20/09 - 06:43 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo
Estampo aqui o prefácio do recém-lançado livro “Histórias da Guerra”, com poemas e ensaios do poeta norte-americano Charles Bernstein, e, neste link, o original e tradução, linha a linha, do poema “War Stories”/”Histórias da Guerra”, escrito logo após a invasão bushiana do Iraque. Ao final do corpo do poema, reproduzo pequenos cartazes que Bernstein começou a fazer há menos de um mês e a editar em seu blog, com anti-slogans para a campanha do senador John McCain. Os cartazes ele batizou de placards.
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| "Histórias da Guerra", de Bernstein |
Quem paga o preço da resistência – justa – dos latino-americanos aos norte-americanos é, paradoxalmente, a cultura erudita...norte-americana e, especificamente, sua poesia – a melhor, como um todo, do século XX no mundo, ao lado das manifestações de vanguarda européias até os anos 1920. Basta folhear os cadernos “culturais” dos maiores jornais brasileiros para verificar que o cinema norte-americano e a pop music de qualidade duvidosa os pautam. Basta acionar o botão da tevê ou do rádio. Basta andar pelas ruas, onde um nome de loja em inglês a torna “moderna”. Basta ir a uma edição da FLIP (Festa Literária de Paraty), para encontrar prosadores norte-americanos medíocres entre os convidados. Nem toda a arte erudita estadunidense, no entanto, isentou-se de “serviço” político. Leia-se:
Mais uma vez a CIA recorreu ao setor privado para promover seus objetivos. [...] O Museu de Arte Moderna (MOmA), de Nova York, era proeminente entre os museus de arte contemporânea e de vanguarda. Seu presidente, durante a maior parte das décadas de 1940 e 1950, foi Nelson Rockfeller, cuja mãe, Abby Aldrich Rockfeller, fora sua co-fundadora, em 1929 (Nelson o chamava de “Museu da mamãe”). Nelson era defensor entusiástico do Expressionismo Abstrato, ao qual se referia como a pintura da livre empresa.

O poeta Charles Bernstein
Saunders acrescenta que, para o status quo, o Expressionismo Abstrato representava uma arte anticomunista, filiada à ideologia da liberdade e da livre iniciativa, porque, não figurativo, tornava-se silencioso e conveniente. O Expressionismo Abstrato foi o primeiro movimento pictórico norte-americano e conquistou prestígio mundial por meio de seus artistas, como Jackson Pollock (1912-1956), o armênio-americano Arshile Gorky (1904-1948), Philip Guston (1913-1980), que trabalhou com o poeta language Clark Coolidge, Willem de Kooning (1904-1997), Mark Rothko (1903-1970), entre outros.
Resistência poética
Além da resistência ideológica, há para a poesia de Bernstein, no Brasil, a resistência de ela ser, realmente, inovadora, o que desestabiliza o equilíbrio do circuito local – hoje, infelizmente, distante de seus melhores dias. Sua poesia acrescenta e abre perspectivas. Além disso, o resultado dela é bastante distinto do resultado do que se produziu aqui sob a etiqueta “concretismo”, com exceção de alguns pontos comuns a toda peça que se possa chamar de “contemporânea”, como a parataxe, a colagem, a ruptura com certas formas tradicionais de significado etc. Sua poesia vai de encontro ao leitor e não ao seu encontro.
É a poesia do “desacordo”, para utilizar expressão de Anne Mack – “poesia que desaponta o leitor ao afastar-se do tradicional equilíbrio entre opostos e qualidades” . Ela indaga: “por que se espera um sentido cursivo de um poema, quando ele é um poema?”. E caracteriza a poesia de Bernstein como aquela que incendeia seus censores, para que o leitor possa imaginar uma literatura que propõe suas próprias interpretações, uma literatura que torna tangível sua produção de idéias, por meio de cortes, sons e design do poema na página. Bernstein não faz poesia para que ela seja veículo de significados já referenciados, em repertório corrente. Seu maior esforço é o de criar possibilidades de significados, a partir, inclusive, da desconstrução desses significados correntes. Mack observa também que, para Bernstein, o significado não pré-existe ao poema e que ele é “feito” na linguagem.
João Cabral de Melo Neto dizia que Joan Miró não pintava quadros, mas pintava e ponto, e que, ao privilegiar a linha e o traço, rompia com o “equilíbrio renascentista” da representação, que levava outros pintores à tela com composições prontas. Cabral definia a pintura de Miró como “constante dinâmica”, sem aspiração de tornar-se gramática – o que vale para a poesia de Bernstein, igualmente. Por isso, optei por focar o poeta Bernstein e não o excepcional crítico literário ou o líder do movimento L=A=N=G=U=A=G=E poetry, lançado por ele e Bruce Andrews, em 1978, em Nova York, que rapidamente conquistou, para suas fileiras, nomes que, agora, estão entre os melhores poetas norte-americanos vivos: Susan Howe, Lyn Hejinian e Michael Palmer – ao lado de John Ashbery, que se inspirou, no início, no universo francês e no surrealismo.
