'Kony 2012 não condiz com a realidade', diz especialista

Ao iG, autor de livro sobre criminoso de guerra Joseph Kony critica ONG que criou maior viral da história da internet

Carolina Cimenti, de Nova York |

Peter Eichstaedt, que entre outros livros sobre países africanos escreveu “First Kill Your Family” (Primeiro Mate a Sua Família, em tradução livre), estava em Uganda em 2005, quando as negociações de paz forçaram o líder guerrilheiro Joseph Kony , comandante do Exército de Resistência do Senhor, e seus homens a deixar o país africano.

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O líder guerrilheiro é o principal personagem de " Kony 2012 ", viral criado pela ONG Invisible Children (Crianças Invisíveis, em inglês) para denunciar o uso de crianças como soldados pelo ERS e convocar uma mobilização mundial pela captura de Kony, que lidera a lista de criminosos de guerra procurados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI).

Em entrevista concedida ao iG , Eichstaedt tenta explicar por que a caça a Kony é mais complexa do que parece e só vai ser concluída com sucesso quando os africanos quiserem.

iG: Quantas crianças e adultos, afinal, foram sequestrados por Kony?
Peter Eichstaedt: Os números são apenas estimativas e vão de 40 mil a 50 mil pessoas sequestradas durante os últimos 25 anos. Muitas delas meninas e meninos. Mas é necessário explicar o contexto. Às vezes Kony e seus homens atacam um vilarejo ou um mercado para roubar alimentos, água e bebidas alcoólicas. Depois disso, precisam de ajuda para carregar esses bens até seus acampamentos. Então a grande maioria dessas pessoas é forçada a ajudar por algumas horas, mas depois são libertadas. Principalmente agora, que o exército de Kony ataca somente para se manter vivo, não para guerrear, é isso que tende a acontecer. No passado eles eram mais violentos e chegavam a exigir que jovens e crianças cometessem crimes atrozes, como matar seus parentes ou amigos para não serem mais aceitos naquela comunidade e, assim, virarem soldados. Muitas vezes, porém, essas crianças faziam parte do exército de Kony por algumas semanas e depois fugiam. A grande maioria das crianças e adultos conseguia escapar e, por isso mesmo, ele sempre precisava de novos soldados. Acredita-se que Kony e seus homens tenham deixado cerca de 20 mil mortos ao longo dos anos, mas alguns creditam em sua conta outras 100 mil pessoas que morreram em campos de refugiados, seja de fome ou por falta de medicamentos e água.

iG: O título do seu livro “First Kill Your Family” demonstra a estratégia brutal de Kony. Pode explicar como surgiu esse título?
Eichstaedt: Kony usava essas torturas psicológicas para “formar” seus soldados crianças. Se uma criança reclamava demais por ter de carregar coisas ou não queria mais caminhar, Kony dava uma arma para outra criança do grupo e a forçava a matar a primeira. Seguidamente acontecia de um grupo de crianças ter de matar um de seus amigos de infância. Mas um dia conheci um ex-soldado de Kony, que, quando criança, foi forçado a matar seus próprios pais... e por isso que o título do livro é esse. Não era sempre essa tática, mas era muito violento.

iG: O vídeo da Invisible Children dá a entender que isso continua acontecendo. É verdade?
Eichstaedt: Essa é a minha maior reclamação quanto ao vídeo. Conheço Jason Russell (cofundador da organização e apresentador do vídeo) e conheço o pessoal que trabalha com ele. Sei que sabem mais do que apresentaram nesse vídeo. Jason sabe muito bem que Kony saiu de Uganda em 2005 e nunca mais voltou. Ele sabe que o país está em paz há mais de 5 anos agora. Mas o vídeo deixa a impressão de que a guerra continua e de que está devasta o país. Não é verdade. Kony continua violento? Sim, mas em uma escala infinitamente menor. Eles não estão mais guerreando porque não tem com quem guerrear, a guerra acabou!

