ONG americana arrecadou US$ 15 milhões com venda de kit de campanha pela captura de criminoso de guerra Joseph Kony

Ela lançou um dos maiores virais da história da internet, revolucionou a forma de fazer lobby humanitário e, semanas depois, passou pelo constrangimento de ter Jason Russell, um de seus cofundadores, detido ao ter um surto psicótico e sair nu pelas ruas de San Diego. Afinal, o que é a ONG Invisible Children, responsável pelo vídeo recordista de acessos " Kony 2012 ", que denuncia o uso de crianças como soldados pelo Exército de Resistência do Senhor (ERS), comandado pelo líder guerrilheiro Joseph Kony ?

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Caixa cheia de cartazes sobre líder guerrilheiro Joseph Kony é vista em sede da ONG Invisible Children em San Diego, EUA (8/3)
AP
Caixa cheia de cartazes sobre líder guerrilheiro Joseph Kony é vista em sede da ONG Invisible Children em San Diego, EUA (8/3)
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A Invisible Children (Crianças Invisíveis, em inglês) não é uma organização humanitária no sentido clássico, que faz ações para ajudar as pessoas de forma prática. Em vez disso, ela é uma ONG que quer divulgar informações e defender vítimas de Kony por meio de vídeos e filmes. “As pessoas tendem a achar que usamos a nossa organização para distribuir alimentos e roupas na África, mas o que fazemos é distribuir informação, divulgar o que está acontecendo lá, para que os africanos e outras organizações se beneficiem”, explicou ao iG Jedidiah Jenkins, diretor de comunicação da Invisible Children.

Em 2003, recém-formados no curso de cinema, Jason Russell, Bobby Bailey e Laren Poole viajaram até a África para documentar a violência de Darfur, no oeste do Sudão, onde 300 mil pessoas morreram e outras 2,5 milhões foram obrigadas a abandonar seus lares, segundo a ONU. A caminho do seu destino, porém, os jovens se depararam com a guerra que ocorria no norte da Uganda e decidiram mudar de rumo.

Ao voltar para os EUA em 2004, eles resolveram fundar uma organização não-governamental para divulgar as atrocidades cometidas por Kony e seu ERS. Estava criada a Invisible Children, a ONG que desenvolveria diversos vídeos até chegar ao documentário " Kony 2012 " neste ano.

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Até o início do ano, o orçamento da organização era de US$ 13,8 milhões. Com o sucesso do vídeo, a Invisible Children vendeu 500 mil caixas com braceletes e cartazes da campanha a US$ 30 cada uma, somando outros US$ 15 milhões ao orçamento. Segundo o site da ONG , seus gastos são divididos da seguinte forma: 43% em produtos, vídeos e campanhas de divulgação da ONG e Kony; 37% em projetos na África, como bolsas de estudos etc; 20% em salários, aluguéis e eventos para atrair doações para a ONG.

A Invisible Children tem sido extremamente criticada por gastar mais dinheiro em campanhas e vídeos do que efetivamente na África, com projetos para ajudar as vítimas. A resposta de Jenkins é bastante direta: “Na verdade gastamos 80% do nosso orçamento em projetos, mas nosso objetivo não é abrir escolas e alimentar pessoas, e sim divulgar para o mundo todo o que Kony tem feito por 25 anos. Acreditamos que é essa comunicação que mudará o mundo, e não aumentar nossos gastos na África”, afirmou.

Outra crítica repetida contra a ONG relaciona-se à falta de transparência. Em resposta a isso, a Invisible Children pediu que as pessoas escrevessem suas dúvidas no Twitter @Invisible, que são respondidas pelo diretor-executivo da organização, Ben Keesey, em vídeos publicados semanalmente no canal http://vimeo.com/invisible .

Em 15 de março, o cofundador da ONG e apresentador do "Kony 2012", Jason Russell, foi preso enquanto sofria um surto psicótico nas ruas de San Diego. Ele foi filmado caminhando completamente nu e, segundo testemunhas, gritando palavrões e se masturbando em público. Segundo a Invisible Children, Russell sofreu uma crise de exaustão, desidratação e má nutrição.

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Russell nasceu em uma família evangélica. Seus pais são os cofundadores de uma rede de teatros cristãos, onde Russell atuou seguidamente na juventude. Com 34 anos, ele tem dois filhos. “Russell vem de uma família religiosa, está procurando uma causa, carrega essa missão cristã e nasceu em um meio artístico, teatral. Isso tudo forma esse personagem e explica o tipo de vídeo que ele fez, promovendo a si mesmo e a seu filho, Gavin, de 5 anos”, disse ao iG Peter Eichstaedt, autor do livro “First Kill Your Family” (Primeiro Mate a Sua Família, em tradução livre, sobre Kony e a guerra de Uganda).

Dias após o incidente com Russell, sua mulher, Danica Russell, disse publicamente que “Jason ficará hospitalizado por algumas semanas”, mas que seu tratamento poderá durar meses. Depois disso, ele deverá voltar à liderança da organização, segundo ela. “Pelo momento, vamos nos concentrar no que realmente importa: a África”, pediu Danica em declaração pública.

Assista ao vídeo sobre Joseph Kony (versão no TouTube com legendas em português):

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