06/01/2009 - 11:31 , atualizada às 12:03 10/01 - Marina Morena Costa, repórter do Último Segundo
A Palestina, região que compreende o Estado de Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, é marcada historicamente por conflitos religiosos e disputas territoriais. Os judeus reclamam um território na chamada Terra Santa desde o século I d.C., quando foram expulsos da região pelo exército romano.
Em 1897, realizou-se o primeiro congresso sionista, que deu início ao movimento de reocupação da Palestina pelos judeus. A emigração começou desde então e se intensificou após a primeira e a segunda guerras mundiais, que levaram milhares de judeus a fugir da Europa em direção ao Oriente Médio.
Três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1948, o Reino Unido, que havia conquistado a Palestina do Império Otomano, deixou o território para a criação do Estado de Israel. De acordo com a partilha territorial proposta pela Assembleia Geral das Nações Unidas, dois Estados seriam criados na Palestina: um árabe e outro judeu. Como os árabes palestinos, que viviam há séculos na região, não aceitaram a divisão imposta, os conflitos armados começaram. A Liga Árabe mobilizou 30 mil soldados e confrontos intensos se iniciaram nas fronteiras da Palestina.
Israel x Gaza
A atual investida militar de Israel contra a Faixa de Gaza, que já matou mais de 800 palestinos, tem como objetivo principal, segundo o governo israelense, enfraquecer o Hamas, movimento islâmico que domina a Faixa de Gaza e que não reconhece Israel como um Estado (saiba mais sobre o Hamas), e retaliar os ataques com foguetes que o grupo islâmico tem feito contra seu território – do lado israelense mais de dez pessoas morreram até o momento, entre civis e militares.
De acordo com Maria Aparecida Aquino, professora de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a desproporção com a qual Israel reagiu aos ataques revela uma nova preocupação do Estado. “Estamos às vésperas de uma mudança muito significativa nos Estados Unidos, que sempre apoiaram Israel e estiveram presentes nas questões do Oriente Médio. Eventualmente, Barack Obama (presidente eleito dos Estados Unidos e que tomará posse no dia 20 de janeiro) poderá trazer algumas diferenças na política externa norte-americana, e até traçar estratégias de paz, como fez Bill Clinton. Israel tomou esta decisão militar, pensando no cenário internacional”, afirma a professora.
Segundo o jornal norte-americano “The New York Times”, especialistas nas questões do Oriente Médio dizem que Israel programou sua movimentação contra o Hamas para receber o apoio do atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.
Ainda de acordo com o artigo do jornal, oficiais israelenses não tinham certeza se Obama, apesar de declarações anteriores de simpatia pelo direito de defesa de Israel, daria ao país o mesmo apoio incondicional da gestão Bush.

Localização da Faixa de Gaza
Foguetes, tréguas e bloqueio
Desde setembro de 2005, quando as tropas israelenses se retiraram de Gaza, após 38 anos de ocupação, a região passa por uma sucessão de conflitos e tréguas. A situação ficou ainda mais tensa com a vitória do Hamas, em janeiro de 2006, nas eleições locais.
Israel suspendeu negociações com Gaza e não reconheceu o Hamas como um governo legítimo. “Mesmo com o partido tendo sido eleito democraticamente, por voto popular”, explica Maria Aparecida. Em setembro de 2007, Israel declarou a Faixa de Gaza “entidade hostil”.
Em resposta aos contínuos ataques com foguetes, o governo israelense impôs um bloqueio econômico à Faixa de Gaza, em janeiro de 2008.
Cessar-fogo de 2008
Uma trégua entre Israel e Hamas foi acertada com a mediação do Egito, em 19 de junho de 2008 com o prazo de 6 meses de duração. Porém, poucos dias depois, no dia 23, o Hamas continuou a lançar foguetes em direção ao território israelense, reclamando a liberação do trânsito de mercadorias para Gaza.
Os dois lados se queixavam de que o adversário não cumprira todos os termos do acordo. O Hamas pedia o fim do bloqueio para a entrada de alimentos, combustíveis, medicamentos e outros bens; Israel questionava os disparos esporádicos de foguetes e morteiros vindos de Gaza.
A tensão aumentou no dia 4 de novembro, após a eleição de Barack Obama, quando o Exército israelense realizou incursões terrestres e aéreas em Gaza, matando sete militantes do Hamas. Este foi o primeiro confronto armado entre forças israelenses e do Hamas em Gaza desde a entrada em vigor do cessar-fogo temporário.
No dia 19 de dezembro, o braço armado do Hamas, as Brigadas Ezzedine Al-Qassam, anunciaram o fim oficial da trégua em resposta ao prosseguimento do bloqueio israelense de Gaza. Israel lançou a última grande ofensiva contra o Hamas, em 27 de dezembro, a operação “chumbo grosso”.
Objetivos principais
As duas partes envolvidas no conflito têm objetivos difíceis de serem alcançados, segundo especialistas. O Hamas pretende colocar fim ao bloqueio econômico imposto por Israel e firmar-se como um governo legítimo e reconhecido.
Já Israel quer acabar com os bombardeios do Hamas e enfraquecer o grupo islâmico. O governo israelense nega um cessar-fogo, porém, Israel teria determinado três “princípios fundamentais” para pôr fim às ofensivas terrestres e aéreas em Gaza: “destruição substancial” do poderio militar do Hamas, impedimento do grupo de disparar foguetes contra Israel e a construção de muros subterrâneos na fronteira com o Egito, que impeçam o Hamas de construir túneis para transportar armamentos.
“A construção de túneis na fronteira com o Egito requer um acordo com o país, que dificilmente será aceito”, afirma a professora da USP.
Outro fator que pode ter motivado os ataques israelenses é a proximidade das eleições em Israel. O primeiro-ministro, Ehud Olmert, e a ministra de Assuntos Exteriores, Tzipi Livni, ambos do Partido Trabalhista Kadima, melhoraram seus índices de popularidade com a ofensiva. O bombardeio é apoiado por 95% da população israelense, segundo uma pesquisa publicada pelo jornal Maariv, a poucas semanas das eleições antecipadas, previstas para 10 de fevereiro.
Antes da ofensiva o Partido Trabalhista (de centro-esquerda) estava em queda nas pesquisas e a oposição de direita, que exigia uma resposta mais dura ao Hamas ganhava vantagem. Com a ascensão, o partido de Tzipi Livni deve eleger 16 deputados da futura Knesset (parlamento israelense) contra os 12 atribuídos pelas sondagens anteriores.
| AP |
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| Meninos palestinianos feridos aguardam tratamento no hospital Shifa |
Possíveis desdobramentos do conflito
Na visão da professora Maria Aparecida Aquino, a invasão terrestre do exército israelense em Gaza deve prosseguir ostensivamente até 20 de janeiro, quando Obama assumirá a presidência dos Estados Unidos. “Obama já tem em sua agenda uma tomada de decisão deste conflito, uma resolução pela paz na região. Ele assume com este problema profundo para resolver e sua decisão dependerá muito de como estará a situação em Gaza”, diz a professora.
A invasão terrestre pode ser considerada “uma demonstração de força absoluta” de Israel, de acordo com Maria Aparecida. “O exército israelense está ocupando Gaza. Muito provavelmente a população terá que responder às duas bandeiras [de Israel e de Gaza] em breve. E o maior problema ainda está por vir: a desocupação. É muito difícil desocupar um território.”
(*com informações da EFE, AFP e AE)
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