É hoje Bernstein não só poeta de projeção mundial, como também um dos melhores de seu país, desconsiderando-se as figuras da cultura oficial de língua inglesa como Seamus Heaney, Derek Walcott, Louise Gluck, Anne Carson, Frank Bidart, Paul Muldoon ou C. D. Wright, para não falar da múmia Jorie Graham – “rainha” da cultura do verso oficial. A Bernstein, no entanto, apesar de seus 58 anos, são negadas – ainda – as páginas da revista New Yorker ou as do New York Times Review of Books.
Não quero entrar na questão da L=A=N=G=U=A=G=E, porque, como todo movimento, diluiu-se em centenas de imitadores, e tornou-se um clube, no qual prevaleceu, acriticamente, o auto-elogio ou o elogio recíproco, embora o termo “language poetry” ainda seja um termo “sujo”, e o movimento tenha – de fato – reconfigurado e enriquecido a poesia norte-americana. Lembra o poeta finlandês Leevi Lehto que, para o grupo L=A=N=G=U=A=G=E, era central o conceito de Ferdinand Saussure de que “a linguagem determina a realidade”. E acrescenta: “Por isso mesmo, L=A=N=G=U=A=G=E foi um fenômeno norte-americano, intransferível – mecanicamente – para o palco de outras literaturas”, concluindo que sua influência se dá em termos de estímulo para outras poesias pensarem-se como linguagem e lugar incomum. A lembrança é oportuna num país como o Brasil, no qual a “influência” torna-se “um orgulho”, no dizer de Paulo Franchetti.
Histórias da Guerra
A obra de Bernstein é extensa. Adotei como estratégia de tradução flagrar seu começo e seu agora, de With strings (2001) e, sobretudo, Girly man (2006). The sophist (1987) é considerado um dos principais livros da poesia norte-americana da segunda metade do século XX. No Bernstein pós-11 de setembro de 2001, de Girly man, o combate cerrado ao “eu” e seus clichês (“Sentenças”), o combate à cultura do verso livre e flácido do pós-Segunda Grande Guerra, o “desacordo” com o leitor cedem espaço à urgência, a aforismos – paradoxalmente – diretos, e a poemas como “Histórias da guerra”: “A guerra é surrealismo sem arte”. Notei, ao verter o poema, certa hesitação no que se refere à invasão do Iraque em 2003, creio que em virtude da satânica declaração de Bush “Either you’re with us or you’re with the terrorists”.
O poema foi escrito logo após a invasão, e preferi traduzir “War is an excuse for lots of bad antiwar poetry” por “A guerra é um poema ambíguo, que tenta desqualificar a crítica da guerra”. Naquele momento, opor-se à guerra (atentados ao World Trade Center e Pentágono) seria – de certo modo – legitimar, para um estadunidense, o terrorismo, embora o impasse revele, mesmo num autor de esquerda, o traço de “predestinado” do povo norte-americano e o de “rebelde” latino-americano no tradutor. O poema é um painel da cultura daquele país sob o pretexto de abordar mais uma guerra: “A guerra é um tanque cheio de van para famílias felizes”. E lembro, en passant, que o senador Barack Obama votou contra a invasão. E que os Estados Unidos tornaram-se um Estado terrorista, um Estado torturador, haja vista Abu Graib e Guantánamo.
Metade da poesia de Bernstein é, acentuadamente, norte-americana, “not for export”. Tentei, em vão, traduzir “The ballad of the girly man”, de grande fluência em inglês. E o próprio autor justificou meu fracasso: “As you know, a poem like that is so culturally specific, in this case local american culture not its export product” (carta de 14 de março de 2007). O título Girly man é expressão do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, que declarou, quando da invasão do Iraque, que “só um girly man – um viado, um efeminado – é contra a guerra”. Procurei verter vários tipos de procedimentos (não todos) utilizados pelo poeta de With strings: poema em prosa, poema talhado como escultura (“For”), os que dialogam com a cultura de massas, poema lírico (“Rain is local”) e um poema zaum (“Use no flukes”). (Zaum é uma palavra empregada para se descrever os experimentos lingüísticos sonoristas dos futuristas russos Velimir Khlebnikov e Aleksei Kruchenykh.)
Não sou um “tradutor”, mas poeta em diálogo com outro poeta, e daí decorrem as liberdades que tomei no corpo das traduções. Cabe destacar que Bernstein foi ator no excelente Finding Forrester, de Gus Van Sant, vivendo Jack Simon, diretor da escola na qual estudava Jamal – o menino negro escritor.
A crítica literária Marjorie Perloff – grande admiradora de Bernstein e sobre o qual escreveu vários ensaios – nota que sua poesia faz a linguagem funcionar desde dentro. Espero não ter logrado o leitor brasileiro.
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McCain-Bush Troça & Troca
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