06/09 - 20:26 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo
Antonio Caño, correspondente do jornal espanhol “El País” em Washington, resgatando um conceito do cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), propôs recentemente Barack Obama como poesia e John McCain como prosa – realista.
Pouco depois, John Ludenberg do portal norte-americano “Huffington Post” ecoa, sem sabê-lo, Caño, ao analisar o discurso de aceitação de Obama na Convenção Democrata como “a poesia de um discurso político”.
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| Pier Paolo Pasolini |
O norte-americano Whitman foi o inventor do verso livre e o primeiro poeta a tematizar abertamente seu homossexualismo em “Leaves of Grass”, de 1855, livro de 95 páginas e 12 poemas, editado pelo próprio autor. Ludenberg afirma que a repetição de palavras, para abrir as frases, aproxima o discurso de Obama da poesia.
Obama e McCain: prosa
Tanto os discursos de Obama não são poesia quanto os de McCain prosa ou Obama não representa a poesia e McCain determinada prosa – a prosa de um Oswald de Andrade (1890-1954).
As comparações revelam a ignorância do mundo contemporâneo e da mídia em relação à poesia. Ser chamado de poeta é ser chamado de sonhador, de delirante – aquele que propõe idéias inexeqüíveis, que está fora da realidade. Embora em escala bastante menor, há preconceito no que se refere à prosa. Prosa significa muita lábia – aquele que se configura como estelionatário ou que não diz nada. No entanto, a prosa é mais adequada para caracterizar os dois candidatos ou quaisquer políticos.
Pasolini, autor do genial “Mamma Roma” (1963), “inventou”, num ensaio de 1975, que há, no futebol, uma linguagem prosaica e outra poética. Afirmava que o drible e o individualismo eram essencialmente poéticos, enquanto a retranca (jogar na defesa) e a triangulação, prosaicos. O futebol-prosa baseava-se, para ele, na sintaxe, no jogo coletivo e organizado, sintetizado num sistema, enquanto o futebol-poesia, que identificava com a seleção brasileira de 1970, de Pelé, Tostão, seria o inusitado, o estranho e o imprevisto.
War-shington
A definição é razoavelmente correta (quanto ao imprevisto), tanto para a poesia quanto para o futebol. Parcialmente certa porque não há inspiração sem trabalho e principalmente sem ordem. E muitas vezes, como em 1970, a vitória é da poesia.
Há algumas funções da linguagem e a função poética é uma delas, bem como a função referencial, utilizada pela mídia, que visa a transmitir informações, valorizando-se o objeto noticiado e não – como na poesia ou na prosa de arte – a própria linguagem: seus sons, seus ritmos, seus significados inauditos.
O futebol-prosa seria eficaz e o futebol-poesia seria individualista e “inspirado”, segundo Pasolini. Então, para Caño, Obama seria um “inspirado”, ao propor mudanças, e McCain representaria um sistema eficaz, sem “magia”, ao repetir o programa republicano.
Os dois representam, creio, única e exclusivamente a prosa, porque objetivam estar em janeiro de 2009 em “War-shington”. Transcrevo trecho do poema “A Bomba” (1961), de Carlos Drummond de Andrade, para que o leitor tenha idéia clara do que é ótima poesia:
A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe
A bomba
arrota impostura e prosopopéia política
A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living
A bomba
é podre
Prosopopéia – como todos sabem – quer dizer discurso empolado ou veemente e é uma figura de linguagem por meio da qual o locutor confere sentimentos humanos a seres inanimados, a animais ou a mortos, por exemplo.
| Reprodução |
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| Autocaricatura de Carlos Drummond |
É o populismo guerreiro e irracional dos republicanos: Obama votou, no Congresso americano, em 2003, contra a invasão do Iraque. Neste caso, caracterizou-se como prosa ensaística, analítica, reflexiva.
As propostas de Obama são prosa racional: reduzir 95% dos impostos dos trabalhadores, reduzir os impostos para os pequenos empresários e aumentá-los para os grandes, investir em educação, em energia renovável, em pesquisa contra o aquecimento global, restabelecer direitos civis rasurados por Bush e restaurar o diálogo com os outros países etc.
Palin, a provável presidente
Algumas vezes Obama é, no entanto, prosa vulgar: quando admite intervenções unilaterais em países que abriguem terroristas, como escreveu em seu livro “A Audácia da esperança” (Larousse, 2006).
| Reprodução/huffingtonpost.com |
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| Sarah Palin |
McCain é prosa estelionatária quando promete reduzir ainda mais os impostos dos ricos e “preparar o trabalhador americano para competir na economia global”. McCain é prosa hollywoodiana quando repete, sobre os terroristas, “Wanted, dead or alive”.
Ele mesmo, aliás, sofre de câncer de pele e pode se transformar em “prosopopéia” num discurso da presidente Palin. É provável que McCain/Palin vençam as eleições norte-americanas. O Partido Republicano, de 1945 para cá, esteve 36 anos no poder contra 23 anos dos Democratas e, entre os Democratas, apenas Jimmy Carter (1974-1977) foi, de verdade, um social-democrata.
Lyndon Johnson (1963-1969) foi um Democrata à direita. John Kennedy (1961-1963) é, até hoje, mais um mito do que um progressista. Harry Truman (1945-1963) era um democrata mais à direita do que Johnson.
Não há políticos comparáveis à poesia, embora os sonhos de Obama, como definiu o excelente Caño, sejam mais do que necessários. Ao cabo, os políticos passam, apesar de seu danos permanecerem por décadas, e a poesia fica.
Quem se lembra do presidente português ao tempo de Fernando Pessoa? Há que se criticar, veementemente, a queda de nível da civilização, que provinha da Europa, e a erosão dos direitos civis e trabalhistas que ocorreu em países do “mundo livre”, a partir dos anos 1990.
Há que se denunciar os Estados-máfia, como a Rússia e seu apêndice Ossétia do Sul e outros, que surgiram depois da extinção, em 1991, da deplorável União Soviética e denunciar o trabalho escravo na China, de Hu Jintao. Os Estados Unidos teriam um papel civilizador decisivo a representar nesse início de século, mas lá, sobremaneira, os políticos merecem — espero que Barack Obama seja exceção como Carter o foi – o desprezo que Platão nutria por eles.
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