Mobilização por vídeo 'Kony 2012': separe os fatos das distorções

Nesta 6ª, milhões de espectadores de maior viral da história estão convocados a se mobilizar contra criminoso de guerra Joseph Kony

Carolina Cimenti, de Nova York |

O vídeo " Kony 2012 " transformou em questão de horas no viral mais bem-sucedido da internet desde seu lançamento, em 5 de março. Em dois dias, houve mais de 50 milhões de visualização do vídeo, que denuncia o uso de crianças como soldados pelo Exército de Resistência do Senhor, comandado pelo líder guerrilheiro Joseph Kony . Em 13 de abril, seis semanas após seu lançamento pela ONG Invisible Children (Crianças Invisíveis, em inglês), o número superava os 180 milhões.

Leia também: Saiba mais sobre Joseph Kony e o Exército de Resistência do Senhor

AP
Foto de 2006 mostra Joseph Kony, líder do grupo guerrilheiro Exército de Resistência do Senhor
Sucesso: 'Kony 2012' é o maior viral da história, diz estudo

Nesta sexta-feira, data estipulada no documentário para uma grande mobilização por meio telefonemas a legisladores e de eventos em campos de esportes e nas ruas, chega o momento de ver o quanto dessa repercussão online se reverterá em um esforço real no mundo pela captura de Kony, que lidera a lista de criminosos de guerra procurados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI).

Juntamente com seu sucesso, porém, também surgiram milhares de críticas ao vídeo . Algumas ligadas à característica "muito hollywoodiana” do documentário de 30 minutos e outras que apontam imprecisões e erros nas informações compiladas.

Fontes consultadas pelo iG foram unânimes em um ponto: não há dúvidas de que seria extremamente positivo capturar Kony e seus homens e julgá-los no TPI, em Haia. Transformá-los em um exemplo que poderia, em longo prazo, ajudar a democratizar alguns países na África. Se o vídeo ajudar a alcançar essas metas, não haveria reclamações.

Mas o vídeo deixa claro que a Invisible Children e seu cofundador, Jason Russell , que narra a história  juntamente com seu filho de 5 anos, não são exatamente imparciais, exageraram em alguns fatos e deram dados errados.

Histórico: Saiba mais sobre a Invisible Children, criadora do 'Kony 2012'

“O que mais me incomoda em Kony 2012 é o fato de o vídeo deixar a impressão de que a guerra continua, de que Uganda ainda vive essa violência diariamente, quando, na realidade, o conflito foi encerrado há sete anos, e o país vive um momento de crescimento”, disse ao iG Peter Eichstaedt , autor do livro “First Kill Your Family” (Primeiro Mate Sua Família, em tradução livre), sobre Kony e a guerra da Uganda.

Assista ao vídeo sobre Joseph Kony (versão no TouTube com legendas em português):

“Em segundo lugar”, disse Eichstaedt, “não fica claro que Kony e seu exército já não estão mais no país desde 2006. O vídeo menciona isso rapidamente, mas insiste que é necessário ajudar o Exército de Uganda a encontrá-lo, o que é uma contradição enorme.”

Lado positivo: Apesar das críticas, ONGs aprendem com vídeo 'Kony 2012'

Atualmente sabe-se que Kony e seus homens escondem-se nas florestas nas fronteiras da República da África Central, da República Democrática do Congo e do recém-criado Sudão do Sul . Por isso não seria responsabilidade do Exército da Uganda encontrá-lo, mas sim das autoridades desses três países, que vivem em uma situação menos democrática e mais pobre do que a Uganda.

Para Eichstaedt, outra falha do vídeo é simplificar demais o problema que seria capturar Kony, afirmando que a questão não é somente a falta de treinamento e tecnologia por parte dos Exércitos locais, como o de Uganda. "Por cerca de 20 anos, o governo de Uganda ‘tentou’ capturar Kony, mas nunca conseguiu. Não porque era impossível, mas porque o governo recebe ajuda financeira e militar para encontrá-lo e, enquanto continuar procurando, continuará recebendo. Então não há interesse em prendê-lo”, afirmou.

