Montevidéu, 6 jul (EFE).- A família do ex-presidente João Goulart (1961-1964) denunciou hoje a "falta de compromisso" do Governo federal para esclarecer se o ex-governante, morto em 1976 quando se encontrava no exílio, foi vítima de um assassinato político.
Vários membros da família Goulart, entre eles sua viúva, Maria Theresa, e seu filho João Vicente, exigiram em Montevidéu um "maior compromisso e vontade política", assim como "coragem" ao Governo para solucionar este caso.
A família ofereceu estas declarações em entrevista coletiva convocada por ocasião da estreia hoje do documentário "Jango em Três Atos", onde conta vida política e a morte de João Goulart, deposto mediante um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos em 1964.
Nesse documentário aparece uma entrevista gravada em 2008 com o ex-agente da inteligência uruguaia Mario Barreiro, preso desde 1999 no Brasil, na qual afirmava ter participado de uma operação encoberta, emoldurada no Plano Condor de apoio entre as ditaduras latino-americanas, que culminou com o assassinato de Jango por envenenamento.
Sua morte aconteceu na Argentina e foi atribuída oficialmente a um ataque cardíaco, mas uma autópsia foi vetada tanto na Argentina como no Brasil, onde foi enterrado.
Segundo Barreiro, o veneno que teria matado foi colocado em pílulas para o coração que o político importava da França para combater sua cardiopatia.
Para João Vicente Goulart, o Brasil não está interessado em resolver este caso, que permanece aberto na Justiça do país há dois anos, porque forçaria a pedir explicações aos EUA e a revisar a política em relação às violações dos direitos humanos cometidas durante a ditadura.
"Acreditamos que o caso não avança porque fazê-lo seria revisar a Lei de Anistia do Brasil. O país é uma democracia, mas as leis deste tipo estão muito atrasadas e até mesmo marcam a prescrição dos crimes de lesa-humanidade", afirmou Goulart filho.
A família anunciou que se em março de 2010 não forem registrados avanços no caso, levará esta denúncia a um tribunal internacional, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos ou o Tribunal de Haia.
"Escutar as testemunhas nomeadas, facilitar a abertura de arquivos, pedir a colaboração de outros países, essas são as coisas que o Brasil podia ter feito e ainda não fez", criticou João Vicente Goulart.
"É triste que o Brasil não tenha interesse em sua história e em um fato como o golpe contra o Governo de Goulart, que afetou a vida de milhões de brasileiros", sentenciou o filho do ex-governante. EFE amr/mh
