Promotor-geral garantiu que presidente Evo Morales poderá ser convocado a depor, caso seja necessário

Ministro do Interior Sacha Llorenti renunciou ao cargo nesta terça (27/9)
AP
Ministro do Interior Sacha Llorenti renunciou ao cargo nesta terça (27/9)
O promotor-geral da Bolívia, Mario Uribe, informou em Sucre que o ex-ministro do Interior Sacha Llorenti será investigado pela violenta intervenção policial à marcha indígena que ocorreu no fim de semana, informou o jornal boliviano La Razón. Segundo Uribe, a comissão de investigação penal, cuja criação foi anunciada na quarta-feira, não descarta a possibilidade de convocar o presidente Evo Morales para depor, "se houver alguma declaração que ele possa dar para esclarecer o ocorrido".

A comissão especial tem a missão de investigar o incidente de domingo , quando a polícia dispersou com violência, usando cassetetes e gás lacrimogêneo, o acampamento da marcha indígena em Yucumo, onde os manifestantes foram retirados de suas barracas e forçados a embarcar em um ônibus, ação que não poupou mulheres e crianças.

Os nativos protestavam contra a construção de um dos trechos de uma rodovia que, segundo o planejamento, terá 300 km de extensão e cortará o Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS). Na segunda-feira, Evo decidiu suspender as obras da estrada , por conta da crise instaurada.

A construção da rodovia ficou a cargo da empresa brasileira OAS com previsão de empréstimos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, segundo o governo boliviano, permitiria uma conexão entre o Pacífico e o Atlântico, beneficiando Brasil, Bolívia e Peru. Entretanto, na terça, o BNDES divulgou que até então não havia efetuado nenhum desembolso visando ao financiamento da importação de equipamentos e serviços brasileiros.

Segundo o jornal boliviano La Razón, o vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, afirmou que o governo já sabe os pormenores da intervenção à marcha indígena, mas aguardará que a comissão investigadora revele as informações.

"Nós já sabemos o que aconteceu (...) Fizemos internamente um conjunto de averiguações", disse, durante coletiva de imprensa. Ele reiterou que, apesar disso, o governo se comprometeu que a comissão revele os envolvidos para que todos sabem o que aconteceu "passo a passo".

A equipe de investigação à intervenção policial conta com dois médicos forenses e peritos especializados em criminalística, imagens e vídeo, além da Unidade de Vítimas e Testemunhas do Ministério Público, segundo o jornal La Razón.

Na quarta-feira, Evo Morales reiterou em uma coletiva de imprensa, que nenhuma autoridade do governo deu nenhuma instrução para a repressão policial. "Não foi uma instução do presidente. Jamais no governo podíamos pensar que tamanha agressão pudesse ser feita contra os irmãos indígenas", afirmou o presidente, primeiro indígena eleito na Bolívia.

Ele também pediu perdão mais uma vez pelo ocorrido. "Que me desculpem, que me perdoem", afirmou. "Quero novamente convocar ao diálogo, estamos aqui para seguir dialogando", destacou o presidente, que acusa os meios de comunicação de dramatizar a ação policial.

"Preciso dizer, com muita sinceridade, que eu, como vítima (da violência policial na época de líder cocalero) jamais poderia instruir para a repressão que houve em Yucumo, como viu o povo boliviano."

Milhares de pessoas ocuparam as ruas das principais cidades bolivianas na quarta-feira, convocadas pela Central Operária (COB), para apoiar os indígenas vítimas da repressão. O movimento, acompanhado por uma greve geral, mobilizou os nove departamentos bolivianos. Morales qualificou os protestos como "uma chamada de atenção do povo boliviano".

Os incidentes em Yucumo provocaram a renúncia da ministra da Defesa , Cecilia Chacón, indignada com a ação da polícia, e, posteriormente, do ministro do Interior, Sacha Llorenti , por suposta negligência. Pouco antes de entregar o cargo, Llorenti havia afirmado que as ordens para a intervenção policial tinham sido dadas pelo vice-ministro do Interior, Marcos Farfán, que também pediu demissão - porém, negando as acusações do governo.

Na terça-feira, ao empossar os novos ministros do Interior e da Defesa, Wilfredo Chávez e Rubén Saavedra, o presidente acusou os meios de comunicação de mentir e utilizar o incidente policial para minar o governo. "Já disse isso e não tenho medo de repetir: a maior oposição a Evo Morales são os meios de comunicação, mas vamos lutar esta batalha, da verdade contra a falsidade".

Os indígenas prometeram oficialmente em uma manifestação na quarta-feira iniciada na localidade de Rurrenabaque, no norte do país, a retomada da marcha , porém sem ainda dizer ao certo o dia em que ela terá início. "Viva a histórica marcha pelo TIPNIS, a marcha continua", disse uma resolução de cerca de 200 indígenas presentes em uma assembleia, e lida pela dirigente Mariana Guasanía.

Morales enfrentava até agora uma dura oposição de setores conservadores, especialmente do leste do país. Essa é a primeira vez que a resistência ao seu governo parte de grupos indígenas.

Com AFP

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