Em depoimento, James Murdoch diz ter falado sobre compra de operadora com Cameron, mas nega influência política

Imagem de TV mostra depoimento do ex-presidente da News International James Murdoch em Londres
Reuters
Imagem de TV mostra depoimento do ex-presidente da News International James Murdoch em Londres
O filho do magnata Rupert Murdoch, James Murdoch , ex-presidente executivo da News International, braço europeu da News Corporation , discutiu a compra da uma operadora de TV por satélite durante um jantar privado do qual participou o então líder da oposição e atual premiê britânico, David Cameron. A informação foi dada pelo empresário durante depoimento ao inquérito judicial que investiga o comportamento da imprensa do Reino Unido, criado após o escândalo de escutas ilegais do extinto tabloide News of the World .

Murdoch, porém, negou que este e outros encontros com Cameron tenham tido o objetivo de descobrir quais eram as posições dos conservadores sobre questões que poderiam afetar os negócios da News International. “Um apoio de um jornal a um político não é algo que eu relacionaria a uma transação comercial como essa. E não esperaria que qualquer tipo de apoio político se traduzisse em comportamento inadequado”, afirmou. “Simplesmente não é o modo como faço negócio.”

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As denúncias de que o News of the World grampeou os telefone de centenas de celebridades e cidadãos comuns levou Rupert Murdoch a fechar o tabloide e deu início a três investigações policiais, um inquérito judicial e mais de cem processos.

Pressionado, James Murdoch renunciou à presidência executiva da News International, bem como à direção da BSkyB . Dona de 39,1% da operadora, a News Corporation fez uma oferta para comprar as ações restantes da empresa, abandonada em julho de 2011 por causa do escândalo.

Questionado sobre seu relacionamento com políticos antes e durante a tentativa de compra, James Murdoch disse ter tido uma rápida conversa sobre o assunto com Cameron durante um jantar na casa de Rebekah Brooks , ex-diretora da News International.

O jantar aconteceu em 23 de dezembro de 2010, sete meses antes de Cameron se tornar premiê e dois dias depois de Vince Cable, então Secretário de Negócios do governo, ter deixado de supervisionar a negociação sobre a BSkyB. O afastamento foi motivado por uma conversa gravada na qual Cable dizia estar “em guerra” com Rupert Murdoch.

O filho do magnata afirmou ter comentado sobre a saída de Cable com Cameron durante uma “conversa brevíssima” que não chegou a ser uma “discussão”. James Murdoch também disse ter tido uma reunião em setembro de 2009 com Cameron para discutir um possível apoio do The Sun, também publicado pela News International, à sua candidatura.

Segundo James Murdoch, o propósito das reuniões com Cameron era discutir vários assuntos, como política externa. Questionado sobre se era amigo do chanceler George Osborne, ele respondeu: “Somos amigáveis um com o outro. Não diria que é um amigo próximo”, afirmou, dizendo ter ido à casa de Osborne uma vez e discutido com ele a compra da BSkyB.

Murdoch também contou que um executivo da News Corp precisou de apenas sete minutos para checar uma informação sobre a venda da BSkyB com uma autoridade do Ministério da Cultura. A informação, postada em um blog da BBC em setembro de 2010, era a de que a Ofcom, órgão regulador da mídia britânica, iria rever a oferta da News Corp pela operadora.

Culpa dos subordinados

Durante o depoimento, James Murdoch defendeu seu trabalho à frente da News Corporation dizendo que seus subordinados não o informaram sobre o alcance das práticas ilegais. Murdoch voltou a dizer que o ex-editor do jornal Colin Myler e o ex-advogado da empresa Tom Crone não lhe disseram que as práticas ilegais eram corriqueiras e não restritas a apenas um repórter.

Em depoimentos no ano passado, Myler, Crone e outros executivos da News International negaram a versão de James Murdoch, dizendo tê-lo informado em 2008 sobre um email com dados sobre os grampos.

O juiz Brian Leveson, que comanda o inquérito, perguntou a James Murdoch por qual motivo Myler e Crone não compartilhariam tal informação. “Você acha que seu relacionamento era tal que eles poderiam ter pensado: ‘Não vamos incomodá-lo com isso’ ou ‘Melhor escondermos isso, ele ordenará que acabemos com esse câncer?’”, perguntou Leveson.

“Deve ter sido isso”, respondeu James Murdoch. “Eu realmente diria para acabar com o câncer, e havia algum desejo de que isso não acontecesse.”

Murdoch afirmou que, na época, não tinha nenhuma razão para desconfiar de seus subordinados na News International, que publicava o News of the World. “Eles me davam garantias que se mostraram erradas”, afirmou.

Rupert Murdoch deve prestar esclarecimentos sobre o caso diante do inquérito judicial nesta quarta-feira.

Com BBC e AP

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