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A missão de Joe Biden

23/08 - 20:17 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo

A escolha de Joe Biden, 65 anos, e 36 de Senado, para concorrer à vice-presidência nas eleições norte-americanas atesta que Barack Obama e seus partidários reconhecem o crescimento ameaçador de John McCain, que se deu a partir do provinciano comercial que o caracterizava como "celebridade", a la Britney Spears.

 

A presidência dos EUA não é lugar para um intelectual negro, polido, elitista por ser intelectual, que pensa antes de falar, e estudou na Ivy League, mas para os cowboys – pragmáticos, que sabem tocar as boiadas do mundo e fazê-las dar lucro às empresas da América.

Biden – um especialista em relações exteriores – é bem mais agressivo do que Obama. Segundo o professor de história da Universidade de Princeton, Julian E. Zelizer, "fala antes de pensar". É crítico feroz da junta Bush/Cheney/Halliburton que, agora, corre com o "cavalo" McCain. Biden repete que o governo Bush foi o pior da história moderna dos EUA. E chama as propostas do candidato republicano de "abjetas". E, de fato, o são.

Reprodução
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Obama e Joe Biden

A tópica das relações internacionais tornou-se, do ponto de vista popular, psicológico, a mais importante da campanha: o próximo presidente terá que lidar com Osama Bin Laden, o terrorismo, segurança nacional e, agora, com uma espécie de nova Guerra Fria, depois de a Rússia ter invadido a Geórgia, onde Biden esteve há pouco mais de uma semana. O senador de Delaware tem a tarefa de mostrar que Obama e ele dominam, de modo mais seguro, o cenário internacional do que McCain.

As diferenças entre Obama e McCain

No entanto, a principal questão da campanha é a da distribuição de renda, por meio de impostos, do desemprego e da inflação em alta – intencionalmente obscurecida pelos Republicanos em seus comerciais de celebridades.

John McCain não pertence à "ala mais liberal" do Partido Republicano, como escreveu, este “weekend”, um colunista de um grande jornal, admoestando o governo brasileiro: "O exótico nesse cenário são pessoas do alto escalão federal acreditarem numa mudança fenomenal nos EUA com a eleição de Obama, enquanto McCain seria apenas o continuísmo lúgubre da política belicosa fracassada de George W. Bush. (...). Obama representará um avanço simbólico grande apenas por ser negro...". O comentário, além do cacófato imperdoável ("numa mudança" – "mamo"), do tom veladamente preconceituoso, é mal informado.

Há substantivas diferenças entre McCain e Obama, que, ao contrário de seu adversário, defende redução de impostos para a classe média – esmagada e desempregada –, aumento de impostos para os ricos e para as grandes fortunas, reorganização ou racionalização do sistema financeiro e maior controle dos bancos.

Para maior clareza: McCain defende menos impostos ainda para os ricos e hoje alinha-se totalmente com as políticas de Bush. Talvez, o afoito colunista quisesse dizer que os EUA seguirão como o "império", mesmo com Obama eleito – o que é óbvio.

A cada dia, a abordagem de McCain a respeito da guerra contra o Iraque piora e se radicaliza. Ele reivindica que "se estude melhor a retirada das tropas". É o dinheiro da Halliburton.

O poeta e professor norte-americano Charles Bernstein desloca uma frase de Richard Nixon (1913-1994) para delinear o McCain de agora: "You wouldn’t trust the man who made the mess to clean it up.... And by the same token you can’t trust the man who was picked by the man who made the mess to clean it up". Traduzindo: o candidato do homem que fez a guerra não é confiável para desfazer a guerra. E a palavra "guerra" aqui inclui uma crise global com vários conteúdos, inclusive, o climático.

Como anota Hannah Arendt, há historicamente um desprezo pela política: "A convicção de que a atividade política é mal necessário – devido em parte às necessidades básicas da vida, que obrigam os homens a viver como laboradores ou a comandar escravos que os atendam e, em parte, aos males que provêm do próprio convívio, isto é, o fato de que a multidão ameaça a segurança e até mesmo a existência de cada pessoa - é linha a percorrer os séculos que separam Platão da era moderna".

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Jill e Joe Biden

Foi, exatamente, o afastamento dos intelectuais da política que permitiu a ascensão, no mundo, dos governos mais fascistas (extrema-direita) desde Hitler: Bush nos EUA e Berlusconi na Itália, que superam, em inúmeros aspectos, as didaturas latino-americanas que, ao menos, assumiam-se como ditaduras e não como "governos democráticos".

A extrema-direita apropriou-se das lições de Karl Marx abandonadas pelos intelectuais (esquerda). Ou seja, ela entendeu que a esfera política guia-se pela divisão opressor/oprimido, explorador/explorado e que, principalmente, para se transformar a sociedade, os sistemas legais positivos precisam ser rasgados.

Foi isso que Bush fez, revogando, por exemplo, direitos civis fundamentais dos cidadãos norte-americanos que, hoje, podem ser espionados sem ordem judicial, ou implantando um Estado-torturador em Guantánamo e Abu Graib e inúmeros outros ilícitos internos, como o Katrina (produto do desvio do orçamento para a guerra) e externos, ainda a serem apurados.

Entre as maiores "transformações" propostas por Bush está a recessão americana, que já se espalha pelo Europa e pela Ásia: provocar inflação, que gera – entre outros males – aumento de taxa de juros e transfere mais ainda renda dos assalariados para ricos.

John McSame

McCain pretende seguir com esse programa. Declara não saber quantas casas possui, querendo dizer que possui muitas, na maior crise de habitação que os norte-americanos vivem desde 1929/1931 – graças à ação imprudente de Bush e dos bancos ao lidar com os débitos hipotecários. Obama quer mudar, ao menos em parte, tal panorama – ao contrário do que afirma o hilário colunista que mencionei.

Vem-me à tona o clichê da velha diplomacia brasileira encarnado na frase que "os Republicanos são melhores para o Brasil porque são a favor do livre comércio, ao contrário dos Democratas".

O custo de se prosseguir com a guerra contra o Iraque e Afeganistão atinge muito mais a economia brasileira do que mero e eventual protecionismo Democrata na área do "livre comércio". A guerra aquece a terra e causa prejuízos enormes ao agronegócio brasileiro, por exemplo. É o velho gosto por cowboys na política: eles fazem o serviço "sujo" para as empresas. É o desprezo pelos intelectuais, pelo pensamento.

Biden é uma combinação de intelectual (historiador, advogado) e vaqueiro. Sua missão, relativamente fácil, é atacar os infinitos pontos fracos de Mc Cain. Não vai – se bem-sucedido – permitir que Obama seja transformado no novo Adlai Stevenson (1900-1965) – um intelectual branco, de tradicional família americana, filho de um ex-Presidente, que, como Barack Obama, tentava qualificar a política norte-americana e perdeu, ingenuamente manipulado por Harry Truman, as eleições de 1952 para Dwight Eisenhower (1890-1969).

A guerra é, como afirma Bernstein, em um poema intitulado "Histórias da Guerra", "o engajamento internacional para disfarçar a indiferença doméstica". Com a vitória de McCain, o projeto americano de dominação selvagem do mundo seguirá incólume, com a colaboração irrestrita dos "ianques" de uma Europa sem armas (Gordon Brown, Merkel, Sarkozy, Berlusconi): ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres – "o níquel dos despidos". Com a vitória da chapa Obama/Biden o cenário pode ser menos sombrio.

Vídeo sobre as mansões de McCain

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Saiba mais sobre o  escritor Régis Bonvicino





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