Divulgação
Capa do livro 'Primeiro Mate sua Família', de Peter Eichstaedt, sobre o líder guerrilheiro Joseph Kony e seu Exército de Resistência do Senhor
iG: Então essa campanha e o vídeo chegaram tarde demais?
Eichstaedt: Exatamente! Tarde e fraco demais. Jason viu essa situação em 2003, quando viajava com colegas, e aí decidiu que essa seria a missão da vida dele. O que é ótimo, aplaudo seus esforços. O garoto criou essa organização enorme, tem US$ 9 milhões de orçamento. Mas poderia fazer muito mais e melhor, não entendo por que usou essas imagens de 2003 passando uma mensagem ambígua, quando poderia fazer um trabalho muito mais realista.

iG: Mas, por outro lado, seria positivo se o vídeo ajudar a capturar Kony, não?
Eichstaedt: Mas as coisas não são tão simples assim. Em 2003, o então presidente de Uganda foi para o Tribunal Penal Internacional e pediu ajuda para capturar esse homem. A corte mandou investigadores para a Uganda e depois publicou esse mandado de prisão contra Kony, em 2005. Esse foi o primeiro mandado de prisão jamais expedido pela corte. Mas, por outro lado, com esse mandado, ficou mais fácil para o governo pedir ajudar internacional. Na época, não entendia por que o governo nunca conseguiu prender Kony, até porque Uganda é famosa por ter um dos melhores exércitos de toda a África. Fui investigar o que ocorria e descobri que o governo usava Kony para receber milhões de dólares em ajuda militar todos os anos, e essa ajuda pagava o salário de soldados fantasmas, que nunca existiram. Quer dizer, o governo se beneficiava por não encontrar Kony. Não tinha o menor interesse em fazê-lo. E quando Kony finalmente deixou o país, o governo teve de admitir que falsificava o número de soldados e armas no norte do país. Corrupção pura. E isso continua hoje. Esses países onde Kony está atualmente simplesmente não têm dinheiro, interesse e energia para caçá-lo. Só a República Democrática do Congo é do tamanho da Europa. Como é que vão encontrar 100 ou 200 homens se escondendo por lá? E mais, o Exército do Congo é praticamente mais temido que o de Kony. Os soldados não são pagos, mas andam armados. São um bando de militares bêbados e armados que têm poder e seguem pelo país roubando, matando e estuprando mulheres. Os congoleses não querem o Exército congolês perto deles. Então Kony vive uma vida nômade em uma esquina do mundo onde três Estados falidos se encontram. Eles não têm dinheiro, treinamento ou interesse em prendê-lo. Eles têm problemas maiores para se preocupar. O único país daquela região que poderia fazer alguma coisa para encontrá-lo é o novo governo da Uganda, mas Kony não está mais no território do país!

iG: Então a proposta do vídeo de espalhar cartazes pelos EUA e pelo mundo para deixar Kony famoso é uma piada para os africanos?
Eichstaedt: Sim! Meus amigos de Uganda chamam isso tudo de “solução branca para um continente negro”. De fora, isso parece um problema grave, e não conseguimos entender por que os africanos não resolvem isso logo. Mas, por outro lado, africanos lidam com seus problemas do jeito que lidam. Não podemos querem impor uma solução nossa. Isso ainda é resquício do colonialismo. Deixe-os cuidar disso. Se eles não vão fazer nada, não seremos nós que poderemos fazer algo na casa deles. Gostaria que Kony fosse preso o mais rapidamente possível, mas o mundo ocidental quer dizer para a África como resolver esse problema que os africanos não necessariamente querem resolver.

AP
Foto de 2006 mostra Joseph Kony, líder do Exército de Resistência do Senhor, grupo guerrilheiro de Uganda
iG: E você acha que o "Kony tracker", sistema automatizado apresentado no vídeo, que mostra por onde Kony estaria transitando, pode ajudar?
Eichstaedt: Isso é uma piada de mau gosto! Ajudar a mostrar onde Kony e seus homens estão teoricamente ajudaria as pessoas a se proteger, mas é uma grande piada porque é um sistema feito para a internet, e onde Kony atua nesse momento não existe nem eletricidade, que dirá computadores e smartphones! Então, como as pessoas conseguirão entrar na internet para ver onde Kony anda?

iG: O sr. disse que Jason Russell conhece a situação de Uganda, então por que acha que ele desenvolveu essa campanha?
Eichstaedt: Bom, ele vem de uma família evangélica que tem um teatro. Ele procura uma causa, carrega essa missão cristã e nasceu em um meio artístico, teatral. Então imagino que isso tudo forma esse personagem e explica o tipo de vídeo que ele fez, promovendo a si e a seu filho.

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