'First Kill your Family': 'Kony 2012 não condiz com a realidade', diz autor

Outro fator muito criticado do vídeo é sua mensagem colonialista. Alex de Waal, diretor da Fundação World Peace, disse ao iG que o documentário representa um desfavor aos africanos em geral. “Milhões de jovens americanos estão ouvindo a mensagem de que a África passou 25 anos esperando os EUA irem até lá para resolver o problema. E, pior, que ele só não foi resolvido ainda por falta de interesse dos líderes americanos. Capturar Kony é importante, mas não resolverá os problemas desses países pobres e subdesenvolvidos”, afirmou de Waal.

Ele também lembra o desastre que foi quando militares da Ruanda e da Uganda invadiram o Zaire (atual Congo), 15 anos atrás, em busca de genocidas e rebeldes, com o apoio do governo americano. Pelo menos cem civis congoleses foram assassinados antes de a missão militar ser interrompida. “Pode parecer frio, mas os problemas africanos só serão resolvidos pelos africanos e quando os africanos quiserem. Não adianta o Ocidente impor soluções simplistas em situações complexas”, disse.

O vídeo também é inconsistente ao mencionar os cem soldados enviados em missão especial pelo presidente americano, Barack Obama, em 2011 ao esconder o fato de que o ex-presidente George W. Bush (2001-2009) também mandou soldados para a Uganda em 2008.

Além disso, não há por enquanto nenhuma menção oficial em retirar esses militares de lá, diferentemente do que é dito em Kony 2012, que instiga as pessoas a pressionar para que Washington não traga esses soldados de volta. “Me parece que Jason e o pessoal do Invisible Children tiveram de aumentar um pouco os riscos para justificar essa megacampanha”, disse Eichstaedt.

Outro dado incorreto é o tamanho do exército de Kony. O vídeo menciona milhares de homens que teriam sequestrado 60 mil crianças ao longo dos anos. O número é considerado um pouco exagerado e seria referente a 25 anos de atuação. Atualmente, acredita-se que o grupo de Kony não tenha mais de 200 membros, com seus ataques a vilarejos mais ligados a saques por alimentos, água e bebidas alcóolicas para subsistência. Além disso, segundo Waal, a população congolesa, por exemplo, teme mais a violência do próprio Exército do Congo do que dos homens de Kony.

AP
Imagem fornecida pela ONG Invisible Children mostra Joseph Kony e seu vice, Vincent Otti, liderando lista de indiciados pelo Tribunal Penal Internacional
O diretor da organização humanitária Action Aid em Uganda, Arthur Larok, disse que a campanha da Invisible Children teria sido muito útil dez anos atrás, mas que agora acaba distorcendo a realidade. “A situação no norte da Uganda é completamente diferente do que foi retratada no vídeo. Obviamente existem desafios econômicos e estruturais naquela região, mas não há mais conflito”, disse Larok.

Se isso não fosse verdade, Uganda, com sua crescente economia turística, não teria sido escolhida pelo guia de viagem Lonely Planet como um dos destinos principais deste ano. Em resposta a Kony 2012, a Fundação Mara, uma organização humanitária sem fins lucrativos, chegou a lançar um vídeo de três minutos sobre o país, mostrando um cenário pacífico e natural, chamado Uganda 2012 – Mais do que Kony 2012 .

Reação: Após 'Kony 2012', Uganda tenta revitalizar sua imagem

Em resposta a essas críticas e para tentar corrigir alguns dos erros apontados, a Invisible Children lançou em 5 de abril o vídeo Kony 2012 – parte II . No vídeo, a organização explica que as soluções efetivamente são mais complexas do que inicialmente apresentadas. O segundo vídeo, porém, não teve o mesmo sucesso do primeiro: até agora menos de 2 milhões o assistiram.

    Leia tudo sobre: joseph konykony 2012invisible childrentpiviraluganda

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG