante da insistência de Jay, Murdoch respondeu: “Os rumores são falsos”.

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Imagem de vídeo mostra depoimento de Rupert Murdoch a inquérito judicial criado após escândalo de escutas ilegais
AP
Imagem de vídeo mostra depoimento de Rupert Murdoch a inquérito judicial criado após escândalo de escutas ilegais

Os boatos também foram alimentados por mensagens publicadas por Murdoch no Twitter, em particular uma que atacava “velhos janotas e direitistas que ainda querem o status quo do século passado”, o que seria uma referência ao Partido Conservador de Cameron.

Durante o depoimento, Murdoch disse que a mensagem era uma crítica a extremistas dos dois lados do cenário político britânico. “Não leve meus tweets tão a sério”, afirmou o magnata ao advogado Robert Jay, provocando risos entre os presentes.

Renúncia de Smith

Os emails divulgados na terça-feira criaram pressão pela renúncia de Jeremy Hunt, responsável pelo departamento de cultura, imprensa e esporte que coordena a preparação para a Olimpíada de Londres .

Ao renunciar ao cargo de assessor de Hunt, Smith disse que os emails criaram a percepção de que a News Corp tinha um relacionamento “próximo demais” ao ministério. Ele afirmou ter agido sozinho, sem autorização de seu superior.

Resistindo aos pedidos do Partido Trabalhista por sua renúncia, Hunt afirmou que o “tom” dos emails era inapropriado, mas insistiu que seguiu “todos os procedimentos corretos” e disse querer provar isso. Cameron afirmou que o secretário tem “todo o seu apoio pelo excelente trabalho que faz”.

'Nunca pedi nada a nenhum premiê'

Em declaração escrita ao inquérito judicial, Murdoch disse ter conhecido o atual premiê britânico quando ele ainda era líder da oposição, durante um piquenique na casa de sua filha. Como estavam rodeados de familiares, os dois não conversaram sobre política, afirmou o magnata. “Fiquei particularmente impressionado com modo como o Sr. Cameron cuidava de seu filho. Me lembro de ter pensado que ele era um bom homem de família”, escreveu Murdoch.

O magnata disse ter tido outros encontros com Murdoch, mas afirmou que depois da eleição esses encontros foram principalmente sociais e “pouca coisa foi discutida”.

Durante o depoimento, Murdoch também foi questionado sobre um almoço em 4 de janeiro de 1981 com a então premiê Margaret Thatcher, no qual teria pedido apoio à sua oferta pelos jornais Times e Sunday Times. Ele confirmou que solicitou a reunião, mas negou qualquer tentativa de influenciá-la.

“Nunca pedi nada a qualquer primeiro-ministro”, afirmou, acrescentando ser um “admirador” de Thatcher. “Tratava-se de uma movimentação que envolvia uma grande instituição e achei que ela tinha o direito de saber o que estava em jogo.”

Questionado sobre o escândalo de escutas ilegais do News of the World, Murdoch lamentou a pouca participação no jornal, dizendo que sempre foi mais ligado ao The Sun. O magnata disse que não acredita no uso de grampos ou na contratação de detetives para obter informações exclusivas pros e tratar de “um jeito de repórteres preguiçosos não fazerem seu trabalho”.

Mas ele acrescentou que pessoas públicas têm responsabilidade públicas e não têm o mesmo direito à privacidade que os cidadãos comuns. “Acho justo que figuras icônicas ou grandes atores sejam olhados”, afirmou.

As denúncias de que o News of the World grampeou os telefone de centenas de celebridades e cidadãos comuns levou Rupert Murdoch a fechar o tabloide e deu início a três investigações policiais, este inquérito judicial e mais de cem processos.

Pressionado, James Murdoch renunciou à presidência executiva da News Internationa l, bem como à direção da BSkyB . Dona de 39,1% da operadora, a News Corporation fez uma oferta para comprar as ações restantes da empresa, abandonada em julho de 2011 por causa do escândalo.

Com AP e BBC

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